Simpósio sobre conservação na Amazônia apresenta inovações para produção cientí­fica

Publicado em:  5 de julho de 2019

Evento reúne cientistas e estudantes atuantes na Amazônia para a discussão sobre a pesquisa e conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável de áreas protegidas

Ontem (4), o segundo dia do 16º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon) trouxe novamente dezenas de pesquisadores e estudantes à sede do Instituto Mamirauá, em Tefé, para apresentações de trabalhos de pesquisa e participação nas atividades do evento.

Abordada em palestra e workshop, as tecnologias utilizadas na coleta e análise de dados cientí­ficos foram o principal tema do dia. 

 "A dicotomia entre o homem e a natureza é falsa. Nós fazemos parte da natureza"

Jorge Ahumada, cientista sênior da Conservation International, ministrou a palestra "From image to action: a new platform to organize, process and analyze camera trap and other passive sensor data", onde foram apresentadas novas perspectivas para o armazenamento, compartilhamento e processamento de dados coletados sobre a biodiversidade, a partir de inovações tecnológicas.

Jorge abriu sua palestra ressaltando a importância da diversidade de espécies na regulação de diversos processos naturais e, inclusive, para a manutenção da vida humana. "Precisamos da natureza para viver, não é uma ideia romântica de preservar os animais, mas uma necessidade. Sem a natureza não teríamos, água, oxigênio, comida", explica.

Os animais, em seus diferentes nichos ecológicos, são responsáveis por uma série de serviços ecossistêmicos, tais como a polinização, a dispersão de sementes e a regulação do solo, sem os quais, entre outros efeitos, uma enorme quantidade de carbono seria liberada na atmosfera, acelerando o processo de mudanças climáticas pelas quais passamos hoje.

Para que estratégias de conservação sejam melhor elaboradas, é fundamental monitorar a biodiversidade mundial. A ciência encontra dificuldades para realizar esse monitoramento, tais como a desatualização da tecnologia utilizada, a dificuldade em se analisar os dados, o isolamento dos dados, às vezes contidos apenas nos sistemas de armazenamento de pesquisadores ou instituições e a utilização de equipamento que não foi desenvolvido especificamente para produção cientí­fica.

Para sanar essas questões, Jorge apresentou o projeto Wildlife Insights, uma plataforma que pretende receber, armazenar e compartilhar dados sobre a biodiversidade do mundo inteiro.

O pesquisador propõe também inovações para a automatização de processos de pesquisa, como a identificação e classificação de espécies por meio da inteligência artificial e o desenvolvimento de equipamentos que se ajustem às necessidades dos cientistas. 

Monitoramento da fauna e flora amazônica foi tema de workshop

Além das diversas palestras e apresentações em pôsteres, que se espalharam pelo dia, os workshops "Providence: Oportunidades para o uso de tecnologias em estudos de ecologia e conservação", apresentado pelos pesquisadores Dr. Michel André, da Universistat Politècnica de Catalunya, e Dr. Emiliano Esterci Ramalho, diretor técnico-cientí­fico do Instituto Mamirauá, e "Wildlife Insights: A large multi-institutional partnership for global wildlife data", apresentado por Jorge Ahumada, cientista sênior da Conservation International, mostraram  as novas possibilidades de coleta, análise e compartilhamento de dados que a tecnologia pode oferecer aos pesquisadores em um futuro próximo.

"A sustentabilidade do sistema está relacionada aos períodos de repouso do solo"

Com a palestra "A roça que sai do lugar: Mapeamento da paisagem agrí­cola na Reserva Desenvolvimento Sustentável Amanã, Amazônia Central, Brasil", a pesquisadora Jéssica dos Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), apresentou um panorama da agricultura na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, no Amazonas, e como ela se relaciona com a paisagem local. 

A partir de imagens de satélite coletadas desde 1988, a pesquisa buscou compreender como vem ocorrendo a conversão florestal para uso agrí­cola na reserva. 

Tradicionalmente praticada por comunidades ribeirinhas, a agricultura migratória consiste no processo de derrubada uma porção de floresta e queima do material orgânico resultante para a fertilização do solo. A área é utilizada durante alguns anos e depois é abandonada e deixada em um período de pousio para que a floresta se regenere e recupere os nutrientes do solo. 

Durante esse período, o agricultor planta em uma nova área, que pode já ter sido manejada e deixada em pousio ou não. 

A pesquisadora buscou mapear as áreas agrí­colas na unidade de conservação e quantificar o tempo médio de pousio utilizado pelos agricultores. O estudo chegou à conclusão de que 63% dos roçados ocorrem em áreas reutilizadas pelos agricultores, sem a derrubada da mata virgem. Descobriu-se ainda, que o período de pousio praticado pelos ribeirinhos da região costuma durar de 5 a 7 anos.

"A Amazônia como espaço gerador de conhecimentos"

Ministrada por Ailton Cavalcante Machado, da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), a palestra ‘O uso de cartilhas didáticas envolvendo o tema da várzea e terra firme em escolas rurais amazônicas’ apresentou a experiência com a cartilha ‘Na comunidade eu aprendo: conservando o nosso ambiente’ como ferramenta didática em sala de aula com alunos de ensino fundamental.

A ideia do estudo teve origem em 2017, em uma oficina sobre educação ambiental promovida pelo Instituto Mamirauá em Manaus, da qual Ailton fez parte. No evento, as cartilhas foram distribuí­das aos participantes.  

Com o material em mãos, surgiu a ideia para a pesquisa, que avaliou 25 crianças de ensino fundamental em uma escola rural na comunidade do Caburi, no município de Parintins, estado do Amazonas. A cartilha explica as características e diferenças entre áreas de várzea e terra firme, dois tipos de ambientes presentes na Amazônia.  

O estudo percebeu que 95% das crianças sabiam que as várzeas alagavam anualmente, no período das cheias, enquanto os ambientes de terra firme se mantinham acima da água. Entretanto, 97% dos alunos não sabiam explicar as razões para essas características. 

Após a utilização das cartilhas em aulas práticas, concluiu-se que, quando bem trabalhadas pelo professor, elas podem contribuir de forma significativa para o ensino e aprendizado de crianças rurais. O pesquisador ressaltou também a importância de incentivar atividades exponham conteúdos ligados ao ambiente em que os alunos estão inseridos, para facilitar o processo de apropriação daquele conhecimento.

Manejo sustentável encerrou dia do simpósio

No final da tarde, a mesa redonda "Gestão e Governança de Áreas Protegidas na Amazônia" reuniu as pesquisadoras Patrícia Rosa e Isabel Soares de Sousa, do Grupo de Pesquisa em Territorialidades do Instituto Mamirauá, e as lideranças de acordos de pesca Raimundo de Oliveira Queiroz e Delcimir Rocha da Silva em debate sobre os desafios de se realizar a gestão de recursos naturais de forma sustentável em unidades de conservação da Amazônia.

Texto: Bernardo Oliveira

Posters com trabalhos cientí­ficos foram apresentados durante o evento. Foto: Bernardo Oliveira
Mesa redonda encerrou as atividades do dia. Foto: Bernardo Oliveira

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