Os desafios de implantar um sanitário seco em um ambiente alagado na Amazônia

Publicado em: 16 de agosto de 2017

Sanitário seco foi construído pelo Instituto Mamirauá em uma comunidade ribeirinha no estado do Amazonas, em 2012. Resultados dessa experiência serão apresentados no I Congresso Brasil Norte de Engenharia Sanitária e Ambiental

Como construir um sanitário seco em um lugar que alaga durante meses, todos os anos? Esse foi uma das questões encaradas pela equipe do Instituto Mamirauá em 2012, quando instalaram uma estrutura de Sanitário Seco com Separação de Urina (SSUU) em uma comunidade ribeirinha na Amazônia. Os desafios e aprendizados desse processo serão conhecidos a partir de hoje (16), no I Congresso Brasil Norte de Engenharia Sanitária e Ambiental, em Belém do Pará.

“Desafios de implantação de sanitário seco em área alagável” é o nome da pesquisa, que será apresentado pela pesquisadora do Instituto Mamirauá, Patrícia Müller. Ela faz parte do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis (GPIDATS), responsável pelo projeto do sanitário seco. A comunidade de São Paulo do Coraci, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, estado do Amazonas, foi a escolhida para receber a iniciativa piloto.

Construindo um sanitário seco

O local fica a muitas horas de barco de Tefé, maior município da região, e a mais de 600 km da capital Manaus. A distância e dificuldades de acesso a serviços básicos como o saneamento básico motivaram os pesquisadores e técnicos a testar a possibilidade de um sanitário seco. O modelo para a estrutura foi inspirado em um trabalho feito no continente asiático Ásia, “em uma área cujo ciclo de alagamento é semelhante ao da Amazônia, então o grupo levantou essa bibliografia e instalamos a tecnologia”, explica Patrícia.

Foi nos fundos da casa de “Dona” Janete Ambrósio e “Seu” Marco das Chagas, moradores da comunidade São Paulo do Coraci, que o sanitário seco foi instalado. Desde a implantação, há cinco anos, a estrutura atende a residência onde moram o casal e seus filhos. Na época, para evitar o alagamento na época chuvosa, os especialistas do Instituto Mamirauá planejaram uma construção de concreto elevada a 70 centímetros acima do solo, usando como referência a cota máxima de inundação, que aconteceu naquele ano de 2012. Também foram providenciados recipientes com pequeno volume para armazenamento de fezes e urina, facilitando assim o manuseio.

Desafios

O Instituto Mamirauá faz visitas periódicas à São Paulo do Coraci para analisar o uso e adaptação do sanitário seco pela família. Os pesquisadores se depararam com desafios como a grande cheia de 2015, que superou todas as expectativas e estabeleceu um novo recorde de inundação naquela parte da Amazônia, alagando parte do sanitário seco.

Outras necessidades de mudanças na estrutura foram apontadas pelos próprios moradores da casa. Foi o caso do dispositivo separador, que a princípio foi projetado para ser usado na posição de cócoras que a longo prazo, se mostrou desconfortável e foi substituído, no ano passado, por um vaso sanitário.

Facilidades

Com base em entrevistas com a família, Patrícia Müller, que é bolsista do CNPQ - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, afirma que a tecnologia do sanitário seco foi bem aceita. “Eles notam que é importante o uso do sanitário seco, faz bem para a família e facilita a vida deles”.

 A pesquisadora explica que uma das formas tradicionais de despejo usadas na comunidade é o sanitário de buraco, que fica afastado das residências e não passa por tratamento dos resíduos de fezes e urina. Outra delas é o popularmente conhecido “pau da gata”, que em outras palavras, é o ato de defecar e urinar a céu aberto, na mata. Ambos métodos, especialmente à noite, trazem insegurança para os comunitários.

“A energia elétrica na comunidade vai até certo horário, depois é escuridão total. Os moradores da comunidade têm medo de deixar os filhos saírem à noite sozinhos para usar o sanitário comum. Ter um sanitário perto de casa é mais seguro e facilita o uso”, conta Patrícia.

Outra vantagem apontada por “Seu” Marcos e é uso dos subprodutos do sanitário seco como biofertilizantes da terra. Seguindo as recomendações da equipe do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), ele usa o composto feito de fezes e material seco como adubo para o plantio de árvores no fundo da casa.

I Congresso Norte de Engenharia Sanitária e Ambiental

O evento está acontecendo entre os dias 16 e 19 de agosto de 2017, no hotel Princesa Louçã, centro de Belém. Para mais informações, acesse http://www.cbnabes.com.br/

Texto: João Cunha

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