Estudos analisam práticas de caça nas Reservas Mamirauá e Amanã

Publicado em: 12 de agosto de 2013

Pelo menos oito pesquisas, divulgadas recentemente pelo Instituto Mamirauá, analisaram a prática da caça nas Reservas Mamirauá e Amanã. Com objetivos análogos, os pesquisadores do Instituto Mamirauá estudaram o abate de animais silvestres por comunidades tradicionais, alguns dando ênfase ao abate de mamíferos, aves e répteis. Na maioria dos casos trata-se de caça com finalidade de subsistência. 
Uma das pesquisas analisou os padrões de caça nas duas reservas. Segundo o biólogo João Valsecchi, na região neotropical a caça é uma importante fonte proteica para as populações de áreas rurais sejam elas ribeirinhas ou povos indígenas. O período de amostragem analisado compreende oito anos de monitoramento entre 2003 e 2010. Durante o período de estudo, os caçadores de Mamirauá e Amanã realizaram 3.793 eventos de caça, sendo abatidos 8.968 animais. 
“A maioria dos eventos foram realizados na Reserva Amanã, ou seja, a caça é mais importante para a área de terra firma do que da várzea”, analisou. Os resultados indicam que as espécies mais susceptíveis à caça nessas reservas são a queixada, o jacaré-açu, a paca, a cutia, a anta, a tartaruga-da-amazônia, o tracajá e o iaçá e o jabuti, além dos mutuns e patos-do-mato, sendo as mesmas descritas para outras áreas. 
Segundo Valsecchi, as principais espécies caçadas são as mesmas desde o início do monitoramento. As proporções de abate estão sendo mantidas e nenhuma espécie deixou de ser caçada no período deste estudo, indicando sustentabilidade da atividade na região. Entretanto, o pesquisador alerta que estudos devem ser realizados sobre a manutenção das abundâncias naturais, análises de produtividade, e avaliação da sustentabilidade de caça, pois esses podem detectar possíveis impactos sobre a fauna caçada, não identificáveis pela composição da fauna abatida. 
 
Jabuti-amarelo
A bióloga Thaís Morcatty, pesquisadora do Instituto Mamirauá, busca compreender a caça de jabutis na região da Amazônia Central. A pesquisa tem como alvo o jabuti-amarelo, uma espécie ameaçada de extinção a nível mundial. O jabuti-amarelo é uma das espécies mais caçadas em vários locais da Amazônia para alimentação, atingindo até 30% do total de indivíduos abatidos em comunidades tradicionais da Amazônia Peruana. 
Segundo a pesquisadora, o objetivo do trabalho é descrever o perfil da caça de jabutis por moradores das Reservas Mamirauá e Amanã, compreendendo as implicações da atividade para a conservação da espécie. Em um monitoramento promovido pelo Instituto Mamirauá, em parceria com moradores de 10 comunidades localizadas em ambas as reservas, descobriu-se que entre os anos 2003 e 2011, foram abatidos, ao menos, 524 jabutis para alimentação, sendo em sua maioria fêmeas (60%). 
O ambiente preferencial de coleta de jabutis-amarelo é a terra-firme, representando 52% dos eventos, embora haja alto número de registros de caça da espécie em ambientes alagáveis, como várzea e igapó. “A caça de jabutis ocorre predominantemente em caráter oportunista, durante o desenvolvimento de outras atividades como agricultura, pesca e saída intencional para caça de outras espécies. Como se tratam de animais que vivem muitos anos e que demoram a iniciar sua atividade reprodutiva, o alto número de jabutis caçados pode ser alarmante”, concluiu Thaís. 
Na opinião da bióloga, o envolvimento comunitário está contribuindo fortemente para a melhoria e ampliação das pesquisas com os jabutis-amarelos. “Descobrir como a caça acontece e os seus efeitos na população de jabutis irá nos permitir a elaboração de estratégias eficazes para a conservação da espécie”, acrescentou.
 
Guaribas machos são os mais caçados
Segundo a bióloga Fernanda Paim, pesquisadora do Instituto Mamirauá, uma das autoras da pesquisa sobre caça de guaribas nas Reservas Mamirauá e Amanã, 302 guaribas foram abatidos entre 2003 e 2010. 40 espécimes foram abatidos por comunidades de terra firme, 58 por comunidades de terra firme associado à várzea e 204 por comunidades de várzea. Aproximadamente 54% dos eventos de caça realizados nas duas reservas foi oportunista, ou seja, a maioria dos caçadores não saiu com o objetivo de caçar a espécie. A espingarda foi o instrumento mais utilizado nos abates. 
As comunidades de várzea da Reserva Mamirauá foram responsáveis por 65% do total de 1.567,09 kg do peso abatido nas duas reservas. Desse total, apenas 1.458,19 kg apresentava informação sobre o sexo dos indivíduos, sendo 71% (1.034,94 kg) representado por machos, com 185 indivíduos abatidos.
De acordo com a pesquisadora, a caça preferencial de machos pode significar um fator de impacto sobre a população de guaribas, visto que os grupos sociais da espécie são compostos por apenas um macho reprodutor, nas várzeas, podendo haver até dois em áreas de terra firme. O motivo da aparente preferência por machos pelos caçadores ainda não está esclarecido, podendo estar relacionado com a maior quantidade de carne, devido ao maior peso, ou ao seu comportamento conspícuo durante o evento de caça.
 

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