Pela primeira vez no Brasil, drones são utilizados para estimativa populacional de botos amazônicos

Publicado em: 27 de outubro de 2016

Uma parceria entre o Instituto Mamirauá e o WWF-Brasil busca testar e aprimorar técnicas e metodologias para a utilização de drones em pesquisas científicas. A proposta é utilizar os drones para otimizar atividades de campo que exigem grande esforço da equipe e alto investimento de recursos. O projeto, que integra a iniciativa Ecodrones Brasil, propõe estabelecer um protocolo para a realização de uma estimativa populacional de botos amazônicos. O primeiro teste do projeto foi realizado no último mês no município de Tefé, Amazonas.
 
Miriam Marmontel, que é pesquisadora do Instituto Mamirauá – unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – explica que a proposta é testar uma metodologia que possibilite a coleta de dados por meio dos vídeos gravados pela tecnologia. Após a comparação das informações dos vídeos com as informações registradas pelos pesquisadores, espera-se alcançar um modelo de utilização do drone para a contagem de botos. 

“O projeto piloto foi realizado no lago Tefé durante dois dias e permitiu testar diferentes altitudes e velocidades de voo com o drone, assim como diferentes ângulos da câmera. Após a análise das imagens geradas, será possível definir os parâmetros mais adequados e desenvolver um algoritmo de identificação automática de botos”, contou Miriam.  

A pesquisadora comenta que a metodologia atual envolve cerca de dez pessoas, posicionadas na proa de um barco que, com os olhos fixos na água, registram os animais avistados em um raio de 180º. Depois disso, o número de animais vistos passa por análises estatísticas para obtenção da densidade e abundância de animais.  “A premissa do método é que todos os animais presentes sejam contados, mas sabemos que existem erros, associados à capacidade do observador avistar o animal, e à disponibilidade do animal, por exemplo, se estiver mergulhando, não será avistado”, explicou a pesquisadora. A expectativa é utilizar o drone no mesmo trajeto feito pelos pesquisadores, registrando o rio por meio da câmera. Miriam explica que, a partir das imagens registradas, seria possível corrigir a estimativa de população dos botos, preenchendo as lacunas deixadas pelo método atual.  
 
Marcelo Oliveira, especialista de conservação do programa Amazônia, do WWF-Brasil, explica que a utilização de drones como auxílio em atividades de conservação do meio ambiente não é novidade. Fora do Brasil, a tecnologia já foi utilizada em diversas pesquisas científicas. No entanto, no país, a estratégia é ainda incipiente. “O projeto já nasceu com a ideia de reunir instituições que tivessem interesse ou expertise na área. Há um ano, fizemos um workshop e começamos a discutir a proposta e, primeiro, entender o que estava sendo feito no Brasil. Observamos que era muito pouco, principalmente, por conta da legislação na época. A ideia principal desse projeto com os botos é: como essa tecnologia pode trazer impacto de conservação? Então, será que, com uma metodologia mais barata, não ampliamos o conhecimento da distribuição dos animais na Amazônia?”, comentou Marcelo.

A pesquisadora do Instituto Mamirauá destaca que a ausência de dados populacionais dificulta a elaboração de estratégias de conservação.  Os dados de abundância populacional contribuem para o conhecimento do real status da espécie e para estudos de viabilidade populacional. Na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês), as duas espécies que ocorrem na região, o boto vermelho (Inia geoffrensis) e o tucuxi (Sotalia fluviatilis), atualmente são considerados com “dados insuficientes”, em decorrência da limitada quantidade de informações sobre suas populações, ecologia, taxas de mortalidade, entre outras. O boto vermelho já foi classificado anteriormente como “vulnerável” à extinção e, em 2008, teve seu status modificado em razão da carência de dados sobre a espécie; a nível nacional, entretanto, é considerado ‘ameaçado’.  
 
“Mamíferos aquáticos amazônicos tendem a deslocar-se para diferentes ambientes de acordo com a variação do nível d´água, oferecendo desafios a seu monitoramento. Botos e ariranhas, por exemplo, seguem os peixes para dentro do igapó quando a água sobe, e o peixe-boi migra de uma área de várzea para lagos profundos de terra firme quando o nível do rio cai. O uso de drones representa uma forma de atacar este problema, possibilitando estudos de deslocamentos, uso e ocupação de habitat, e estimativas populacionais ao longo do ano”, contou Miriam. De acordo com a pesquisadora, após os testes, a tecnologia poderia ser utilizada em diferentes pesquisas e também com outras espécies de vertebrados amazônicos. 
 
“A ideia dessa atividade foi tentar identificar gargalos, o que funciona bem ou não com esse modelo de drone. A gente já viu que funciona, mas tem limitações. Já começamos a imaginar cenários em que funciona muito bem. E, agora, vamos conversar com pessoas que já trabalham com isso. Já temos as perguntas para ir atrás de respostas”, comentou o especialista da WWF. 
Marcelo reforça que o projeto inova em ser o primeiro a utilizar a tecnologia para monitoramento populacional de botos. “Primeira vez no mundo que é feito com mamíferos aquáticos em rios amazônicos. Já houve registro de comportamento de botos. Mas um censo, ou densidade populacional nunca foi feito”, disse.

A equipe acredita que, com o auxílio dos drones, será possível alcançar áreas de difícil acesso, reduzindo os custos com as expedições de campo e os esforços da equipe de pesquisadores. “As possibilidades são inúmeras, queremos começar com algumas coisas mais simples, mas a capacidade de deslocamento a várias alturas e velocidades associada com a alta resolução das imagens produzidas certamente reduzirão consideravelmente nossas limitações de visualizar os animais”, enfatizou Miriam

A próxima etapa da expedição será no Rio Juruá, no período de 14 a 22 de novembro.  A saída será do município de Tefé, pelo Solimões, percorrendo o Rio Juruá até o dia 22. A expectativa da equipe é chegar até a Reserva Extrativista do Médio Juruá. A pesquisadora ressalta que, apesar de ser uma tecnologia relativamente nova no Brasil, sua utilização vem se expandindo em pesquisas com vida silvestre e recursos naturais. “Os resultados de estudos já feitos com vida silvestre, e especificamente com botos, ariranhas e sirênios (peixe-boi e dugongo) levam a crer que o emprego da tecnologia representará um diferencial nos estudos em áreas protegidas”, comentou.
 
Texto: Amanda Lelis  

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