Tambaqui ou calabresa? Em evento, Instituto Mamirauá analisa hábitos alimentares de comunidades ribeirinhas

Publicado em: 19 de junho de 2017

O seminário "Diversidade do Mundo Rural na Amazônia" reuniu pesquisa, extensão e movimentos sociais entre 7 e 9 de julho, na Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém. Em foco, uma variedade de temas que constituem o universo rural amazônico: de produção familiar a gênero e sexualidade, incluindo educação do campo e agroecologia. O Instituto Mamirauá trouxe para o debate experiências com comunidades da região do Médio Solimões, estado do Amazonas.

"Uxi ou uva, tambaqui ou Calabresa? Mudanças nos hábitos alimentares de comunidades ribeirinhas do Rio Japurá, Amazonas" é o nome do artigo apresentado pela pesquisadora Jéssica dos Santos. As comunidades estudadas (São Raimundo do Jarauá, Manacabi e Nova Betânia), estão dentro de áreas protegidas e em ambiente de várzea, cujas florestas passam por períodos de seca e cheia, ditados pelo nível de água dos rios.

"As comunidades ribeirinhas da várzea amazônica são conhecidas pela adaptação aos períodos de cheia e seca dos rios e afluentes. Condicionando-as a modificarem as maneiras de obter seus alimentos, seja por meio da agricultura e pesca; e por troca ou compra de mercadorias de regatões e mercados da cidade", afirma o trabalho.

Com ferramentas de Diagnóstico Rural Participativo, a equipe do Instituto Mamirauá, também formada pelas técnicas Cláudia Barbosa, Eliane Neves e a pesquisadora Júlia Ávila, identificou outras influências na dieta ribeirinha. "Percebe-se modificação no consumo de alimentos por estas comunidades devido a outros fatores, como alteração no acesso à renda e por urbanização dos hábitos alimentares", escreve o grupo.

Jéssica explica que um dos objetivos do estudo é a formação de "hortas comunitárias e  viveiros educativos, com foco na segurança alimentar e boas práticas agrícolas" nas comunidades. A construção de viveiros educativos e as pesquisas apresentadas fazem parte do projeto “Participação e Sustentabilidade: o Uso Adequado da Biodiversidade e a Redução das Emissões de Carbono nas Florestas da Amazônia Central” – BioREC – desenvolvido pelo Instituto Mamirauá com financiamento do Fundo Amazônia.

Que farinha tem na feira?

A farinha de mandioca é um alimento emblemático da Amazônia brasileira. No seminário, a pesquisadora do Instituto Mamirauá, Júlia Ávila, também mostrou um panorama da farinha que é cultivada por produtores no município amazonense de Tefé.

Um levantamento feito na feira de agricultura familiar da cidade verificou que os agricultores da região cultivam apenas uma etnovariadade (variedade local) de mandioca e uma de macaxeira. Júlia Ávila pontua que esse resultado "pode representar uma baixa estabilidade produtiva a longo prazo, o que pode gerar consequências tanto na segurança nutricional e alimentar dos agricultores, como na renda familiar".

"Ressaltamos a importância de ações que ampliem a agrobiodiversidade local, como: divulgar essas informações aos agricultores, sensibilizando-os sobre a importância de mantererem outras variedades nos sistemas agrícolas, mesmo que elas sejam de menor interesse por parte dos agricultores e também salientamos a importância de acontecerem feiras de troca com agricultores de outras regiões", afirma Júlia. As pesquisadoras Ângela May Steward e Jéssica dos Santos e o técnico Jacson Rodrigues também fizeram parte do projeto, que contou com recursos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) pelo Programa de Capacitação Institucional. 

Diversidade do mundo rural da Amazônia

Para Jéssica dos Santos, as discussões no seminário "A Diversidade do Mundo Rural da Amazônia" sobre a Amazônia, no contexto e a conjuntura do rural, foram muito bem abordadas. "As palestras foram enriquecedoras, no sentido de vermos em que situação (aqui em Tefé, trabalhando com esta temática) estamos em comparação com as outras demandas, conflitos e realidades amazônidas", afirma.

A educadora ambiental Eliane Neves, que também participou do evento, considera que foi um momento de troca de experiências e olhares "como o da Biologia, Antropologia e Geografia para discutir temas como, por exemplo, as unidades de conservação e as comunidades tradicionais envolvendo o mundo rural na Amazônia".

Texto: João Cunha

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