Pesquisa levanta dados sobre sítios arqueológicos da cidade de Tefé

Publicado em: 18 de junho de 2015

Nem sempre os achados arqueológicos são peças inteiras ou grandiosas. Muitos sítios sofreram constantes e diferentes impactos. Ao serem escavados, parecem mais um conjunto de quebra-cabeças, com cacos dos mais diferentes formatos, oriundos de vários potes e urnas. Como que em uma brincadeira, parecem ter sido misturados e deixados ali para alguém resolver os encaixes, mas tem todas as peças estão disponíveis para completar o jogo.

Mas encarar esse quebra-cabeça pode trazer informações importantes para as pesquisas arqueológicas. Kelly Brandão, pesquisadora do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI),  trabalha em um desses quebra-cabeças do passado. Desde o começo de 2015, a pesquisadora busca levantar informações estatísticas a respeito de uma unidade de escavação, de um sítio arqueológico escavado em 2012 na cidade de Tefé.  

Escavar esse sítio foi uma demanda do próprio morador do local, o seu Brás. Para a pesquisadora, “essa conversa com a comunidade é muito importante. As crianças e os adultos da área vinham visitar e acompanhavam o trabalho. Além disso, podemos voltar lá e apresentar o resultado da pesquisa, mostrando o que representa parte da história do lugar onde eles estão morando”.

Durante uma escavação, os arqueólogos costumam estabelecer unidades de trabalho. Em geral, uma unidade de escavação mede um metro por um metro, descendo em níveis estratigráficos de 10 centímetros. No caso dessa unidade específica, as medidas eram um pouco maiores: um monticulo ovalado de 2,2 metros por 2,3 metros, escavado até a profundidade de 92 cm.

“O meu projeto está vinculado à análise dos materiais cerâmicos encontrados em uma unidade, que sofreu um impacto maior do que as outras quatro unidades escavadas na mesma área. A ideia é avaliar o grau desse impacto em relação as outras", mostra Kelly. As outras quatro unidades estão sendo analisadas pela pesquisadora Jaqueline Belletti, mestranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.

Aproximadamente 7000 fragmentos foram escavados na unidade que está sendo trabalhada por Kelly. Desses, quase 2.500 serão analisados de forma mais minuciosa. Os dados são levantados através de 27 itens de relevância, como por exemplo, o tamanho dos fragmentos, a forma de decoração, as pinturas, a que parte do pote o fragmento pertence, etc. As fichas seguem modelos usados em outras pesquisas realizadas na Amazônia, mas com pequenas adaptações. Isso torna os dados comparáveis.

Os materiais cerâmicos se encontram no Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá, já passaram por um processo de higienização e, posteriormente, recebem um número de tombo. As primeiras peças a receberem numeração foram os fragmentos de bordas, passando para as bases, as paredes e por último os apliques e as flanges, sempre respeitando a diferença de peças com ou sem decoração. Essa numeração também indica a profundidade no qual o fragmento estava.  “Como o objetivo do trabalho é fazer análises estatísticas, a primeira coisa que eu tenho que conservar é a localização das peças em seus respectivos PN (Número de Proveniência). Por se tratar de um sítio impactado, eu preciso saber onde cada peça estava, o quanto foram reviradas”, ressalta Kelly.

Outro elemento importante de análise é a existência de antiplásticos. Esses antiplásticos são elementos adicionados à cerâmica, deixando-as mais resistentes. “Só com o barro você não consegue fazer um pote, você precisa ter um controle tecnológico. Usava-se muito caraipé e cauixi. Esses elementos silicosos, adicionais à argila, permitem ter um controle de resistência, por exemplo”, explica Kelly. Esses materiais utilizados como antiplástico são visíveis na cerâmica: “A gente tenta estabelecer em que quantidade e quais antiplásticos aparecem”, completa.

Definir os tipos de decoração, de pintura, de uso de apliques ou de incisões é outra forma de determinar à qual período de produção cada fragmento pertence. “Vamos tentar determinar a cronologia dos fragmentos considerando todos esses fatores. Analisamos as formas também. Pelo tamanho das bordas podemos projetar o formato da peça inteira através de desenhos. Pretendo também fazer esses desenhos em 3D. Didaticamente, a imagem fica mais palpável”, projeta Kelly.

Esse conjunto dos dados permitirá avaliar o grau de impacto do sítio, estabelecendo padrões de comparação para outros sítios em situação paralela. “Este sítio é um testemunho do que ficou. Quando você junta todas aquelas informações e faz uma análise estatística, você consegue buscar por algum tipo de padrão. Isso quebra com a ideia de que você só pode escavar coisas extremamente preservadas. Às vezes também tiramos informações de lugares que sofreram algum tipo de impacto”, conclui a pesquisadora.

Simpósio

Dados parciais da pesquisa serão apresentados no Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon), realizado entre os dias um e três de julho na sede do Instituto Mamirauá, em Tefé (AM).  O evento poderá ser acompanhado ao vivo, pelo endereço: www.mamiraua.org.br/web.

O Simpósio tem por objetivo promover a divulgação científica e o debate sobre a conservação da biodiversidade, o manejo de recursos naturais, a gestão de áreas protegidas e os modos de vida das populações locais. É um evento que promove a interação acadêmica interdisciplinar, gerando diálogo entre pesquisadores 

Texto: Vanessa Eyng

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