“Se a gente não zelar pelo que a gente tem, quem vem?”

Publicado em: 13 de novembro de 2015

A frase que dá título ao texto é de Francisco da Silva Vale. Chapéu de palha protegendo o rosto do sol, sorriso no rosto e energia de sobra. Aos 61 anos, “Seu França”, como é conhecido na região, tem sempre um bom conselho e muita animação para o trabalho. Quem acompanhou o período de instalação das máquinas de gelo, pôde ver seu envolvimento em todas as atividades, desde as reuniões até as obras mais pesadas. Pescador, agricultor e líder comunitário, foi um dos primeiros moradores da comunidade Vila Nova do Amanã. Em entrevista para “O Macaqueiro”, ele falou sobre a expectativa dos moradores ao receber o projeto Gelo Solar, finalista do Desafio de Impacto Social Google | Brasil, e sobre o envolvimento de todos para a instalação, cuidado e gestão dessa e de outras tecnologias sociais na comunidade.

IM: Qual a expectativa da comunidade com a chegada das máquinas de gelo, movidas a energia solar?

Seu França: A gente tem trocado ideia, esperando que seja uma ajuda. Me perguntam: vale a pena? Eu acho que vale, porque pra gente, ir na cidade comprar um pouco de gelo depende de muita despesa. Uma caixa de isopor, ou duas, pra gente ir na cidade é muito dispendioso. E a gente se sentiu bem satisfeito, as pessoas pensaram em colocar uma fábrica de gelo devido ao sistema de água que a gente tem tratado bem.

IM: E qual tipo de melhoria o senhor espera?

Seu França: Antes que essa fábrica saísse, só pela notícia, todos já estavam contratando com a gente o gelo. E outros conversando assim: olha, eu vou precisar de gelo pra manter a polpa das minhas frutas, ou o pescado. Pra ir em Tefé só pra comprar o gelo, até que eu chegue aqui, a metade já acabou, na cheia a gente gasta oito horas de carreira, na seca, até doze. Vai melhorar tanto pra gente, quanto para os vizinhos de perto. Tem gente daqui dizendo: eu luto com criação e trago as vacinas e elas dependem de gelo e eu quero que vocês me apoiem com um pouco de gelo. Assim como a gente espera ser ajudado, espera ajudar os outros também, com certeza.

IM: A comunidade está envolvida desde o início do projeto até a instalação das máquinas e a gestão da tecnologia. Como tem sido essa organização?

Seu França: Nós temos um costume aqui na comunidade que é assim: todo trabalho que vem, nós estamos prontos pra ajudar naquilo que a gente pode, naquilo que a gente entende. Então, a gente fica incentivando uns aos outros. Se a gente não zelar pelo que a gente tem, quem vem? A gente é que tem que cuidar. E assim, a gente já está pensando em formar equipes do jeito que é com o sistema de abastecimento de água. Vamos ver quem vai ficar tomando conta, quem vai ficar responsável.

E os novos também. Eles que também podem tomar conta de tudo, porque o tempo da gente passa. As mulheres têm que se envolver, é muito importante se envolverem também. Porque não é só o homem que trabalha não, tem mulher que tem ideia muito melhor, e elas podem tomar conta e ser responsáveis também, igual no sistema da água, não é que é? Toda a comunidade. Então, a pessoa tem que se envolver que é pra se sentir satisfeito com o que ele ta usando e com o que tem na comunidade, que traz melhoria pra vida, com certeza.

IM: Essa é a terceira tecnologia social implantada pelo Instituto na comunidade. E como tem sido, desde então?

Seu França: Isso. É a terceira. Porque a primeira foi o sistema de água, a segunda foi o campo iluminado, a terceira pode ser essa agora, a fábrica de gelo. No meu ponto de vista, penso: é, pra gente, vai melhorando cada dia mais. Quando a gente fundou a comunidade, morador era eu só. Depois chegou mais o vizinho e foram chegando os outros. E aí, olha! Repara o tanto que melhorou. Pega esses benefícios que estão chegando, as crianças já vão vendo o que a gente faz. E incentivando, quem sabe daqui uns tempos vem mais coisas, mais ajuda, e os novos já estão preparadas a fazer talvez até melhor que a gente, ajudar até melhor. A comunidade está evoluindo cada vez mais, está enxergada por muita gente. Eu fico satisfeito em dizer que aqui está bonito, está bem beneficiado, a comunidade está enxergada.

Entrevista: Amanda Lelis

 

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