Ribeirinhos participam da proteção de jacarés em unidades de conservação na Amazônia

Publicado em: 12 de dezembro de 2011

12/12/2011 - Na década de 40, o colapso da economia da borracha na Amazônia forçou moradores de áreas ribeirinhas a buscar novas alternativas econômicas. Entre as alternativas, surge o comércio de peles e, posteriormente, carne de jacarés. Em 1967, a caça de espécies silvestres foi proibida no Brasil e, com o fortalecimento do movimento ambientalista nas décadas de 1970 e 1980, a procura pelos subprodutos de jacarés diminuiu. O jacaré-açu, considerado até os anos 1990 como ameaçado de extinção, hoje é classificado por órgãos de proteção ambiental como espécie que corre baixo risco de desaparecer da natureza, mas que depende de programas de conservação.

Embora em menor escala, a caça comercial (ilegal) de jacarés ainda persiste em comunidades ribeirinhas na Amazônia (com foco para a produção de carne salgada e iscas para pesca da piracatinga, peixe vendido para cidades colombianas). Na região do Médio Solimões, no estado do Amazonas, cientistas do projeto Conservação de Vertebrados Aquáticos Amazônicos (Aquavert) estão estimulando outro tipo de interação entre ribeirinhos e jacarés. Moradores das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Piagaçu-Purus estão sendo treinados para participar em estratégias de conservação de jacarés.

Durante o período da seca no Médio Solimões (entre julho e dezembro), ocorre a temporada de reprodução de jacarés. As fêmeas de jacaré-açu constroem seus ninhos junto à vegetação, próximo a corpos d’água. Mais de 200 ninhos de jacarés-açu e jacaretinga estão sendo monitorados, num trabalho desenvolvido em conjunto entre pesquisadores do projeto Aquavert e moradores das Reservas.

As atividades de monitoramento incluem a observação de fatores ambientais do local de nidificação e algumas características do ninho, como temperatura e número de ovos. Com o auxílio de moradores locais, os pesquisadores percorrem as bordas de lagos e canos na floresta, caminhando em áreas que permanecem alagadas durante sete meses no ano. O objetivo é localizar pequenos lagos que se formam no interior da mata. Ao redor destes lagos é que as fêmeas de jacaré costumam montar os ninhos.

A procura por ninhos de jacaré exige extremo cuidado de pesquisadores e assistentes. João da Silva Carvalho, morador da comunidade Vila Alencar, no município de Uarini, trabalha como assistente de campo há 16 anos, dando suporte às pesquisas sobre jacarés na Reserva Mamirauá. “Quando a gente sai para procurar ninho, falo sempre para o pessoal tomar cuidado, porque a mãe pode estar por perto. É sempre bom estar de frente para o rio, para evitar surpresas”, diz o assistente, conhecido em Mamirauá como “João Jacaré”.

Seis ninhos de jacaré-açu, localizados às proximidades de uma base de pesquisa, estão sendo monitorados diariamente pela equipe do projeto Aquavert, com o intuito de acompanhar algumas características da incubação e a eclosão dos ovos. Assim que os filhotes nascerem, os pesquisadores pretendem recolher material biológico (sangue e tecido) para a realização de estudos sobre as taxas de nascimento de machos e fêmeas nos ninhos (o sexo dos jacarés é determinado pela temperatura do ninho) e estudos genéticos sobre a estrutura da família de jacarés.

“Assim que fizermos a coleta de material biológico, os filhotes serão imediatamente soltos, próximo ao local de coleta dos ovos. Com os dados e materiais biológicos coletados poderemos fortalecer as informações sobre a biologia e ecologia reprodutiva dos jacarés amazônicos”, diz o biólogo Robinson Botero-Arias, coordenador das pesquisas sobre jacarés no projeto Aquavert.

 

Conservação

O projeto Conservação de Vertebrados Aquáticos Amazônicos é desenvolvido por pesquisadores do Instituto Mamirauá, com o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Ambiental. O objetivo do projeto Aquavert é consolidar estratégias e propor novas ações para a conservação das espécies de jacarés, quelônios e mamíferos aquáticos que habitam as Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã.

Mamirauá é o local onde há os maiores registros de densidade de jacarés-açu. Em épocas de seca na região, quando muitos animais se juntam em pequenos corpos d’água, pesquisadores do Instituto Mamirauá, organização social responsável pela gestão da Reserva, chegaram a registrar mais de 400 jacarés por km².

 

Para saber mais sobre o projeto Aquavert, acesse: www.mamiraua.org.br/aquavert

Texto: Augusto Rodrigues

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