Instituto Mamirauá - Conservação na Amazônia - Maria Lucimar Pereira Vale - https://www.mamiraua.org.br/pt-br/reservas/lideres/maria-lucimar-pereira-vale/

Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Reservas

Rafael Forte

Maria Lucimar Pereira Vale

Parteira

“Eu me sinto muito feliz! Muito feliz, eu me sinto!”, disse Maria Lucimar ao folhear o Livro da Parteira, quando questionada sobre sua rotina de trabalho e sobre a importância dos cursos de formação que recebeu do Instituto Mamirauá. Ela é uma das 150 parteiras capacitadas. “Aprendi muita coisa, como é depois que a mulher tem o bebê, como é que faz para a criança respirar, porque a gente não sabia que tinha que colocar em cima da mãe e dar logo o peito, saber como zelar pela mãe, cuidar e ter aquele carinho que a gente não tinha. Aprendi que o carinho com a mãe é muito importante”, disse a parteira que não sabe ao certo quantas crianças já colocou no mundo.

Há quanto tempo você faz partos?
O primeiro parto que minha mãe me chamou para estar com ela, eu tinha 12 anos.

Mas você foi por que ela a chamou?
Eu já tinha até uma ideia de como era para fazer e de como não fazer. Mas aí, ela me chamou e eu fui pra lá ver como era. Aí, parei e depois continuei de novo a fazer os partos.

E você fez cursos também? O que você aprendeu nesses cursos?
Fiz sim. Aprendi muita coisa no curso... Como é depois que a mulher tem o bebê, como é que faz para a criança respirar, porque a gente não sabia que tínhamos que colocar em cima da mãe e dar logo o peito, saber como zelar pela mãe, cuidar para ter aquele carinho que a gente não tinha. Aprendi que o carinho com a mãe é muito importante, e muita coisa eu aprendi no curso.

E o que mudou na maneira de como você fazia parto? Faz quanto tempo que você fez o curso? Quantos cursos você fez?
Não conferi, não. Mas acho que já são uns seis cursos que eu fiz. Em Tefé, fiz quatro, um em Manaus e outro em Brasília. Agora, já fiz de novo em Tefé.

O que mais mudou além dessa coisa de você dar carinho pra mãe?
Coisa que ninguém sabia, dessas coisas que a gente via no vídeo, do que a gente tinha que fazer e não fazer com a mãe, sobre a placenta quando passa do horário da mulher desocupar... Naquele livro da parteira, eu também já aprendi muita coisa, como cuidar da placenta da mulher. Antes, nós amarrávamos o umbigo com corda que nem era preparada, mas agora, usamos as cordas que já vêm prontas para pregar.

Vocês também recebem um kit?
Quando a gente faz o curso sim e quando o material do kit acaba, eu consigo no município de Maraã. Vou lá e o secretário de saúde me atende muito bem e me consegue o material.

Que material é esse?
Um material com a corda do cordão umbilical, gaze, tudo o que a gente precisa... Soro para lavar também, luva, camisa, blusa, chapéu... Tudo isso eles me dão, até porque no derradeiro curso, elas falaram assim: “Quando fôssemos fazer parto, tínhamos que olhar o cartão da vacina dela, se estava em dia ou não”. Se estivesse em dia, podia fazer o parto. Agora, se não, a gente se arriscava se quisesse. Porque é muito perigoso se ela não fez o pré-natal tudo direitinho.

Por que você acha que seu trabalho é importante?
Na hora em que chegam me procurando, que nem uma que tem aqui por perto, que está tão acostumada comigo que ela já não procura outra pessoa e eu também já acostumei a fazer o parto, e gosto também de fazer porque é muito lindo, não é? A gente pegando o bebê... Já era para eu ter tirado as fotos, mas não vem máquina para gente, e o dinheiro é pouco pra comprar. Mas seria muito bom se tivesse uma máquina para tirar as fotos daquela hora do nascimento do bebê porque é muito bonito.

É isso que a encantou em fazer esse trabalho? E o primeiro parto que você participou foi esse?
Sim, o primeiro parto foi esse aos 12 anos. Já faz 38 anos. Eu aprendi com minha mãe. Então, depois que ela não pôde mais fazer parto, eu fiquei no lugar dela.

O quê você acha desse trabalho do Instituto Mamirauá?
Olha, só tenho a agradecer a eles demais! Mercês estava no primeiro curso que eu fiz, e de lá pra cá ela sempre nos acompanha, também a Paula, a Núbia... Tenho muito carinho por eles e pelo projeto Curumim, que nos custeia cursos, alimentação, tudo mesmo. Nós não gastamos nada, e quando a gente vai, a gente já começa a ganhar desde o dia em que a gente sai daqui. Agora, nesse curso de Brasília, fui a única que foi mais longe. As outras foram todas mais perto. Ela dizia assim: “Vocês querem saber onde mora a Dona Lucimar, parteira da Reserva Amanã? Ah, nós queremos!”. Aí, ela colocou lá: “Ela mora mais longe do que você. Ela fica quase no final do Amazonas”. Ah! Mais é legal demais! Só resta agradecer a Mercês, Paula e a Núbia. Agradeço muito, foi através deles que eu já fiz esses cursos. Todo curso que tem, eles chamam...  Enfermeira, secretário de saúde de Maraã. Esse último que teve, ela mandou um e-mail e vieram duas enfermeiras.

E qual é o seu sonho? Se você ainda tiver um por realizar.
Há parteira que se preocupa em fazer o parto e ganhar, não é? E eu não, já não me preocupo. Mas, se um dia acontecer, que é o que estão lutando agora para conseguirmos, para ganharmos, será bem-vindo.  Mas, se não ganharmos, nunca paro de fazer os partos. O meu sonho é ter reconhecimento, e todos os cursos que houver farei. Pode ficar tranquila porque os cursos que houver, ela me avisa, manda cartinha, avisa uma semana antes. A Mercês tem um carinho muito grande por mim, demais... E eu por ela. Agora, ela veio e eu não pude nem conversar com ela porque tínhamos uma oficina para fazer. Foram três dias, não é? Dois dias e meio, era uma oficina de agente ambiental, é tipo um curso para cuidar da comunidade. Como é que você vai pescar, tem que ter uma regra, não pescar peixe demais... Pescar só para comer.

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