Pesquisadores devolvem dados coletados em monitoramento da agricultura migratória

Publicado em: 16 de abril de 2015

Observar, entrevistar e coletar informações. Acompanhar em campo as atividades de manejo das áreas agrícolas dos comunitários e conhecer suas áreas de uso. Monitorar uma atividade requer acompanhar todos esses aspectos. Para as pesquisas, esse tipo de informação é fundamental, auxiliando na compreensão da dinâmica da agricultura migratória, comumente adotada entre os moradores das comunidades tradicionais do Médio Solimões.

O Grupo de Pesquisa em Agricultura Amazônica, Biodiversidade e Manejo Sustentável do Instituto Mamirauá monitora continuamente as atividades agrícolas nas Reserva Amanã e Mamirauá. Atualmente, dois pesquisadores, Fernanda Viana e Carlos Toniazzo, são responsáveis pela atividade. Os dados gerados subsidiam pesquisas e ações de manejo.  “O monitoramento, por meio de entrevistas, visitas às áreas de uso e análises de imagens nos permite acompanhar a abertura de áreas para a atividade agrícola e o manejo delas. As informações permitem conhecer as mudanças no uso do solo e geram subsídios para a gestão territorial pelas comunidades e gestores da unidade de conservação”, mostra Fernanda.

Entre roças, capoeiras e matas, sítios e quintais, os agricultores tradicionalmente manejam suas áreas com cultivos variados, intercalando o uso que dão a cada local, o que representa os ciclos da agricultura migratória. Por meio do monitoramento é possível “mensurar fatores que influenciam naquela dinâmica. Variações geralmente estão relacionadas a períodos de cheias ou secas extremas, a especialização ou desenvolvimento das famílias, a migrações circulares das famílias, que podem mudar por um tempo para a cidade, retornando posteriormente, dentre outros fatores”, pontua Fernanda.

O monitoramento é realizado por ciclos. Ao final de cada monitoramento, ocorre a devolução dos dados, o que Fernanda realizou em novembro de 2014: “Em cada comunidade, convidamos todas as famílias para mostrarmos os resultados do trabalho que eles desenvolveram conosco e realizamos uma apresentação de forma dinâmica, utilizando-se dos conhecimentos que eles nos ensinaram”.

Cada família participante da pesquisa recebeu um mapa, onde estão indicadas as áreas de plantio utilizadas nos últimos anos. Para Fernanda, “o mapa tornou-se um tipo de documento, que comprova que aquele agricultor exerce a atividade agrícola em um determinado local. Algumas pessoas estão utilizando esse mapa para ajudar no processo de recebimento de aposentadoria, por exemplo”.

A atividade de devolução também envolveu o grupo na realização de um mapeamento participativo para a atividade agrícola da comunidade. “Por meio do desenho os agricultores representaram as transformações do espaço local, explicando como as mudanças foram acontecendo e os fatores que influenciaram nisso”, mostra Fernanda.

Com a troca de experiências e de resultados, “a comunidade tem a visão de como está fazendo o uso de sua área como um todo. Isso permite traçar um plano conjunto sobre as próximas ações”, ressalta a pesquisadora. Além dos agricultores, a atividade da devolução conta com a participação ativa de crianças, adolescentes e idosos. Cada um contribui para construir um aprendizado conjunto, envolvendo a totalidade da comunidade na discussão de um tema tão importante. Em  2014, a devolução já foi feita em seis comunidades e 117 famílias receberam seus mapas.

A novidade para 2015 é que o monitoramento passou a ser feito também na várzea. “Trabalhando em áreas de terra firme e de várzea teremos informações sobre esses dois ambientes, que representam grande parte do território da Amazônia”, afirma a pesquisadora. Na comunidade São Francisco do Aiucá, na Reserva Mamirauá, o monitoramento já foi iniciado. As informações são preliminares, mas já é possível observar que  “as inundações periódicas levam os agricultores a desenvolverem adaptações diferentes, como escolha de áreas  de restingas para plantar e opção por  cultivos de ciclo rápido. Eles também trabalham com hortaliças em canteiros suspensos e agricultura em ambientes de terra firme”, comenta Fernanda. A comunidade Vila Alencar, também localizada na várzea de Mamirauá, será monitorada em breve.

Todos esses dados, coletados desde 2009, colaboram com informações sobre agricultura na Amazônia, trazendo subsídios importantes para discussões de temas como o desmatamento. De acordo com Fernanda, “nessas áreas que monitoramos, os agricultores fazem o uso da floresta, o que é diferente do desmatamento realizado em outras regiões. Isso contribui para as discussões sobre o futuro desses pequenos agricultores que utilizam este tipo de prática em comunidades tradicionais. Essas áreas possuem um manejo tradicional, com instrumentos de menos impacto e são enriquecidas com cultivos diversificados, o que contribui para o aumento da agrobiodiversidade. A agricultura é desenvolvida integrada com a floresta e ainda tem-se um período que os agricultores deixam esta área em descanso após o uso para a regeneração natural, o pousio,  o que tem garantido o uso destas áreas ao longo dos anos”.

Texto: Vanessa Eyng

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