"Não é pecado sonhar"

Publicado em: 24 de julho de 2015

Um dos alunos do Centro Vocacional Tecnológico (CVT), situado na sede do Instituto Mamirauá, está entre os delegados para representar os agricultores da região do Médio Solimões na Conferência Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional, que será realizada entre os dias 05 e 07 de agosto em Manaus. O evento antecede a Conferência nacional que acontece no fim do ano em Brasília, organizada pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. O jovem Carlos de Carvalho Gonçalves, de 25 anos, pretende apresentar sua experiência e suas ideias para os desafios da agricultura em áreas de várzea no Amazonas.

Morador da comunidade Costa da Ilha, localizada no município de Fonte Boa, o jovem acompanha há muitos anos o trabalho ao lado dos agricultores de sua região e pretende aprender com as experiências de outros produtores do estado para fortalecer a atividade em sua comunidade. Em entrevista à equipe do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Carlos falou sobre a expectativa de participar do evento estadual, sobre o seu projeto para a comunidade em que vive e como pretende contribuir para o fortalecimento da agricultura familiar com sugestões para adequação da atividade aos ciclos sazonais na região.

IM: Carlos, como foi a Conferência Regional de Segurança Alimentar e Nutricional que aconteceu em Tefé, no início de julho? E como você avalia sua participação?

Carlos: Foi a apresentação de alguns agricultores que têm sua associação e já estão trabalhando no município. Eles falaram dos objetivos, os incentivos e referências que tiveram, o que eles sofreram até conseguirem chegar onde estão. Tudo na vida a gente sabe que não começa grande, tem que começar do zero, sempre com o pé no chão e pensando em ser honesto com as pessoas. Cada um compartilhou sua ideia e a sua experiência. Para quem está no início, como eu, foi muito bom. Incentivaram mais ainda a trabalhar em forma de grupo, no coletivo, sem importar com a dificuldade, mas com força de vontade.

IM: E você também apresentou a sua iniciativa? Como ela foi recebida pelo público?

Carlos: Apresentei meu projeto. Como algumas comunidades que fazem parte do município de Tefé já vêm desenvolvendo esse projeto, eles falaram que eu não vou ter muita dificuldade. Deram ideia de trabalhar em forma de parceria. Eles falaram que eu não devo pensar em valor, no custo que o projeto vai ter, mas sim em como ele vai beneficiar todas as famílias, isso vai fortalecer a comunidade cada dia mais. Foi muito importante para mim, porque aprendi bastante, aprendi a lidar com as pessoas que realmente têm opiniões diferentes e temos que aprender a lidar e respeitar as opiniões de cada pessoa.

IM: E qual é o seu projeto? Sobre o que é o seu trabalho de conclusão de curso no CVT?

Carlos: Esse é o papel principal desses quase dois anos que estou passando aqui no Instituto Mamirauá estudando. Esse projeto veio da demanda da minha comunidade, é sobre novas técnicas para a produção de hortaliças em épocas de cheia. Teve um diagnóstico levantado pelo Idam [Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas] que considerou a comunidade como uma das principais que levam hortaliças para o município de Fonte Boa. E com vários anos, passando de geração para geração, a gente vem trabalhando e melhorando mais as técnicas. Mas no tempo de enchente as famílias estão perdendo aquele costume de ir fazendo as plantações. Porque a cheia atrapalha e ainda não tinham um acompanhamento e até uma preparação das próprias famílias. Eu queria ajudar porque a agricultura é um meio de renda importante que tem lá.

IM: E qual é a sua ideia para driblar essa questão da enchente, que tem atrapalhado a produção por alguns meses durante o ano?

Carlos: Esse ano foi uma surpresa pra gente, a cheia foi além do que a gente imaginava. Meu projeto é de canteiros suspensos, como a gente chama na nossa comunidade. A gente vai calcular o melhor local e a altura pra instalar. Vamos escolher o lugar mais raso, pro canteiro não ficar muito alto. Escolhemos fazer num lugar em que foi 80cm de profundidade e vamos calcular basicamente mais uns 60cm acima da água, já pensando na próxima enchente. Então a gente vai fazer dois canteiros, com uma passarela entre eles e com escadas pra facilitar na construção e na distribuição, como cuidar, como adubar, como regar e na colheita. Um grupo da comunidade vai se envolver, 16 pessoas. Focamos em quatro espécies, que eles plantam mais pra ver a viabilidade delas nesse período. Escolhemos couve, chicória, cebolinha e coentro.

IM: Qual retorno você acha que esse projeto pode trazer para sua comunidade?

Carlos: Eu acredito que vai ter um retorno positivo pra associação. O que vai ser colhido, a renda, tudo de interessante vai contribuir pra Associação de Produtores Rurais da Comunidade Costa da Ilha. A gente trabalha com vários fatores, com a agricultura e com o manejo de pirarucu. E como a associação não tem fins lucrativos, a gente criou vários meios pra conseguir manter a associação, como atualizar os documentos, manter os trabalhos, reuniões do ano, pra pagar vários gastos que a associação tem. Antes, cada sócio precisava pagar uma cota. E desde quando nós resolvemos trabalhar com a agricultura, com objetivo de retornar pra associação, a família não fica preocupada na hora do pagamento porque a comunidade já tem uma segurança todo ano pra poder pagar esses gastos. O objetivo do projeto é fortalecer mais o trabalho na associação. E também para que, na época da cheia, a comunidade não fique sem nenhuma atividade e que toda família possa produzir e não ficar só dependente do dinheiro que eles depositaram ou guardaram, mas possam gerar mais renda.

IM: Quando concluir o curso do CVT, quais são seus planos?

Carlos: Eu estou com o projeto de não parar de estudar. Quero voltar pro meu município, concorrer a uma vaga como técnico do Idam, poder ir pra frente e continuar estudando. Quero fazer uma faculdade, se Deus quiser, aprimorar mais, quero ser agrônomo. Não é pecado sonhar, então quem sabe futuramente volto para trabalhar no Mamirauá como agrônomo da equipe do Programa de Manejo de Agroecossistemas. E continuar contribuindo para a minha comunidade, se Deus quiser.

IM: Você acha que pode ser um exemplo para outros jovens da sua cidade?

Carlos: Eu acredito que o que está acontecendo na minha vida está sendo a mais do que eu esperava. Vou zelar pela humildade, que é o principal papel de um cidadão. Quero servir de exemplo, isso seria o ponto principal da minha vida, poder trabalhar e ter oportunidade de dar uma palestra nas comunidades da várzea sobre a importância da alimentação, da comida de verdade, ensinar as crianças a darem valor à alimentação que as comunidades produzem sem química, sem algum material que possa prejudicar a saúde. Eu seria muito grato se pudesse explicar nas escolas, não sobre tudo, mas poder repassar o valor do pouco que eu tenho. Sempre acompanhei os agricultores na minha comunidade, sempre fiz parte da vida deles, dou valor a isso e sou grato a todo mundo. 

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