Instituto Mamirauá apresenta olhar interdisciplinar sobre a Amazônia Ocidental em seminário internacional

Publicado em:  8 de outubro de 2018

Trabalho de cientistas propõe frente de pesquisa para tentar compreender o passado e atualidade da Amazônia. O trabalho será apresentado no Seminário Histórias da Amazônia Ocidental, na quinta-feira (11), em Manaus

Em um período que pode ser estimado entre 3 e 4 mil anos atrás, um grupo de pessoas viveu suas tradições, ritos, disputas e festejos às margens do baixo curso do rio Juruá, no que hoje conhecemos como estado do Amazonas. Atualmente, os identificamos pela cerâmica que produziam – o padrão Pocó.

Os vestígios desse e de outros povos são objeto de estudo do trabalho “Olhares para a região do baixo do Rio Juruá e as formas de ocupações humanas na longa duração”, a ser apresentado no Seminário Histórias da Amazônia Ocidental, que vai acontecer entre os dias 9 e 11 de outubro, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Manaus. A apresentação acontecerá na quinta-feira (11), às 14h.

O debate será enriquecido por visões dos diferentes campos das Ciências Sociais. “[O seminário] tem associados antropólogos, biólogos, geógrafos, arqueólogos e etnobotânicos, dentro desse grupo, cujo objetivo é pensar um pouco as histórias disso que a gente vem chamando de Amazônia Ocidental. A ideia é pensar como toda essa região vem sendo significada por diferentes grupos, em diferentes momentos da história.”, explica Patrícia Rosa, antropóloga e pesquisadora do Grupo de Pesquisas em Territorialidades, Organização Social e Dinâmicas Populacionais.

Escrito por Patrícia e pelo arqueólogo Márcio do Amaral, pesquisador do Laboratório de Arqueologia do instituto, o trabalho é um resumo das descobertas realizadas nas expedições arqueológicas à região do baixo curso do rio Juruá, afluente da margem direita do Rio Amazonas, observadas de um ponto de vista interdisciplinar que engloba a arqueologia, a antropologia e a etnobotânica. O resumo será base para uma série de pesquisas de campo e um novo artigo científico.

Além de procurar entender como os povos que existiram ao longo do rio Juruá moldavam a paisagem, daqui para frente a pesquisa passa a observar, de um viés antropológico, a interação da população ribeirinha com os “cacos de índio” – como costumam se referir aos artefatos arqueológicos.

“No que implica ter artefatos arqueológicos dentro de uma comunidade? Como essas pessoas estão se relacionando com esses artefatos? Como isso influencia em seu modo de vida?”, questiona Patrícia.

Novas perspectivas sobre a arqueologia na região

O processo de transição entre as diferentes populações humanas que habitaram as margens do rio Juruá ainda é obscuro. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que a região seria pobre em ocupações humanas antigas. “Essa primeira expedição ao baixo rio Juruá possibilitou encontrar 26 sítios arqueológicos. E isso é só uma fração do que tem realmente na área. ”, conta Márcio.

As pesquisas sugerem que pelo menos quatro ciclos antrópicos (diferentes comunidades humanas) aconteceram por lá: além do padrão Pocó, foram encontradas cerâmicas de padrão hachurado zonado, da Tradição Polícroma da Amazônia e as cerâmicas caboclas temperadas com cinzas de caraipé ou carapaça de quelônios, que até hoje são produzidas na região, mas vêm perdendo espaço para objetos de alumínio ou plástico. Cada um desses estilos representa uma ocupação diferente.

O estudo dos pesquisadores do Instituto Mamirauá, uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Informações e Comunicações, observa também a transição e os intercâmbios entre os povos indígenas, que antes habitavam a região, e a população que veio depois, no contexto das migrações do século XIX, do nordeste brasileiro (pincipalmente do Ceará).

Os pesquisadores notaram uma apropriação, por parte dos imigrantes, de técnicas agrícolas, de manejo florestal, caça, pesca e medicina, oriundas das tradições indígenas que antes ocupavam o espaço.

As descobertas permitem afirmar, também, que os povos antigos do Médio Solimões cultivavam relações entre si. “Essas áreas não estavam isoladas. No período pré-colonial e até mesmo colonial, essas áreas se conectavam, havia um fluxo de pessoas indo e vindo. E a gente pode ver isso na cultura material que encontramos nesse sítio. ”, relata Márcio.

A expedição científica ao Rio Juruá teve apoio da Fundação Gordon and Betty Moore

O olhar da etnobotânica

Outra curiosidade é a descoberta de castanhais, possivelmente manejados por esses povos, onde antes se imaginava que eles não existiam. A etnobotânica (ciência que estuda a utilização de plantas por comunidades) permite que entendamos como as populações que residiam no baixo curso do Juruá transformaram a flora local, inserindo no ambiente espécies vegetais domesticadas, como o açaí. Dessa forma, podemos compreender um pouco mais de seus hábitos alimentares, por exemplo.

Os pesquisadores também encontraram terra preta na região. Esse tipo de solo, muito rico e com características bem particulares, está associado a ocupações indígenas, funcionando como uma evidência de sua presença. Segundo Patrícia, “mesmo que não encontremos os cacos, através da etnobotânica conseguimos dizer onde houve ocupação. São plantas que não nascem sozinhas, precisam de um manejo humano. ”

“A gente está lidando como uma proposta de projeto de trabalho. A partir desse evento, que vai ser a nossa primeira reflexão sobre o campo, a ideia é produzir. Porque é um material extremamente importante e inovador, em termos de dados, para a arqueologia e historiografia e para uma antropologia que está pensando também essas histórias locais. ”, reflete Patrícia.

O trabalho será apresentado no contexto da “Mesa Redonda IV: Formação das Paisagens”, organizada por Sanderson Castro Soares de Oliveira, Tatiana Schor, Dany Mahecha Rubio e Patrícia Rosa. A apresentação acontecerá entre 14h e 16h30, na Universidade Federal do Amazonas, em Manaus.

Texto: Bernardo Oliveira

 

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