Instituto Mamirauá - Conservação na Amazônia - Maria do Carmo Cardoso de Lima - https://www.mamiraua.org.br/pt-br/reservas/lideres/maria-do-carmo/

Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Reservas

Rafael Forte

Maria do Carmo Cardoso de Lima

Agricultora e assistente de campo

“Foi uma vitória para nós”, disse Maria do Carmo Cardoso de Lima, assistente de campo do Centro de Reabilitação de Peixe-Boi Amazônico de Base Comunitária (o Centrinho), mantido pelo Instituto Mamirauá, na Reserva Amanã. A vitória para Maria do Carmo foi a reabilitação de cinco peixes-boi soltos na natureza em agosto de 2012.“E aí todo mundo da comunidade viu, não foi só eu, mas também várias pessoas que trabalhavam com peixe-boi. Cuidamos deles, nós mesmos comunitários, e nós mesmos soltamos, então foi uma vitória”, disse.

A iniciativa visa reabilitar e devolver à natureza peixes-boi feridos ou filhotes órfãos, que são resgatados nos lagos e rios das Reservas Mamirauá e Amanã. No Centrinho, pesquisadores e comunitários trabalham juntos na difícil tarefa de reabilitar esses animais. O sorriso no rosto da líder comunitária revela o resultado desse trabalho conjunto: preservação para os peixes-boi.

Dona Maria a senhora nasceu aqui no Amanã? Onde foi que a senhora nasceu?
Não. Eu nasci no lago de Coari, no município de Coari. Depois de dez anos, eu vim para cá, para o lago do Amanã.

 

Viveu sempre assim em área rural ou já viveu na cidade também?
Na área rural. Nasci na área rural e por lá fiquei até os seis anos. Meu pai e minha mãe se separaram, e a gente veio morar na cidade de Coari. Quando tinha dez anos eu vim pra cá, para o lago de Amanã, porque a mamãe casou com um rapaz daqui. Aí, fiquei aqui. Depois, também, constituí família por aqui e fiz tudo.

Na sua infância, a senhora trabalhou para ajudar sua mãe?
Sempre trabalhei. Quando a gente estava na cidade, sempre ajudei minha mãe. Quando a gente veio para cá, estava sempre trabalhando com a agricultura. Sempre fui assim. Toda minha vida foi trabalhar. Trabalhava porque tinha meus irmãos e não tinha quem cuidasse deles. Eu cuidava porque minha mãe trabalhava, e eu ficava em casa cuidando deles. Quando eles ficaram maiores, viemos para cá e continuamos trabalhando, já era na roça.

A senhora está dentro da comunidade desde a sua fundação?
Desde a fundação e antes, muitos anos antes. Acho que faz mais ou menos uns trinta anos que eu estou aqui. Porque a comunidade já foi assim registrada em 2010...  Aí, que ela foi registrada, e aí a gente já morava. Então, a gente fez. Depois que veio o grupo gerador, voltamos a estudar. Estudei até o ensino fundamental. Não tem mais na comunidade, só na Boa Esperança. Não quis mais ir porque tinha que atravessar o lago e aí, parei. Mas ainda continuo estudando à noite.

A sua relação com o Instituto Mamirauá já é de um tempo, não é?
É. Comecei a prestar serviço para o Mamirauá em 2010. Foi o serviço, mas, frequentemente, sabe, foi, em 2010, que eu fui convidada para ajudar aqui com os peixes-boi. Antes, trabalhei com o Junior e também com o Alexandre com os peixes ornamentais. Daí, o pessoal da equipe do peixe-boi me convidou para cuidar dos peixes. Então, de vez em quando, eu estou por aqui, ajudando a eles.

Como a senhora enxerga o trabalho do Instituto Mamirauá?
O trabalho, assim, do instituto é bom porque ajuda muito a gente na renda, não é? Quando aparece uma oportunidade, a gente aproveita porque a gente vai ficando mais conhecida pelas pessoas, vai aprendendo muita coisa e fazendo amizade com muitas pessoas, e aprende muito. A vida facilita mais para gente, tanto na agricultura como no serviço que a gente faz aqui, porque muitos serviços a gente não sabe, e com o tempo que a gente continua, acaba aprendendo de tudo um pouco.

A senhora já participou do curso de agricultura também?
Sim, sim. Já participei do curso de agricultura e já faz quatro encontros que eu participo. A gente já fez algumas viagens, trocamos experiências com os outros agricultores, tudo isso facilita para a vida da gente. É uma melhoria, um meio de trabalhar, de encontrar mais facilidade no trabalho e ter um produto de qualidade, um meio mais fácil de trabalhar.

Como é o seu trabalho hoje? A senhora leva a produção para Tefé?
Nosso produto, nós levamos pra Tefé e quando há alguém por aqui que queira, às vezes, até mesmo o pessoal do instituto, compra as frutas que a gente tem ou alguma pessoa que queira comprar a gente vende. Mas, a maioria, a gente leva para Tefé mesmo. Produzimos o abacaxi, a banana comprida e curta, a farinha ova, farinha amarela, a goma, a tapioca, o abacate e a macaxeira.

O que a senhora espera da soltura dos peixes-boi? O que a senhora acha que vai acontecer com eles daqui para frente?
Eu espero que tudo dê certo. Que eles possam voltar para natureza e possam continuar se reproduzindo mais, porque acho também que o povo, hoje, está consciente de trazê-los aqui conosco, acredito que eles vão permanecer muito mais quando estiverem na natureza livres. Aí, eu acredito que o que a gente tem que fazer... A gente já fez, não é? Agora, tem que entregar para a natureza. 

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