Pela primeira vez, são obtidas datas de vestígios cerâmicos do Lago Tefé (AM)

Publicado em: 27 de outubro de 2015

Uma pesquisa arqueológica realizada na região do lago Tefé, no Amazonas, identificou que os vestígios cerâmicos encontrados na região datam entre 400 e 1.530 anos depois de Cristo. O trabalho foi realizado pela pesquisadora Jaqueline Belletti, por meio de uma parceria entre o Instituto Mamirauá e o Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade de São Paulo (USP).

Jaqueline ressalta que nunca havia sido feita datação de Carbono 14 para os vestígios encontrados no lago Tefé. “Tínhamos apenas estimativas estabelecidas por comparação do material daqui com o material de outras partes da Amazônia. Hoje, sabemos que os materiais estiveram presentes no Lago Tefé desde 400 até 1.530 d.C., pelo menos. Isto quer dizer uma ocorrência de mais de mil anos”, afirmou.

A pesquisa visava identificar a diversidade da Tradição Polícroma da Amazônia nos vestígios encontrados nos sítios arqueológicos do Lago Tefé. Antes desse trabalho, as últimas pesquisas arqueológicas na região foram na década de 1950. As mais relevantes foram realizadas pelo arqueólogo Peter Hilbert, que definiu as fases Caiambé e Tefé, que são diferentes grupos de ocupação humana na região.  A fase Caiambé ocorreu possivelmente em toda região do médio Solimões e o período de ocupação é estimado entre 400 e 1200 d.C.. E a fase Tefé, estimada entre 400 e 1600 d.C..

A Tradição Polícroma é definida pelos arqueólogos como uma tecnologia, ou um modo de fazer cerâmicas das populações indígenas do passado. Algumas características são pintura vermelha e preta sobre argila branca e decorações plásticas, que alteram a superfície do pote. De acordo com Jaqueline, dois tipos de peças têm destaque nesse conjunto de vasos: “as urnas funerárias antropomorfas, que remetem a uma figura humana, e os vasos com flange mesial, que é uma espécie de expansão localizada próximo ao meio do vaso e que circula toda sua circunferência”, afirmou.

Esse modo de fazer cerâmica já foi encontrado nas calhas dos rios Napo, Ucayali, Solimões, Japurá, Negro, Madeira e começo do baixo Amazonas. “Em cada uma dessas áreas, os arqueólogos encontram pequenas variações locais nessa tecnologia que são chamadas então de Fases. No médio Solimões e Japurá a cerâmica da Tradição Polícroma foi chamada de Fase Tefé”, disse Jaqueline.

Outro resultado importante da pesquisa foi o indício de relação entre diferentes grupos culturais que ocupavam a região nesse período, evidenciado a partir das análises das cerâmicas. Jaqueline ressalva que este tipo de relação entre produtores da Tradição Polícroma e produtores de outras tradições é ainda hoje um assunto pouco trabalhado, o que reforça a importância do estudo.

“Segundo as fontes etno-históricas, essas redes de relações entre diferentes grupos, que no lago Tefé evidenciamos pela troca de elementos na produção da cerâmica, eram muito extensas. Mas a morte e o deslocamento de populações causados pela invasão europeia levaram ao enfraquecimento e rompimento de muitas dessas redes”, disse a pesquisadora.

Apoio local

Francisco de Oliveira Bastos é morador da comunidade Vila Bastos, no município de Tefé. Essa foi uma das comunidades com sítios arqueológicos onde a equipe trabalhou. De acordo com Francisco, desde sua infância, era comum encontrarem vestígios cerâmicos na região. “Os que viviam antigamente acham que isso aqui tudo era habitado por índio, esse pessoal antigo que morava aqui. A gente achava todo tipo de caretas, uma careta de macaco, de coruja, de outros animais”, contou. As “caretas” que Francisco se refere são fragmentos cerâmicos com formatos que remetem à figura animal, essa é a forma como são popularmente chamados esses fragmentos na região.

As populações locais têm um papel importante para a realização das pesquisas arqueológicas. Os comunitários indicam locais onde já foram encontrados vestígios ou outras informações importantes para a realização do trabalho. Essa pesquisa teve início em 2011, com levantamento não interventivo. “Desde o começo dos trabalhos, a participação dos comunitários foi fundamental, pois, por conhecerem bem a região, sabiam indicar onde havia cerâmicas ou terra preta de índio, por exemplo”, contou Jaqueline.

 A quantidade de sítios arqueológicos localizados na região também foi expandida pelo projeto. Até então, havia conhecimento de oito sítios arqueológicos, entre a sede do município e o lago. A equipe de pesquisadores identificou 14 sítios, além daqueles já registrados anteriormente, e também 11 áreas de ocorrência por toda a região do Lago Tefé, que são locais onde foram encontrados materiais arqueológicos pontualmente, sem serem caracterizados como sítios.

“Na escavação, realizada nas comunidades da boca do Lago Tefé, coletamos, além de materiais cerâmicos, que são os mais abundantes, materiais líticos (pedra), ossos de fauna, carvões e amostras de solo. Também foi encontrado um sepultamento humano”, informou Jaqueline.

Durante o andamento do trabalho, em 2014, foram encontradas seis urnas funerárias da Tradição Polícroma, nas obras de construção de uma escola na comunidade Tauary, em Tefé. “O interesse e esforço do pessoal da comunidade Tauary em procurar os arqueólogos é um exemplo importante de como a colaboração entre comunitários e pesquisadores pode nos ajudar a contar a história da região”, completou a pesquisadora.

De acordo com a pesquisadora, as urnas Tauary estão em etapa final de restauração. Esse material, assim como os demais vestígios, estão sob a guarda do Instituto Mamirauá, na sede da instituição. Alguns materiais foram enviados para análise na USP, e devem retornar em breve para Tefé. Além dos vestígios cerâmicos, também estão sendo conduzidas análises dos solos, dos macrovestígios botânicos e de material lítico e faunístico, com parceria com outros pesquisadores. “Com as análises botânicas evidenciamos que, já em períodos antigos, palmeiras eram utilizadas pelas populações e que o milho também era de alguma forma consumido”, completa a pesquisadora.

A pesquisadora destaca que, entre as próximas etapas do projeto, a principal meta é levar para as comunidades as informações geradas pela pesquisa “Nosso principal desafio entre este ano e o próximo e conseguir fazer a devolução dos resultados já alcançados as comunidades na quais pesquisamos e aos moradores do lago Tefé como um todo”.

“Todo passado se torna presente. Quantas coisas aconteceram no passado e estão descobrindo? Seria bom saber o que aconteceu aqui, antes da gente chegar”, reforçou Francisco, ao comentar da curiosidade dos moradores locais para conhecer as histórias das ocupações de populações indígenas do passado. “Retomar as pesquisas no lago Tefé nos ajuda a começar a entender melhor o passado da área entre o médio e alto Solimões, uma região ainda pouco conhecida arqueologicamente”, completou Jaqueline.

Texto: Amanda Lelis

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