Pesquisa usa fotos para investigar a biodiversidade de vertebrados terrestres em reserva na Amazônia

Publicado em:  5 de junho de 2017

O Instituto Mamirauá já registrou milhares de fotografias da fauna da Reserva Amanã, estado Amazonas.

Caminhar na mata, sob sol ou chuva, horas a fio. As distâncias a serem vencidas se medem em quilômetros, entre espinhos, galhos e (muitos) mosquitos. Nas costas, a mochila vai carregada de equipamentos e parece aumentar de peso com o tempo. O modus operandi é o mesmo e será repetido, dezenas de vezes: retirar a armadilha fotográfica, substituir o cartão de memória, trocar pilhas e montar a tecnologia em um novo ponto da floresta.

Assim foram os dias de campo mais recentes de Diogo Maia Gräbin. Entre 24 de abril e 07 de maio, o pesquisador do Instituto Mamirauá percorreu a área conhecida como igarapé do Ubim, dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, estado do Amazonas. Lá, ele executou a coleta de dados e reinstalação de armadilhas fotográficas para monitoramento da fauna de vertebrados terrestres. Um trabalho difícil e essencial para investigar e conhecer sobre a biodiversidade da Amazônia.        

Essa é uma das etapas do Programa Monitoramento de Vertebrados Terrestres, desenvolvido há anos pelo instituto com o objetivo de monitorar espécies animais na Reserva Amanã. As expedições de 2017 começaram em fevereiro e têm o financiamento da Fundação Gordon and Betty Moore, organização de fomento à ciência e à conservação ambiental.

Como é feito o monitoramento    

As armadilhas fotográficas são pequenas máquinas instaladas na floresta, a um nível próximo ao solo e em mimetismo com o ambiente. Elas são equipadas com câmeras que registram imagens coloridas, em escala de cinza ou em modo infravermelho (de acordo com a luminosidade do momento) e sensores que disparam quando um corpo com a temperatura diferente do ambiente se movimenta em frente à armadilha. Geralmente os disparos são estimulados por um animal de sangue quente, um vertebrado terrestre.

Diogo Gräbin informa que existem quarenta e três estações em atividade no igarapé do Ubim. "Estação é como chamamos os pontos da floresta em que são instaladas duas armadilhas fotográficas, uma de frente para outra, para captarmos os dois lados dos animais", explica. As estações são montadas e programadas a cada dois meses, em média. Nesse período, cada armadilha fotográfica registra cerca de 900 a 1.500 fotografias. Material valioso para análises de identificação e características biológicas.

Da floresta para os computadores

Depois que são retiradas das armadilhas, as imagens têm um destino: são inseridas em um banco de dados. Desenvolvido especialmente para pesquisas com armadilhas fotográficas, o software chamado "SNOOPY: Portable Software for Capture-Recapture Surveys" auxilia na organização, gerenciamento e consulta dos dados como o sexo e espécie do animal, a data e a estação em que o registro foi feito.  O programa, ainda em versão beta,  vem sendo testado e avaliado há dois anos pelo Instituto Mamirauá.

"O banco de dados nos ajuda a organizar e gerenciar a grande quantidade de fotos das armadilhas fotográficas, facilitando o trabalho de consulta desses dados, que antes era feito manualmente, abrindo arquivo por arquivo para buscar informações sobre as amostragens", conta Anelise Montanarin, pesquisadora responsável pela inserção dos dados e testes  no programa SNOOPY. De acordo com o levantamento feito pelo programa entre os anos de 2012 a 2017 foram obtidas mais de 450 mil fotos de vertebrados terrestres das reservas Amanã e a vizinha Mamirauá, onde o monitoramento também é feito.

"Contando as armadilhas fotográficas instaladas nas duas reservas, nós já registramos e identificamos mais de 58 espécies de vertebrados, além de outros em que a identificação chegou até o gênero", diz a pesquisadora. Dados semelhantes a esse já estão sendo usados pelo Instituto Mamirauá - unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) -  para investigações sobre a vida animal nessas grandes unidades de conservação no Brasil.

É o caso do estudo de foto identificação de onças, realizado por Anelise, e de foto identificação de gatos maracajá, feito por Diogo, dentro do Grupo de Pesquisa Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia. Os pesquisadores planejam futuramente ampliar o acesso do banco de dados a toda comunidade científica e à sociedade em geral.

Texto: João Cunha

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