Trabalho conjunto pela exploração de madeira, aliada à conservação da floresta

Publicado em: 12 de novembro de 2015

Cácio mora no município de Uarini, no Amazonas. Erick é morador da zona rural do mesmo município, na comunidade Santa Luzia do Horizonte. Os dois têm em comum o gosto pelo trabalho com madeira e a perspectiva pela continuidade da floresta de várzea. Desde 2014, estão trabalhando juntos, vinculados às associações que fazem parte, para a implementação de um acordo de manejo florestal comunitário.

Em conversa com o Instituto Mamirauá, eles falaram sobre o planejamento e a expectativa para a realização do acordo, que está sendo definido entre a Associação de Serradores e Moveleiros do Uarini e a Associação Comunitária Santa Luzia do Horizonte, da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

Cácio Vidal da Costa

Extrator Urbano do município de Uarini, no Amazonas

Foto: Amanda Lelis

IM: Qual a sua experiência com o trabalho com madeira?

Cácio: Eu morava na comunidade Santa Luzia do Horizonte, tem 28 anos que vim pra cidade. Desde pequeno, eu trabalhei com meu pai com madeira, tirando madeira em tora e vendendo, tanto pra uso como pra comércio. Já tinha trabalhado duas vezes com o manejo. Qualquer tipo de móvel, canoa, ou casa, tudo eu sei fazer. Sempre trabalhei mesmo com madeira, eu gosto. Eu acho bonito, assim, quando estão fazendo uma casa. O móvel vai da inteligência e da matemática, se a gente faz a matemática certa, dá certo. A casa não, é paciência, é outro tipo de medida.

IM: E qual a diferença de trabalhar com o manejo florestal?

Cácio: No manejo o cara é livre, tem tudo legalizado. A importância do manejo é que não vai derrubar madeira adoidado aí, como o pessoal derruba, em todo canto, árvore de qualquer grossura, de qualquer qualidade. Aqui nessa área mesmo, a gente não encontra mais uma árvore de cedro, de andiroba, já acabaram, não tem mais. Com o manejo fica mais fácil vender, melhora a renda. A gente investe mais em móvel para a população da cidade mesmo. A madeira que a gente funciona aqui é pouca, por isso também é bom o acordo com a Reserva. A nossa daqui da cidade não atende à demanda.

IM: E o que vocês, da associação do município, esperam desse acordo com os manejadores da Reserva Mamirauá?

Cácio: Tem muita espécie boa de cortar lá, tem mulateiro, louro, e a gente quase não acha nessas outras áreas. Ai a gente procurou nossos colegas, pra ajeitar o acordo com eles, em parceria com eles. A gente vai continuar, enquanto eles quiserem, estamos aí pra trabalhar com eles, trocar experiência.  O que eu quero é que dê certo o acordo, que a gente continue trabalhando. É bom quando a gente vê um amigo se dando bem ne, conseguindo aquele objetivo.

Erick Júnior Lopes da Rocha

Manejador da comunidade Santa Luzia do Horizonte

Foto: Amanda Lelis

IM: Por que decidiu fazer parte do manejo florestal madeireiro?

Erick: É a primeira vez que vou trabalhar com manejo. Nasci em Tefé e me criei em Tefé, vim pra Uarini pra estudar. Agora to morando no Horizonte, casei, minha mulher é de lá. O manejo iniciou no ano passado, tivemos uma reunião la pra ver quem ia participar e alguns da comunidade não quiseram, ai fizemos um grupo, somos cinco da comunidade.

O manejo, pra gente, é de grande serventia. Você trabalha com a madeira toda documentada, você não tem medo de nada, ter aquele prejuízo grande com apreensão, você trabalha tranquilo. E é um dinheirinho que vem pra gente. A gente trabalha muito ne, mas ajuda, ajuda demais. O manejo serve pra isso, você trabalha com tranquilidade. Todos os trabalhos eu gosto, gosto de trabalhar. E pra fazer tudo isso tem que ter uma equipe, né.

IM: E como está a organização para o acordo de manejo com os extratores urbanos de Uarini?

Erick: Se a gente faz o manejo e vende a madeira para o próprio município, aí vamos trabalhar com uma madeira de qualidade, toda licenciada, com o devido padrão, simplesmente isso. O acordo é bom porque a gente já tem um comprador certo, a madeira sai da comunidade e já vai direto. Depois que a associação estiver com tudo regularizado, a gente vai manter o foco pra que o manejo tenha aquela serventia pra gente, não só pra um, mas pra todos. Pra que, no próximo ano, a gente possa repetir o manejo, que possa existir por vários anos e melhore, né. Estamos todos juntos, animados.

IM: Então você pretende continuar na comunidade, contribuindo para o manejo por muitos anos?

Erick: Quero! Lá tudo é bom. Tem um peixe mexendo na água, até o ar é melhor, é muito rico, é bom demais. Espero um dia chegar na velhice, e quero que minha filha veja essa riqueza. No manejo, você só tira aquela madeira que você vê que tem futuro, que serve. E as outras deixa pra crescerem, anos e anos. O pessoal fez um manejo numa área da comunidade, tem uns quinze anos e já tem árvore boa hoje. Como somos poucos, a gente não produz muito, não vai produzir aquela quantia alta, mas vai produzir uma quantia que todo mundo sai ganhando, é assim.

Por Amanda Lelis

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