“O instituto é um marco possível graças a uma equipe que se integrou nessa utopia.”

Publicado em: 29 de maio de 2019

Em continuidade a nossa série histórica em homenagem aos 20 anos de Instituto Mamirauá, conversamos com a socióloga Edila Moura, uma das primeiras pesquisadoras sociais do Instituto Mamirauá. Atualmente, é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Qual foi o seu papel na criação e consolidação do Instituto Mamirauá?


Eu me considero uma pessoa muito feliz por essa oportunidade de trabalhar com esse projeto. Foi um grande privilégio. Eu vejo que um aspecto relevante do trabalho foi contribuir para a formação, capacitação e o acompanhamento de pessoas que hoje estão no instituto ocupando cargos importantes de direção, na organização dos programas e no fortalecimento político das comunidades. Foram minhas ex-alunas, bolsistas de iniciação científica que eu levei a campo para ensinar como fazer pesquisa e hoje estão desenvolvendo um trabalho que eu considero de grande relevância.

Quais foram os trabalhos realizados no campo social?


Fizemos o registro de como essas populações vivem, como elas se organizam socialmente, quais são as principais atividades econômicas e os mercados com os quais elas se relacionam. Um dos dados que coletamos no primeiro registro era o alto índice de mortalidade infantil, que reduziu bastante nas últimas décadas, resultado de um trabalho que foi feito de apoio à saúde comunitária. Esses dados coletados foram e são indicadores sociais das ações que estavam sendo desenvolvidas junto a essas populações.

Como você define José Márcio Ayres?


Ele era uma pessoa contagiante, tinha um grande compromisso com a ciência e com a conservação da natureza. Ele transmitia para nós uma grande urgência em tratar dessas questões. O tempo corria, havia um sentimento muito forte de que a continuidade da depredação ambiental era algo que deveria ser contido muito rapidamente. Todos os esforços dele eram focados nessa questão. Vinte e quatro horas por dia, eu diria. Quem convivia com ele sentia essa grande ansiedade. Ele era uma pessoa muito ansiosa para dar conta de todo esse compromisso e para envolver as pessoas em um sentimento que ele compartilhava com todos aqueles que se aproximavam dele. Com jovens, principalmente, que se mostravam interessados nessa temática. Ele compartilhava os saberes, as oportunidades de pesquisa e de acesso à formas de financiamento para que esse trabalho pudesse conjuntamente ser realizado no tempo mais breve possível. Isso é uma coisa que me marcou muito na convivência com ele.

Como você vê o impacto do instituto na conservação da Amazônia?


O instituto foi um grande marco. Foi um trabalho gigantesco que foi possível porque havia uma equipe que se integrou de forma bastante densa nesse projeto e nessa utopia. O Mamirauá se consolidou como um dos principais institutos de desenvolvimento do país. Contribuiu para a formação de muitas pessoas, tanto na parte acadêmica e científica quanto na parte da formação das lideranças locais. Hoje é uma geração de trabalho. Vinte e cinco anos é uma medida de uma geração e agora já é um outro momento nessa história, ainda com mantendo esse compromisso com a conservação da Amazônia.

Como é que a senhora vê o papel dos comunitários na atuação do instituto?


Eu acho que todo esse trabalho só foi possível porque ele se estruturou com o envolvimento das populações e lideranças locais. Existia um trabalho muito forte da Prelazia de Tefé, igreja católica da região, que formava as lideranças e tinha uma metodologia própria de trabalhar que dava importância ao trabalho de um líder comunitário. Era um movimento para incentivar as pessoas ao trabalho que é interesse comum a todos. Desde os primeiros anos, todos os trabalhos, seja a pesca, manejo florestal, agricultura e outros, foram construídos a partir do envolvimento com esses trabalhadores locais.

Como você resumiria seu sentimento em relação ao trabalho?


Eu me sinto perfeitamente realizada. Foi uma experiência que não fazia parte do meu projeto de vida. Eu fui levada a essa situação por diversas circunstâncias. Mas que foi um desafio que eu consegui superar – com o trabalho de toda a equipe, que era forte e integrada. Hoje eu me sinto muito feliz de ter contribuído com isso. Eu vejo que os momentos hoje não são mais tão favoráveis quanto foram naquela época. Nós tínhamos muito mais facilidade de obter recursos, de fazer as capacitações. Foi muito fácil planejar e executar essas ações com esse suporte todo. Hoje os desafios para a equipe que está atuando lá são muito mais difíceis nesse sentido. Mas por outro lado, já tem uma estrutura que facilita, que favorece a continuidade desse trabalho. Dias melhores virão, com certeza.

Ouça a entrevista completa abaixo:


Para assistir a entrevista, clique aqui.

Para saber mais sobre as pesquisas sociais realizadas pelo Instituto Mamirauá, acesse aqui a página do nosso Grupo de Pesquisa em Territorialidades e Governança Socioambiental da Amazônia. 


Confira também a entrevista com a antropóloga Deborah Magalhães, uma das responsáveis pela implementação do modelo de desenvolvimento sustentável nas reservas.

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