Instituto Mamirauá participa de congresso de primatologia em Recife (PE)

Publicado em: 31 de julho de 2013

       “Discutir os temas mais urgentes da primatologia na atualidade”. Esse é um dos objetivos do II Congresso Latino Americano e XV Congresso Brasileiro de Primatologia que será realizado de 4 a 9 de agosto de 2013, em Recife (PE). Quatro pesquisas do Instituto Mamirauá serão apresentadas em forma de exposição oral, e uma em forma de painel, além da participação em duas mesas-rendas. 
       João Valsecchi, Diretor Técnico-Científico do Instituto Mamirauá, participa da mesa-redonda “O Papel das Unidades de Conservação de Uso Sustentável na Manutenção da Biodiversidade de Primatas no Brasil” e a pesquisadora Fernanda Paim apresenta a “Diversidade, Distribuição Geográfica e Conservação de macacos-de-cheiro, Gênero Saimiri, nas Florestas de Várzea da Amazônia Central”. 
       Além da mesa-redonda, Fernanda apresenta o trabalho “Diferentes métodos aplicados à captura de espécies de macacos-de-cheiro em uma área de várzea”, que tem por objetivo descrever dois métodos de captura para diferentes espécies desses primatas". “Pesquisas que envolvem captura destes primatas em seu ambiente natural são raras, devido às dificuldades relacionadas, principalmente, a falta de uma metodologia de captura descrita e publicada”, justificou a pesquisadora. 
       A experiência realizada pelo Instituto Mamirauá ocorreu em 2012, com a captura de 20 macacos-de-cheiro, tendo sido a primeira captura de primatas deste gênero em vida livre na Amazônia. Foram construídas dez estações com um par de armadilhas fotográficas em cada. “Durante três meses e meio antes da captura, cada armadilha recebeu iscas de bananas, diariamente, para atração dos primatas”, disse Fernanda. 
 
Nova distribuição geográfica para o macaco-aranha
       Uma das pesquisas propõe uma nova distribuição geográfica para o macaco-aranha-de-cara-preta, incluindo uma área de 864.000 ha da Reserva Mamirauá com a comprovação de novos registros da espécie. “O levantamento dos registros envolveu buscas ativas, com coleta de espécimes, entrevistas com moradores locais e observações diretas. Das dezenove comunidades entrevistadas, treze relataram a presença da espécie na área da reserva”, afirmou o biólogo Rafael Rabelo, um dos autores da pesquisa. 
       O esforço de campo foi de aproximadamente treze horas, em trilhas pré-existentes, com cinco observações de grupos, com tamanhos variando entre 1 e 6 indivíduos. Quatro indivíduos foram coletados na Ilha do Barroso, próximo à confluência do rio Solimões com o paraná do Aranapu. A ocorrência dessa espécie na margem norte do rio Solimões pode ser explicada pela dinâmica geomorfológica de rios amazônicos. 
       Em maio, o médico veterinário Marcelo Santana fotografou a espécie pela primeira vez na Reserva Mamirauá. O macaco-aranha-de-cara-preta é considerado “em perigo” de extinção de acordo com a lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN).
 
Redescobrindo o Mico marcai
       Desde 1914, quando o Marechal Cândido Rondon e o ex-presidente americano Theodore Roosevelt realizaram a expedição científica Roosevelt-Rondon, a primeira a explorar o “Rio da Dúvida” (atual Rio Roosevelt), pouco se estudou sobre uma das espécies cujas amostras foram coletadas na ocasião: o Mico marcai. A partir de 2012, o biólogo Felipe Ennes Silva, do Instituto Mamirauá, vem realizando expedições à região de ocorrência dessa espécie, que fica na bacia do rio Aripuanã, entre o sul do estado do Amazonas e o Mato Grosso.
       No Congresso de Primatologia, Felipe apresenta “Redescoberta do Mico marcai e os desafios para o conhecimento da diversidade de primatas no médio Aripuanã, Amazônia, Brasil”. “Este trabalho teve como objetivo verificar a presença desta espécie, registrar a diversidade de primatas na região do médio rio Aripuanã, e verificar as principais ameaças potenciais”, argumentou Felipe. 
       Felipe realizou entrevistas com moradores para obter indicações das áreas a serem amostradas e foram considerados os avistamentos para registro da presença de primatas na área. As peles coletadas dos animais foram armazenadas no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA). “São necessários estudos sobre a diversidade, distribuição e abundância das espécies da região antes e após a implementação das hidroelétricas na bacia dos rios Aripuanã e Roosevelt para avaliarmos o impacto destes empreendimentos em suas populações”, conclui o pesquisador. 
 
Associações entre primatas
       As associações entre primatas em terra firme e em várzea é o tema de uma pesquisa que será apresentada pelo biólogo Jonas Gonçalves, um dos autores desse trabalho. A coleta de dados ocorreu entre 2006 e 2013, em área de terra firma, e entre 2008 e 2013, em área de várzea. 
       “Registramos 13 espécies de primatas nas áreas de estudo, sendo que dez destas em eventos de associação. A associação de duas espécies foi o evento predominante (95%). Macaco-prego, macaco-de-cheiro-comum e macaco-de-cheiro-da-cabeça-preta foram as espécies mais frequentes dentre as associações. As associações mais frequentes foram observadas entre macaco-prego e macaco-de-cheiro-comum e entre macaco-prego e macaco-de-cheiro-da-cabeça-preta”, relatou Jonas. Não foram observadas diferenças entre os ambientes de terra firma e de várzea.
       Segundo Jonas, alguns estudos sugerem que as associações entre estes primatas estão ligadas a benefícios mútuos, como aumento da detecção de predadores e de recursos alimentares. Para estas espécies, altas densidades têm-se mostrado como possíveis preditoras de altas frequências de associações interespecíficas, especialmente, quando comparadas florestas de terra firme e de várzea. 
 
O que os macacos-de-cheiro fazem no chão?
       Fazem atividades de forrageio, alimentação e interações agonísticas. Essa é a conclusão da pesquisa conduzida pela bióloga Michele Araújo, do Instituto Mamirauá, uma das autoras do trabalho “Atividades terrestres em Saimiri sciureus cassiquiarensis na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá/AM”. Adaptados para viverem em árvores, alguns primatas podem apresentar atividades terrestres. Foi o que constatou a pesquisadora, durante a coleta de dados para descrever a dieta de macaco-de-cheiro-comum na Reserva Mamirauá, entre os meses de outubro e dezembro de 2012.
       “Foram registradas atividades terrestres de forrageio, alimentação e interações agonísticas nos grupos de macaco-de-cheiro. O comportamento terrestre no gênero Saimiri já foi relatado em outros estudos, mas foi considerado pouco frequente em seu repertório comportamental, geralmente estava relacionado com a recuperação de alimentos que caíam no chão. Devemos considerar também a escassez de recurso durante o período seco, que pode levar os macacos-de-cheiro a explorar outras fontes de recursos e substratos, podendo indicar talvez um desenvolvimento de um comportamento local como já observado em outros táxons de primatas”, concluiu Michele.

Últimas Notícias

Comentários

Receba as novidade em seu e-mail: