©Everson Tavares

“Eu fico muito feliz em ver, hoje, o que é o instituto e ver o quanto uma ideia deu certo.”

Escrito por

Instituto Mamirauá

Publicado em

21/05/19

Em comemoração aos 20 anos de Instituto Mamirauá, organização fomentada Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), conversamos com a antropóloga Deborah Magalhães, cujo papel foi fundamental no estabelecimento do Projeto Mamirauá, que deu origem ao instituto. Deborah foi responsável pelos primeiros estudos sociais na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Atualmente, é professora do Programa da Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Como se deu a origem do trabalho que resultou na criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá?

A reserva tem origem no trabalho de campo do José Márcio Ayres com o uacari-branco, isso é bem conhecido. Mas é também fruto da nossa relação com a população local, os ribeirinhos. Eles eram uma parte da vida de campo do Márcio e também meus colaboradores de pesquisa. Então, durante o trabalho de campo, Márcio se interessou, junto com o Luiz Cláudio Marigo, em fazer uma proposta para a criação de uma reserva naquela área, onde ele estudava o macaco. Coincidentemente nessa época, estava acontecendo um movimento internacional de revisão das propostas e das premissas da conservação, e o modelo de conservação associada as populações locais estava crescendo, se desenvolvendo. 

Comente um pouco sobre esse contexto que deu origem a essa ideia.

Esse decreto [instituição da unidade de conservação] aconteceu na ECO92, que também teve essa virada de interpretação, de definição de um modelo de desenvolvimento sustentável, em função principalmente de uma crítica dos países chamados de “não desenvolvidos” à agenda de conservação que supostamente inibiria o desenvolvimento reconhecido como progresso, ou seja, tudo de bom estaria sendo impedido pela conservação.

Então, a ecologia não tinha muito espaço. Nesse momento, a partir de ideias que vieram do mundo inteiro, surgiu o termo o termo ‘desenvolvimento sustentável’, termo proveniente da Noruega. Isso foi incorporado à conservação, e no Brasil nós adotamos isso, especialmente no Mamirauá, mas também na reserva extrativista como um modelo de conservação. 

Modelo que para o país e para a Amazônia em particular, tinha tudo a ver por causa das extensões das unidades de conservação que não podem, não podiam e não podem ser implantadas sem a participação da população local. Não é só por uma questão de justiça, mas porque a conservação nunca iria acontecer sem as pessoas, diferente de um Parque do Itatiaia, da Floresta Nacional, dos arredores de uma cidade. Na Amazônia, se não for interesse local, é inviável.

Como surgiu o Projeto Mamirauá?

O Projeto Mamirauá surgiu da ideia de implantar a reserva, que foi decretada no papel. O Márcio foi convidado a implantar essa reserva e para isso ele fez esse projeto, do qual eu participei junto com o Richard Bodmer. Nós escrevemos e conseguimos financiamento para implantar as primeiras fases. O nosso trabalho era de tornar algo que estava no papel numa realidade social.

Então o projeto ia de comunidade em comunidade para falar do que se tratava, checar se essas pessoas estavam de acordo ou não. Se não estivessem, não íamos trabalhar. Mas encontramos na população local um interesse que convergia com o interesse dos biólogos em fazer uma conservação das espécies e da várzea, que era o interesse em preservar o sustento deles ameaçado, à semelhança do que aconteceu com os seringueiros no Acre. 

No caso da região de várzea do médio Solimões a pesca excessiva estava ameaçando um modo de vida importante. Por isso, se formou uma parceria com os moradores locais visando o mapeamento e zoneamento de áreas de manejo.Hoje em dia, esse modelo é exportado para outras regiões do Brasil. Na Amazônia é o caso do manejo sustentável do pirarucu. 

Como foi a criação do instituto?

Foi da sabedoria do Márcio criar laços com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que resultaram na criação do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Foi uma forma de tornar a iniciativa e o trabalho inicial de criação e implantação da reserva em um projeto. Isso foi um movimento em direção à durabilidade, à permanência, à continuidade de uma ideia, de uma proposta.

Fale um pouco sobre a importância do Márcio ser a pessoa certa, no lugar certo.

Não adiantava só o contexto ser favorável se não fosse a iniciativa e o protagonismo dele. É claro que a parceria foi importante. Todos os componentes contribuíram e são autores de um processo de criação do que é hoje um instituto, do que é hoje a reserva. Mas sem uma pessoa puxando essa carruagem – dirigindo, manobrando, pilotando o barco – não existiria nada disso. Eu acredito que é preciso um espirito abrangedor e de generosidade para entender que sozinho não se faz muita coisa. É raro estar associado a um talento acadêmico, de diplomacia, e de inspirar confiança nas pessoas e olhar para frente. Sem uma pessoa que conseguisse envolver tantas pessoas e recursos, eu acho que nem reserva, nem instituto existiria. 

Como você classifica o sentimento de quando tudo isso aconteceu e como você avalia o que foi feito?

Uma aventura. Eu tinha acabado de voltar da Inglaterra, eu sabia que ele [Márcio] estava escrevendo o projeto para esses primeiros financiamentos. E ele falou “Toma conta da parte humana”, e me deu carta branca. Convidei as pessoas que vieram logo após esse começo comigo e sou grata, pois sem elas eu não poderia ter feito aquilo que eu considero o trabalho mais importante da minha vida. Eu fico muito feliz em ver, hoje, o que é o instituto e ver o quanto uma ideia deu certo. O quanto aquilo que era um lugar de pesquisa que, a gente, levando o Daniel, e depois o Lucas, que são nossos filhos, se transformou. Não tinha nada do que tem hoje. Eu acho que isso é uma realização que eu não poderia querer melhor. É uma realização muito grande de poder contribuir um pouquinho e ver quantas pessoas que vieram depois, seguiram e puderam realizar cada uma o seu projeto. Lá [no Instituto] estão todos tomados por uma ideia de um projeto para a várzea e para os moradores em prol de uma visão de conservação e uma outra mentalidade a respeito do que é ecologia, o que são as ligações entre as espécies e de como o mercado pode entrar nisso tudo. Uma visão positiva.

Ouça a entrevista completa abaixo:

Para assistir a entrevista, clique aqui.

Para saber mais sobre as populações ribeirinhas da região do Médio Solimões, na Amazônia Central, acesse aqui a página do nosso Grupo de Pesquisa em Territorialidades e Governança Socioambiental da Amazônia.

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