Instituto Mamirauá - Conservação na Amazônia - Donato Barroso - https://www.mamiraua.org.br/pt-br/reservas/lideres/donato-barroso/

Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Reservas

Rafael Forte

Donato Barroso

Manejador florestal

Aos 56 anos, Donato Barroso, da comunidade Nova Betânia, é um manejador florestal para contar história. E a história dele tem duas fases. A primeira, da extração ilegal. A segunda, e atual, do manejo florestal, cujo maior benefício foi a legalidade. “Minha juventude toda foi trabalhando com madeira, só que a gente trabalhava ilegalmente e chegou o período que nós não podíamos mais trabalhar ilegalmente”, relatou. Mas isso começou a mudar com a chegada dos técnicos do Instituto Mamirauá. Leia como isso aconteceu na entrevista abaixo.

Por que o senhor se tornou manejador florestal?
Eu me tornei manejador por causa da facilidade da gente trabalhar livre, por que ainda em 1999 eu trabalhei ilegalmente, eu me sentia oprimido por uma dívida que eu tinha, e o rapaz queria a madeira. Em 1999, nós já havíamos iniciado todo processo no manejo florestal, nós já havíamos feito levantamento de estoque, seleção de árvore, só que não houve a liberação para tirar essa madeira na época, a licença não chegou, aí eu tive que trabalhar ilegalmente para assumir esse compromisso, e com isso nós passamos muita dificuldade com essa madeira escondendo-a do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), só viajávamos de noite, não podia viajar de dia, então com isso nós tomamos uma atitude que daqui para frente ninguém mais vai tirar madeira ilegal, a gente vai trabalhar com ela legalizada, já em 2001 nós tiramos a madeira, colocamos no porto da comunidade à vontade, o pessoal chegava e dizia “e essa madeira aí?”, a gente dizia essa madeira aí é manejada, pronto e o Ibama não “apitava” mais porque eles já sabiam que na Betânia estávamos manejando, na comunidade fulano de tal estava manejando, então se é madeira manejada, não tem problema.

Que mudanças a criação da Reserva Mamirauá trouxe para a extração da madeira?
Quando se criou a Reserva Mamirauá a gente não podia mais trabalhar ilegalmente. De repente aparece alguém do instituto e começa a falar de manejo florestal que a gente ia poder trabalhar legalmente, aí foi quando a gente começou a trabalhar com madeira manejada.

E como as pessoas receberam a notícia de que só poderia cortar madeira se fosse manejada?
As pessoas já comentavam, já diziam: “Olha daqui uns tempos ninguém vai mais poder tirar a madeira, muitas serrarias vão fechar porque não poderão tirar a madeira”. Foi aí que surgiu o Projeto Mamirauá e apresentou essa proposta de manejo. A gente tinha que criar uma associação, essa associação trabalharia legalizada com despacho do Ibama, com autorização. Nós trabalharíamos e não haveria nenhum problema se nós trabalhássemos legalmente, e aí nós abraçamos o projeto.

Então a mudança mais significativa foi a questão da legalidade que o manejo trouxe?
Também houve aumento de renda, a gente pôde ver o resultado do nosso trabalho.

Como funciona a rotina de um manejador?
Olha, a gente faz o levantamento de estoque, faz o talhão agora em dezembro ou janeiro. O talhão que a gente chama é um pique, uma linha base que é feita em cima da restinga de uma estrada, isso que a gente chama de talhão, daí do talhão a gente vai fazer a seleção das árvores. Quando estamos em março ou em abril é que a gente vai cortar, mas só se a gente tiver com a licença na mão, que a maior dificuldade é a licença chegar, estando com a licença em mãos, começamos o trabalho.

O senhor recebeu alguma capacitação do Instituto Mamirauá ao longo desse período?
Sim. Os técnicos foram conosco, nos ensinaram a trabalhar com bússola e fazer medição, e realmente a gente não tinha nem ouvido falar em bússola, nem conhecia, mas os técnicos levaram uma e disseram “olha essa aqui é a bússola", ensinaram direitinho para os meninos que trabalhavam conosco.

O que o senhor pensa para o futuro do manejo florestal?
A gente lutou e luta ainda pela reserva dando apoio ao Instituto Mamirauá. A gente está analisando o futuro dos nossos filhos, porque se continuasse como estava, realmente ia ser muito difícil daqui mais uns anos. Não, sabe por que, eu acreditava?  Por que eu não estava visando o passado, eu estava visando o futuro, porque realmente o manejo florestal teve como parar o desmatamento, na ilegalidade você não queria saber se tinha mãe, se tivesse filho, se tivesse... Se você pudesse arrastar tudo você arrastaria, já essa norma, esses conselhos, de pensarmos no futuro, então eu disse olha, realmente isso aqui não vem mais a ser nosso, vem ser dos nossos filhos, isso aqui é o futuro, porque os recursos naturais que eram nossos, nós quase acabamos, os outros tiraram, levaram na nossa frente e ninguém teve autonomia para cuidar, para zelar por aquilo que nos pertencia, hoje nós estamos quase perdendo o direito, pois ninguém cuidou, porque hoje a gente só faz se tiver autorização para fazer, se não a gente fica parado.

 

Financiadores