Instituto Mamirauá lança livro digital sobre manejo de pirarucu na Amazônia durante o CBUC

Publicado em: 31 de julho de 2018

A obra digital O Gigante Amazônico, de  Ana Cláudia Torres Gonçalves; João Cunha; Jonas da Silva Batista, produzida pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, foi lançada hoje, 31 de julho, no IX Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), em Florianópolis (SC).

Entre relatos e belas imagens, o livro O gigante amazônico: manejo sustentável de pirarucu conta a história da pesca de um dos peixes mais emblemáticos e importantes da região amazônica. Através da produção sustentável do pirarucu, a pesca movimentou em faturamento cerca de 3 milhões de reais apenas em 2017 e mais de 40 comunidades de pescadores do Médio Solimões.

"O protagonismo desta obra é dos pescadores, que acreditaram no projeto e na proposta de manejo", disse Ana Cláudia Torres Gonçalves, uma das autoras da publicação. O livro conta com relatos de técnicos e de pescadores, diferentes aspectos e resultados dos projetos de pesca manejada de pirarucus, além de reunir fotos da atividade e mostrar a beleza de uma espécie que pode produzir peixes de quase três metros e até 200 quilos. Beleza, informação e a noção da importância deste pescado é o que esta obra reúne em 172 páginas que estão disponibilizadas em versão digital, no link www.mamiraua.org.br/livro-gigante.

Durante o lançamento, outro autor da publicação, Jonas da Silva Batista, falou da importância em participar do trabalho: "Eu trabalho com pesca desde os meus 18 anos, porque eu acredito muito nesse profissional, nesses pescadores. Pescar pirarucu não é fácil, mas um pescador nunca está sozinho e estar próximo de tudo isso é muito gratificante".

O pirarucu (Arapaima gigas) é um dos maiores peixes de água doce do planeta. Seu nome vem de dois termos indígenas pira, "peixe", e urucum, "vermelho", devido à cor de sua cauda. O pirarucu é um símbolo do Médio Solimões e um importante produto de comercialização no estado do Amazonas, mas nem sempre foi assim. O pirarucu viveu um período de captura intensa na segunda metade do século XX, que causou a redução nos estoques do peixe em rios e lagos da região de Mamirauá e Amanã, chegando a atingir risco de extinção local.

Com a assessoria técnica do Instituto Mamirauá e a mobilização das populações locais, no início dos anos 2000, teve início o manejo do pirarucu, observando os ciclos de vida e a reprodução da espécie. O manejo do pirarucu implica em permitir uma cota anual de pesca do peixe, que é determinada pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), de acordo com dados coletados nas áreas de pesca e repassados pelo Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). O resultado foi a multiplicação dos peixes e a melhoria da qualidade de vida e de renda das famílias envolvidas no manejo.

Hoje o pirarucu bate recordes todos os anos em rendimento e produção ano a ano. O valor de 2017 ultrapassou o rendimento do manejo feito em 2016, que já havia alcançado R$ 1,9 milhão. Em 2017 foram comercializados 648.573 quilos do pescado, marca também superior ao do ano anterior, de 480.000 quilos. No ano passado, o manejo do pirarucu na região foi feito por 1.590 de pescadoras e pescadores. Um universo que abrange 43 comunidades ribeirinhas nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, além dos grupos de pescadores de colônias e sindicatos de pescadores de municípios amazonenses vizinhos das reservas: Tefé, Alvarães e Maraã.

Relatório do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá aponta que “a maior parte da produção (55%) foi comercializada para o mercado estadual (Manaus, Iranduba, Itacoatiara e Parintins) 25% para o mercado local (Tefé, Alvarães, Uarini e Maraã) e 20% para o mercado nacional”. A região ainda lida com a pesca clandestina e predatória.

De acordo com a coordenadora de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá e uma das autoras do livro, Ana Claudia Torres, fora das áreas de manejo, o comércio clandestino do pirarucu atua em grandes proporções. “Um dos desafios do manejo é a concorrência desleal com o pirarucu ilegal, que ainda precisa de mais fiscalização e atuação para coibir o comércio clandestino da espécie”. Mas os ótimos resultados do manejo e o envolvimento das comunidades pesqueiras garantem a recuperação da espécie e vida longa à presença do gigante amazônico.

O lançamento desta obra também é uma ação importante para mostrar o sucesso do manejo e as possibilidades de ter uma atividade rentável e produzida de forma sustentada. O livro destaca o ecossistema de várzea e suas características para reprodução do pirarucu ao mesmo tempo que mostra a pesca como uma das principais atividades econômicas da região. Evidencia também como a introdução da legislação ambiental no sistema produtivo promoveu uma reorganização dos pescadores e uma nova forma de se relacionarem com o ambiente.

Em alguns momentos, foi preciso adaptar materiais de pesca que eram utilizados de forma predatória, criar estratégias de vigilância para proteção dos sistemas de lagos e mudar a postura com relação ao uso dos recursos naturais. Tudo para garantir a conservação da espécie e a manutenção social dos pescadores. Os positivos na produção e de recuperação dos estoques pesqueiros demonstram que os esforços de conservação, mesmo com todas as dificuldades, não estão sendo em vão. E a obra mostra isto em histórias e imagens. Divido em três partes, o livro trata da “Várzea do Médio Solimões”, no capítulo 1, do “Manejo sustentável de pirarucu: resultados e perspectivas”, no capítulo 2, e traz “Histórias de pescador: manejadores de pirarucu” no terceiro e último capítulo, fala sobre expressões populares que as comunidades usam como ‘espia’ e ‘boiada’. O livro mistura bem o conhecimento científico e o popular e nos brinda com imagens do cotidiano da pesca.

A construção coletiva desta obra também é um demonstrativo de como devem ser implementados os projetos de manejo sustentável de pesca, de forma compartilhada e participativa entre equipes técnico-científica e pescadores, evidenciando a importância do diálogo necessário entre pesquisa científica e saberes tradicionais. “O gigante não é apenas em tamanho, mas também naquilo que ele representa e proporciona, tanto em aspectos socioambientais e econômicos, quanto em dimensões geográficas”, diz a obra a respeito do projeto de manejo e o pirarucu.

 “A disseminação das tecnologias de manejo, a inclusão de pescadores das áreas urbanas nos Acordos de Pesca, a inserção e valorização do trabalho das mulheres nos projetos de manejo, e o reconhecimento do trabalho por agências de fomento nacionais e internacionais, que rendem recompensas em prêmios, endossam sua importância para a economia dessa região e para a vida de muitas famílias ribeirinhas”. A obra O Gigante Amazônico: manejo sustentável de pirarucu é uma importante contribuição para o debate e para mostrar as belezas e a presença fundamental da produção sustentável desse peixe que é um símbolo da Amazônia e fundamental para a vida de tantas pessoas na região.

Texto: Linete Martins

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