Instituto Mamirauá - Conservação na Amazônia - Jesuy Tavares - https://www.mamiraua.org.br/pt-br/reservas/lideres/jesuy-tavares/

Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Reservas

Rafael Forte

Jesuy Tavares

Agricultor

Jesuy Tavares mora na Comunidade Boa Esperança, na Reserva Amanã, e está implantando uma nova forma de produção: “estou produzindo em pequenos espaços, uma grande diversidade de produtos, tanto para o consumo quanto para a comercialização. Esse aprendizado foi uma escola para mim. Agora, eu sei a importância do solo, dos animais, das plantas. Foi um conhecimento que eu tive e vou levar para o resto da minha vida”.

Com quantos anos você começou a trabalhar mesmo?
Comecei a trabalhar com dez anos. Já trabalhava direto na roça para nos manter mesmo, porque a alimentação mesmo, sabe, era boa por parte da fartura do peixe, da caça. Mas da farinha era meio complicado. Não tinha essa fartura toda não. Farinha era meio difícil mesmo.

E eram quantos irmãos?
Éramos seis irmãos. Hoje, somos oito porque minha mãe arrumou outro marido. Mas do primeiro pai, éramos seis.

Você teve oportunidade de estudar?
Não. Na época tinha aula, depois que o meu pai faleceu, uns três anos depois. Aí, tinha uma... Até hoje ela mora ali, a mulher do tio Edilson. Ela dava aula ali no Santo Estevão. Aí, o meu irmão mais velho ainda foi bem, estudou uma semana só, no remo. Daí da boca do Calafate, ele ia a remo e ainda estudou esses diazinhos. Daí desistiu também porque tinha que ir ao Taruba remar.

Não tem estudo nenhum, não sabe ler, nem escrever?
Porque, assim, eu leio um pouco e escrevo bem pouco. Mas, já depois que eu arrumei família que eu estudei o EJA (Educação para Jovens e Adultos). Fiz o primeiro seguimento. E foi o que eu fiz de estudo, foi isso.

E aqui em Amanã? Há quanto tempo você chegou?
Aqui na comunidade faz cinco anos que moramos aqui.

E aqui você conheceu o Instituto Mamirauá por intermédio de quem?
Conheci o instituto por intermédio da primeira pessoa com quem trabalhei. Assim, quer dizer, a gente trabalhou ajudando, foi o sr. Jombi. O pessoal o conheceu quando trabalhava aí nessas trilhas, porque abria as trilhas. Aí, a gente começou a trabalhar assim.

Trabalhava de assistente?
Ah, começamos a abrir a trilha com ele. Mas antes, a gente tinha relação com as pessoas. Fazia outros tipos de atividades na reserva. Conversava com algumas pessoas ou conversava sobre o que era a reserva, não é? Desde o tempo da Daniele... Agora, trabalhar mesmo e conhecer o ramo, alguma atividade, dentro do instituto, só a partir daí, quando a agente começou a abrir as trilhas. Daí, fomos trabalhando.

Mas o seu trabalho forte foi com agricultura?
Foi. Meu trabalho forte foi pela agricultura. Sempre trabalhei na agricultura. Isso depois que passou a ter agricultura porque antes, até agricultura era difícil. Era caça e pesca mesmo! E farinha até para comer, era difícil para plantar. Depois que apareceu mais roça assim... Antes mesmo, quando eu me entendia, ali na boca do Amanã, só quem tinha uma rocinha era o finado Estevão e o senhor Felipe, um senhor que morava ali perto do siri, que tinha uma roçinha. Daí, a semente foi começando a plantar em roça.

Mas eu digo lá no instituto, o senhor também se envolveu com trabalho de agricultura?
Eu trabalhei uns dias de assistente de campo com uns meninos da trilha. Daí passou a ter esse programa da agricultura não é? E aí, foi uma coisa, assim, que me chamou a atenção porque é uma parte que a gente queria ter mais conhecimento, para poder trabalhar na parte da agricultura também.

Dessa interação lá com o pessoal do instituto o que você trouxe de conhecimento, de valores?
Para mim foi uma coisa que abriu um caminho porque a gente planta, porque nossa terra é boa, graças a Deus, pois tudo que se planta dá. Mas, tem muitas coisas que me surpreenderam. A gente aprendeu coisas novas com as pessoas, coisas que ninguém conhecia. A gente não dava valor para nossa natureza.  Para falar certo é o nosso adubo, que sem esse adubo, sem essa terra, não produzimos nada. Antes não. Eu dizia que só a terra dava alguma coisa. Então, hoje, tenho conhecimento que não, que só a terra não dá nada, precisa da madeira para poder dar alguma coisa, um produto.

Até para outro estado, não é?
É, isso aí foi uma coisa que valeu a pena! Através do Instituto Mamirauá a gente foi lá para o estado do Acre. Tivemos a oportunidade de conhecer dois assentamentos de agricultor também, então para mim foi uma maravilha mesmo sabe. E apesar de ser uma experiência nova que a gente não tinha conhecimento, valeu a pena porque lá é outro sistema de trabalho até mais difícil do que aqui. Por eles trabalharem com a natureza, para eles poderem plantar. Vão ter que plantar o mato, e aí adubar aquela terra e esperar aquele tempo do processo todo para eles plantarem, senão, não dá porque a terra deles já está fraca. Então, assim, vindo de lá para cá eu ainda valorizei mais aqui, dei mais valor para o que temos. Aí que a gente está sabendo a situação das pessoas que estão lá fora, que querem produzir alguma coisa, até para uma alimentação. A pessoa tem que adubar a terra, e aqui o que você plantar dá. Então, é uma diferença e que você tem que dar valor mesmo.

E aqui na comunidade você exerce algum cargo de liderança?
Eu trabalho, eu sou assim, depois que eu vim da comunidade de Boa Esperança dali do Baré, que eu morava no Baré, vivi quatro anos lá e vim para cá descansar a cabeça, quando cheguei aqui, os caras me pegaram para ser liderança e trabalhar com esporte. Sabe, só tomar de conta de cooperação de bola, essas coisas assim sabe. Eu fiquei assim, tem os capitães lá, mas sou eu que faço toda a cobrança de bola. Já organizamos uma casinha lá e estou aí, e também sou assim, não da comunidade, mas faço parte em contagem de pirarucu quando a gente vai por aí por fora, e assim trabalho. Eu não sou da liderança, mas tudo que passa pela liderança nós temos uma conversa.

O que você produz?
Pimenta, banana, macaxeira, cana, cará... Temos roça com quase um hectare, temos tudo isso, temos também abacaxi. Assim, a farinha a gente faz, mas vende aqui mesmo. A gente leva às vezes cinco sacos, três sacos só para tirar a despesa, mas o resto a gente leva tudo, sabe. Banana, cará, macaxeira, pimenta, a gente leva tudo.

A venda na feira é você que faz ou passa para alguém?
Quando a gente leva muito assim, a gente vende para o atravessador, mas nem sempre é assim. Também, o problema mesmo que a gente enfrenta é lá, porque ninguém tem um espaço adequado não é? Para gente chegar lá e ter seu lugar... Problema mesmo que a gente enfrenta mesmo é esse, por isso que muitas vezes a gente chega lá e vende logo na beira mesmo. Já trabalhei naquela feira de Tefé, já tive a oportunidade de trabalhar um ano, dois anos lá. Tenho mais ou menos a base de lá com o atravessador, tem aquela conversa sobre a produção. Tem que saber que é uma produção boa para levar. Aí, quando a produção é boa tem que valorizar seu produto. Às vezes, a gente perde um pouco, mas não é tanto. O problema maior que a gente enfrenta lá é que ninguém tem aquele lugar adequado. Tudo é com o atravessador e muitas vezes você fica humilhado lá na beira. Os caras vão lá e conversam e se você não for um cara que se vire mesmo você vai ficar lá na beira mesmo. Aí, o cara coloca na proa da canoa e está lá vendendo, bota outra barquinha lá pela beira da praia e vai vendendo e assim vai. E lá, assim, dentro da feira, num cantinho e vai vendendo não é bacana não isso aí.

Você tem um sonho na vida, qual é o seu sonho?
Acho que não tenho só um não, tenho vários sonhos. Mas meu sonho mesmo é de morar aqui sabe, não sair daqui, ter uma casa boa, um saneamento básico, sem lixo, uma casa boa com tudo, tudo que você precisa, e ter minha produção, de ter uma canoa boa para levar minha produção, para mim o resto é isso e criar meus filhos aqui. Se um dia eu tiver a oportunidade de estudar lá fora que nem em Tefé, essas coisas sabe, para gente poder comprar uma casinha e estudar, meu sonho é só esse. Não tenho nenhum outro sonho não, de sair daqui para cidade não tenho não. Meu sonho mesmo é trabalhar na agricultura até quando Deus me der coragem, força. Assim, então esse é o meu sonho.

 

Financiadores