Unidade de pré-beneficiamento de pirarucu na Amazônia funciona com energia solar e pode aumentar qualidade do pescado

Publicado em: 24 de de 2018

O Instituto Mamirauá realizou capacitações na Reserva Auati-Paraná, Amazonas, em setembro como preparativo para a inauguração da unidade, prevista para esse ano. Um dos objetivos da tecnologia é valorizar preço do pirarucu manejado

Técnicos do Instituto Mamirauá realizaram oficinas de capacitação na comunidade de Curimata de Baixo, da Reserva Extrativista Auati-Paraná, no estado do Amazonas. As aulas aconteceram nos dias 18 e 19 de setembro dentro da nova Unidade de Recepção e Pré-Beneficiamento de Pirarucu Manejado - uma estrutura flutuante projetada pelo Instituto Mamirauá, que deverá ser inaugurada ainda no manejo deste ano, entre outubro e novembro. A unidade é mais um esforço das comunidades e do instituto para melhorar a qualidade do pescado e, como consequência, seu preço inicial, que quase não aumentou na última década.

Durante as atividades, especialistas do Mamirauá capacitaram membros da Associação dos Agro-extrativistas de Auati Paraná (AAPA) a utilizarem as tecnologias que fazem parte da estrutura. A estação é equipada para receber os pirarucus recém-pescados e para o tratamento do pescado, de forma higiênica e eficiente, até o momento de serem congelados, agilizando o trabalho e melhorando o resultado do pré-beneficiamento.

“É um projeto piloto para os manejadores. Só Auati-Paraná está recebendo uma estrutura com esse formato, mas a gente pensa em replicar a tecnologia para outras áreas”, explica Ademir Reis, Técnico em Tecnologias Sociais do Programa Qualidade de Vida (PQV) do Instituto Mamirauá. “Para a gente, está sendo um aprendizado, estamos muito satisfeitos”.

O projeto tem co-realização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Governo Federal.

Flutuante tem tratamento de água fluvial e funciona com energia solar

O flutuante, financiado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e pelo Serviço Florestal Americano, foi construído no início deste ano. A estrutura é feita com madeira parcialmente coberta por uma camada de fibra de vidro na parte inferior das paredes e no piso, de acordo com as especificações da Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas (ADAF). Esteiras, pias e calhas de aço inoxidável, além de mangueiras próprias para limpar o pescado, uma cozinha e um banheiro completam a unidade.

Um sistema recolhe e trata a água do rio, regulando a quantidade de cloro em duas caixas d’água a um teor de cloro residual livre de 5 ppm (partes por milhão) recomendado para a lavagem do peixe. Em uma terceira caixa, a água é potável. Os efluentes do processo de evisceração e o esgoto vão para uma fossa biodigestora.

Para a iluminação geral e bombeamento de água, o abastecimento de energia é feito a partir de um sistema simples de placas fotovoltaicas, com capacidade de gerar energia solar suficiente para as necessidades do trabalho.

O peixe chega à área de recepção, devidamente higienizada, e é direcionado pelas esteiras até as calhas, onde será eviscerado e lavado. Em seguida, volta para as esteiras e é encaminhado a uma mesa, para ser medido e pesado. De lá, vai direto para a refrigeração.

Além de proporcionar as condições sanitárias ideais para o tratamento do pirarucu, a estrutura melhora também o trabalho dos manejadores. O que antes era feito, na maioria das vezes, à beira de rios e lagos, agora será realizado com equipamentos que evitam o excesso de esforço físico e possíveis problemas de saúde.

“Quem vai fazer o processo de eviscerar o peixe está muito empolgado, porque eles ficavam na beira do lago, no sol. E agora não, vão estar limpinhos, sem perseguição de insetos”, conta Albides Figueira Alves, professor de português e vice-presidente da comunidade Vencedor, na Reserva Auati-Paraná.

Estrutura será administrada pelos próprios comunitários

O flutuante pertence agora à AAPA, responsável por, daqui para frente, promover reuniões e criar mecanismos que envolvam e organizem os moradores em torno do equipamento, para definir as condições de uso e as responsabilidades de cada um. A base, eventualmente, necessitará de manutenções e trará custos à associação. Por isso, é importante que ela esteja preparada para esse tipo de situação.

“Eles têm de abraçar a causa e fazer essa gestão compartilhada. Se apropriar [da unidade] e começar a andar com as próprias pernas”, afirma Ademir. A estrutura reunirá pescadores de seis comunidades da região.

Segundo Miguel Arantes, consultor técnico que coordena o manejo de pirarucu na Resex Auati-Paraná, já existe uma comissão para dar andamento a essa organização. “Estamos pensando também em fazer um regimento de uso desse flutuante, onde cada comunidade de pescadores tenha a sua responsabilidade. ”.

“Vai facilitar muito o manejo do nosso peixe. Em 2005, vendíamos a [cerca de] quatro reais o quilo do pirarucu. Por falta de uma estrutura dessas, hoje ainda estamos vendendo pelo mesmo preço. Talvez agora possamos vender a um preço melhor. ”, relata o professor Albides.

Cartilha de pirarucu é inaugurada entre pescadores

As oficinas começaram na manhã de terça-feira (18) e se estenderam até o final da tarde. Na primeira apresentação, Reinaldo Marinho da Conceição, Técnico em Manejo de Pesca do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, explicou a importância da vigilância sanitária. Questões como a higiene pessoal, a higiene diária do espaço e a utilização de vestimentas adequadas foram discutidas com os moradores da reserva.

A cartilha “Boas Práticas de Manipulação de Pirarucu” foi, pela primeira vez, utilizada com comunitários. O material é uma adaptação de outras publicações do instituto, com linguagem simples e acessível, desenvolvida para guiar os trabalhadores no tratamento correto do pirarucu, do ponto de vista da vigilância sanitária. A produção da cartilha contou com apoio da Fundação Gordon and Betty Moore.

Em seguida, Josenildo Frasão da Silva, também Técnico em Tecnologias Sociais do PQV, falou aos presentes sobre os equipamentos de energia solar e tratamento de água, ensinando-os a melhor forma de operá-los. Fechando as apresentações, Ademir Reis abordou, no final da tarde, as possibilidades de gestão comunitária da unidade, fundamental para que ela funcione de maneira sustentável.

Na quarta-feira (19), os manejadores se reuniram para realizar a limpeza do ambiente, a partir das orientações dos técnicos do instituto. Logo depois, um pirarucu foi utilizado para uma simulação do pré-beneficiamento.

 

Texto: Bernardo Oliveira

 

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