Instituto Mamirauá - Conservação na Amazônia - Raimundo de Oliveira Queiroz - https://www.mamiraua.org.br/pt-br/reservas/lideres/raimundo-de-oliveira-queiroz/

Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Reservas

Rafael Forte

Raimundo de Oliveira Queiroz

Presidente da Colônia de Pescadores Z-23 de Alvarães

Raimundo é uma “prova viva” de que preservação dá certo. Ele, que foi seringueiro e agricultor, acreditou na pesca e fez dela sua vida e, atualmente, além de pescar, é presidente da Colônia de Pescadores Z-23, de Alvarães. Ele testemunhou a recuperação dos estoques pesqueiros, depois da criação das reservas: “eu já tinha pescado no Pantaleão algumas vezes antes da criação da reserva, quando ainda não tinha essa cobertura de vigilância. Quando estava seco não tinha nada, você não via um pirarucu, um tambaqui, somente uns peixes miúdos. A solução foi fechar a área para a pesca. Depois de um ano que nós tínhamos fechado o acordo, fomos fazer a contagem e havia mais de 1.600 pirarucus. Para nós, isso foi um espanto. Aquela soma deixou todo mundo feliz da vida, deu mais vontade de trabalhar com a preservação porque nós vimos que dava certo”. O estoque natural de pirarucus, nas áreas manejadas das Reservas Mamirauá e Amanã, aumentou em mais de 425% ao longo dos últimos 10 anos, para alegria de Raimundo e dos mais de 180 pescadores beneficiados com o acordo na região do Pantaleão.

Quando você assumiu a colônia?
Em 2006 e na época, já tínhamos uma visão para o futuro, que o pescador precisa se organizar, já pensávamos no futuro da aposentadoria, quando precisar de um auxílio doença, auxílio maternidade, começamos então a "arrumar a casa" porque estava um pouco desorganizada, instalamos internet, telefone, porque sem comunicação também fica difícil, e fomos trabalhar na questão de organizar a documentação do pescador, muitos pescadores que moram nas comunidades não tinham oportunidade, então fomos atrás deles nas comunidades orientando, buscando os que lhes faltava a documentação, a gente começou a dar informações. Procuramos ajudar dessa forma para que ele pudesse vir com seus devidos documentos e se regularizar como pescador profissional.

Em que momento desse trabalho o Instituto Mamirauá começou a fazer parte?
O Mamirauá tem sido um parceiro assim, um parceiro muito grande, a minha atividade maior foi a pesca e de repente a gente começou a discutir a essa questão do manejo e o Mamirauá dando aquele apoio, sinceramente falando, o instituto foi um pai para gente aqui nessa região, foi um professor maior, que passava todas as informações e orientações para gente, então com isso, depois de um ano que nós tínhamos fechado o acordo de pesca do Pantaleão e fomos contar tinha mil e seiscentos pirarucus e isso para gente foi um espanto, puxa vida aquilo ali deixou todo mundo feliz da vida, nós tínhamos uns trezentos pescadores trabalhando naquilo, e quando eles foram fazer a contagem para gente assim aquilo cresceu, deu mais vontade de trabalhar com a preservação porque viram que iria dar certo. No segundo ano deu mais de três mil peixes, então tudo isso assim foi dando mais força e ânimo, e a gente começou a acreditar que a preservação é o que dá certo, preservando é que com certeza a gente vai ter no futuro para nossos filhos e netos, isso com certeza não vai acabar.

E o que você conhece da história do Instituto Mamirauá?
A história eu conheço bem pouco porque vivíamos perto de Alvarães e tudo começou ali perto da Boca do Mamirauá mesmo, mas aí a gente não ligava para esse tipo de coisa, a data mesmo fui aprendendo por aqui, surgiam conversas de que o pessoal não queria preservar, não queria os macaqueiros na área e hoje ainda existe uma discussão sobre as pessoas que querem trabalhar ou não com a preservação, alguns dizem “isso aconteceu porque prefeito fulano de tal foi lá e assinou o que não acontece nada, isso era para estar livre”, que era pra estar livre e não ser reserva, como a gente já tem o conhecimento que a área precisava disso, hoje a gente passa essa informação para eles. No ano passado na descida da água apareceu peixe bem próximo de Alvarães e o pessoal matava pirarucu, nessas praias que saem próximas a Alvarães e Tefé o pirarucu aparece, então isso é o fruto do nosso trabalho que estamos preservando, então eles têm migrado para esses locais, na Boca-do-Mamirauá nesse ano deu muito pirarucu porque o peixe está sendo protegido e nessa hora que ele sai os pescadores que não querem se regularizar aproveitam para matar e capturar os peixes fora do período de manejo, então isso tem sido muito difícil para quem trabalha com manejo.

De que maneira você enxerga o trabalho e as pesquisas do Instituto Mamirauá atualmente?
Eu acho que essas pesquisas de uma forma ou de outra, ainda que existam pessoas que não têm o conhecimento, que não param para analisar o que é dito, a gente entende que tudo que acontece no Mamirauá sobre pesquisa e educação acontece para o bem de quem mora aqui, mas nem todos veem desta forma, não querem proteger a espécie. Até hoje a gente ouve muitas pessoas criticando quem trabalha com a preservação, mas na verdade eu acredito que tudo tem vindo para a melhoria de vida do povo dessa região. Eu tenho me deparado em algumas reuniões em Manaus onde há presidente de colônia ou representante de  área do rio Negro que não quer valorizar lá, os próprios representantes de lá não querem valorizar a preservação, se tem uma área protegida e vão invadir, eles incentivam o pescador a fazer isso, e na verdade aquilo choca a gente no momento da conversa, dói, nós trabalhamos com a preservação na nossa região, então todo esse conhecimento que a gente tem aprendido foi com o Mamirauá.

O que o motiva a fazer esse trabalho?
O que me motiva mais é ver que dentro do setor existem pessoas que têm a visão que hoje temos, de não ter o recurso natural para si próprio, mas para todos, assim eu posso ajudar os pescadores a defender seus direitos, a lutar por eles com uma representação que eles merecem. Eu quero agradecer a parceria que temos dos órgãos que apoiam a pesca legal e sustentável em nossa região, principalmente ao Mamirauá.

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