Os sons da floresta: tecnologias acústicas vão contribuir para identificação da fauna amazônica

Publicado em:  1 de junho de 2017

Projeto une pesquisadores do mundo com a meta de monitorar a biodiversidade na Amazônia

Quem foi criado ou vive perto de uma floresta, sabe reconhecer um tipo de passarinho, de sapo e de outros animais só de ouvir os seus sons. Porém, nem o mais preparado ouvido humano é capaz de escutar todas as frequências sonoras que vêm da natureza. Com a criação de um sistema de tecnologia inteligente, uma parceria internacional busca gravar, transmitir e fazer a identificação de espécies da fauna na Amazônia a partir de sons e imagens. Batizado de Providence, o projeto é liderado pelo Instituto Mamirauá.

Os testes das tecnologias acústicas do Providence começaram em abril, em um ambiente típico da região amazônica: a floresta inundada ou várzea. O lugar escolhido foi a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, localizada no estado do Amazonas e palco tradicional de pesquisas com foco em biodiversidade do Instituto Mamirauá.

“A ideia do Providence é criar uma tecnologia que permita, pela primeira vez, o monitoramento da biodiversidade da Amazônia em tempo real”, explicou o pesquisador Emiliano Esterci Ramalho, coordenador de monitoramento do Instituto Mamirauá e um dos coordenadores do projeto. “Estamos na primeira fase do projeto, desenvolvendo testes com foco específico na Reserva Mamirauá para comprovar que o conceito do projeto funciona”.

Parceria internacional

Para o componente sonoro da tecnologia, o projeto Providence conta com o trabalho do Laboratório de Aplicações Bioacústicas da Universidade Politécnica da Catalunha (UPC), na Espanha, por meio da Fundação Sense of Silence. “Temos uma equipe de doze cientistas fazendo a análise acústica dos dados coletados. O sistema que estamos construindo vai gravar todos os diferentes sons da fauna para classificar automaticamente as espécies tanto na floresta quanto na água, processá-los em tempo real e enviá-los ao mundo”, disse o pesquisador e presidente da Sense of Silence, Michel André.

Michel André é uma referência mundial em bioacústica. Reconhecido por seu longo trabalho sobre poluição sonora nos oceanos, ele recebeu o Prêmio Rolex por um projeto que previne colisões de navios contra baleias, em 2002. Agora, o cientista bioacústico transporta sua experiência do fundo dos mares para a floresta amazônica.

O pesquisador explica que a primeira fase de testes de áudio usou um grupo focal de dez espécies de animais para “treinar” os componentes acústicos. “Captamos sinais das diferentes espécies da vida natural na Reserva Mamirauá, como onças e macacos, incluindo morcegos, animais com frequências ultrassônicas, e sons subaquáticos que vêm dos botos”, contou. A partir do registro do som desses animais, o sistema será capaz de identificar automaticamente as espécies em questão.

Próximos passos

O objetivo final dos testes é chegar a um modelo de equipamento, chamado de “módulo Providence”, que vai unir os componentes de áudio e imagem para o melhor reconhecimento da fauna. “A meta inicial do projeto é construir dez módulos Providence e instalá-los em pontos diferentes da Reserva Mamirauá”, afirmou Emiliano Esterci Ramalho.

A primeira fase do Providence vai até o primeiro semestre de 2018. Nas próximas etapas, os pesquisadores pretendem expandir a abrangência dos testes para outras regiões da Amazônia. “Estamos muito animados com o andamento do projeto e os frutos que ele pode render para toda a sociedade”, disse o pesquisador.

Junto com o Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e a Sense of Silence, fazem parte do projeto Providence a instituição australiana de pesquisa Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO) e a Universidade Federal do Amazonas. O projeto conta com um financiamento de 1,4 milhão de dólares (cerca de 4,36 milhões de reais) da organização filantrópica e de apoio à ciência e à biodiversidade Fundação Gordon and Betty Moore.

Texto: João Cunha

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