Pesquisa aborda técnicas de pesca e conhecimentos ecológicos de pescadores

Publicado em: 19 de maio de 2015

A pesca é uma atividade tradicional na Amazônia. Os pescadores desenvolvem técnicas aprimoradas, interligando o próprio corpo, instrumentos de pesca e conhecimentos sobre os peixes e o ambiente. Esses conhecimentos são fundamentais para discutir propostas eficientes de manejo e uso sustentável dos recursos naturais. A pesquisa “Técnicas e conhecimentos ecológicos tradicionais entre pescadores urbanos de Tefé (AM)” busca levantar justamente essas informações sobre os pescadores que atuam na cidade.

Lucimara dos Santos, estudante do Programa de Iniciação Científica do Instituto Mamirauá, está desenvolvendo esse trabalho desde 2013: “Meu pai é pescador, mas eu não tinha conhecimento de como é a pesca. A partir do momento que eu comecei a acompanhar os pescadores, eu pude ver que eles têm uma organização bem estruturada”.

Lucimara entrevistou os pescadores em dois momentos. Primeiro, utilizando um questionário padrão e, depois, conversando com eles. Também acompanhou a pesca do pirarucu e do jaraqui. "Um dos objetivos de levantar os conhecimentos ecológicos dos pescadores é porque isso é uma tradição. É daí que vêm muitos costumes daqui da cidade, e a pesca é uma das atividades mais importantes da região, movimenta bastante a economia daqui", afirma.

A pesquisa etnográfica permitiu a Lucimara interagir e conviver com os pescadores: “Eles falam que mulher junto da pesca pode dar ‘panema’, má sorte. Teve um período que eu estava assistindo a pesca do jaraqui, e toda vez que eu aparecia, eles não pegavam nada. Aí eu ficava pensando, ‘Meu Deus, será que sou eu?’ E os pescadores ficavam brincando com isso, me confortando e me inserindo naquela dinâmica. Eles foram bastante atenciosos, explicando até coisas que eu não perguntava. Eles chamavam minha atenção para coisas que eu não via”.

Com as informações levantadas, foi possível perceber que as técnicas de pesca são aplicadas de forma diferente, conforme o tipo de peixe. Cada animal tem um comportamento biológico diferente, e a pesca é planejada em relação a isso. No caso do pirarucu, as atividades do manejo acontecem durante o ano inteiro, envolvendo organizações de pescadores. “Na pesca do pirarucu os pescadores fazem o círculo com a rede no meio do lago. Ali fica o peixe preso, eles chamam de pesca de circulo ou técnica de preso, pescando individualmente os pirarucus”, ressalta Lucimara.

Já a pesca do jaraqui normalmente acontece no lance. Essa localidade é de responsabilidade de um pescador, que não é o dono do local, mas investe seu trabalho para zelar pela área. Com autorização para tal, e no momento de migração do peixe, que ocorre entre o final da cheia e começo da vazante, ele pesca no local, com ajuda de outros pescadores. “Mas como eu pude ver, o lance também é uma modalidade de pesca. Eles fazem esse lance próximo à margem do rio, formando um arco com a rede de lanço, adjacente à margem”, mostra a estudante.

     
Na pesca do pirarucu, os pescadores lançam a rede no meio da lago.  Na pesca do jaraqui, o lance é na margem. Fotos: Lucimara dos Santos  

Os materiais utilizados na pesca de cada peixe variam bastante. “De um modo geral eles chamam tudo de rede, mas cada tipo tem um nome diferente. Tem o arrastão, tem a tramalha, e a rede de lanço. Por exemplo, antes de tirar o jaraqui, eles jogam a escolhedeira, uma rede para separar o peixe miúdo do graúdo. A rede de lanço tem uma malha pequena, chega a ser 25mm, e captura vários peixes. A escolhedeira, com malha maior, retira  os peixes maiores e libera os menores  que não são alvo da pesca. Isso é inclusive uma forma de conservação”, diz Lucimara.

Acompanhando os pescadores, a estudante também conseguiu descrever as funções específicas desempenhadas por cada um. “No momento que eu comecei a fazer as entrevistas, eles me falaram que tem um responsável pela embarcação, que pode ser o dono ou apenas o encarregado, tem o proeiro, que é quem comanda a pesca, tem o popeiro, que é quem conduz a embarcação, tem o largador, que é o pescador que joga a rede na água, o puxador de tralha, e o puxador de cortiça, que já é o pescador que puxa a rede. E tem os pescadores que estão lá para ajudar, no total são na média de cinco a sete pescadores. Tem também a função de cozinheiro, que normalmente é um pescador menos experiente ou mais velho. Ele fica responsável por fazer a comida, mas isso não quer dizer que ele não participe da pesca”, pontua Lucimara.

Na pesca do pirarucu, desempenha-se também a função de arpoador. Um pescador caça os peixes que não se emalham na rede com um arpão. Na pesca do jaraqui, tem a função de comboiador, “que é quem sai atrás do cardume, procurando algum sinal de que o peixe está chegando, de que o peixe está dentro do igapó, onde eles costumam se alimentar. Se ele ouvir algum barulho, ele sabe que no local tem peixe se movimentando", acrescenta a estudante.

Essas são técnicas aprimoradas e renovadas ao longo dos anos. São construídas a partir do conhecimento da ecologia dos peixes e o ambiente. Registrá-las e discuti-las, em parceria com os pescadores, é uma contribuição importante para as pesquisas sobre o tema.  “E eu não via dessa forma. Quando eu comecei a acompanhar a pesca é que eu pude ver como o trabalho é, toda a relação que os pescadores têm com o ambiente. A percepção deles é incrível”, ressalta Lucimara.

O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica é desenvolvido pelo Instituto Mamirauá com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

Texto: Vanessa Eyng

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