Estudo indica custo de iscas de botos e jacarés usados para a pesca da piracatinga

Publicado em:  7 de outubro de 2014

Em 2013, pesquisa conduzida pelo Instituto Mamirauá acompanhou a pesca da piracatinga na região do Médio Solimões. Os resultados dessa pesquisa constam no estudo divulgado na última semana e entre os resultados está o custo de iscas de botos e jacarés. Muito embora não seja a isca mais utilizada, um boto pode custar entre 200 e 300 reais, sendo a de maior valor. Entre os jacarés, a de maior valor é do espécime com mais de quatro metros, que tem seu preço variável entre 80 e 150 reais.

Relacionando os dados de eventos de pesca da piracatinga e o número médio de jacarés abatidos por caça, estimou-se que em 2013 cerca de 2.300 jacarés foram abatidos para esse fim na área compreendida pela pesquisa na Reserva Mamirauá e proximidades. De acordo com Diogo de Lima Franco, pesquisador do Instituto Mamirauá, as informações sobre a obtenção de boto pela caça não foram observadas, apenas fornecidas em entrevista.

“A obtenção de jacarés e botos para utilização como isca envolve grande esforço físico, tempo e mão de obra, além de alto gasto com a logística para a caça, e do custo com investimento e depreciação de apetrechos de pesca, como arpões e hastes, por exemplo. Ainda quando as iscas são obtidas pelos pescadores por meio da compra, os valores empenhados são altos”, analisou o pesquisador.

Considerando isso, uma possível solução seria incentivar entre os pescadores a utilização de iscas alternativas, como resíduos de frigoríficos ou vísceras de peixes com boa aceitação no mercado, que possivelmente seriam descartadas. Alguns pescadores já utilizam esse tipo de iscas, que têm se mostrado eficientes para a pesca da piracatinga.

A caracterização da cadeia produtiva da piracatinga vem sendo realizada desde 2011 pelo Instituto na região. Durante o ano de 2013, foram acompanhadas 16 comunidades ribeirinhas ao longo do Rio Solimões e Rio Aranapu, pertencentes a seis setores da Reserva Mamirauá. As visitas tiveram a duração média de oito dias por área, entre março e dezembro, com aplicação de um questionário. Eram coletados dados sociais (idade, sexo, tempo na prática da atividade), produtivos (frequência de pesca, caça ou compra, isca mais utilizada, rendimentos médios por isca) e econômicos (valor médio de venda/compra de piracatinga ou de isca, custos com a pesca, custos com a caça, depreciação e investimento em equipamentos de pesca).

Quarenta comunitários foram entrevistados, divididos por atividade principal dentro da cadeia produtiva da piracatinga, como fornecedores de insumos, caçadores de isca, evisceradores, frigoríficos e entrepostos de pescado, entre outros. Também foram acompanhados eventos de caça de jacarés, pesca da piracatinga, além de visitas a três frigoríficos da região.

Manejo participativo

O trabalho realizado pelo Instituto conjunto às comunidades tradicionais há mais de 15 anos tem surtido efeito positivo no estabelecimento de estratégias de conservação, como é o exemplo dos sistemas participativos de manejo de pesca. “Mais de 80% dos envolvidos com a pesca da piracatinga faz isso pouquíssimas vezes ao longo do ano, em épocas em que precisam de dinheiro e não tem outras escolhas”, afirma Diogo.

Nos últimos dois anos, em alguns setores da Reserva Mamirauá, foi observada a diminuição da ocorrência dessa atividade entre os pescadores. Acredita-se que esse declínio pode estar associado à introdução de outras atividades, principalmente de pesca manejada de pirarucu. Esse é o caso do Setor Aranapu, que fica no território do município de Maraã (650 Km a oeste de Manaus). Os estudos realizados pelo Instituto demonstraram que, entre 2012 e 2013, o número de pescadores de piracatinga no setor reduziu em 60%.

Desde 2012, esse setor desenvolve a pesca manejada de pirarucu com a assessoria do Instituto Mamirauá. Antes da implantação da pesca manejada, essa era uma região de grande ocorrência da pesca de piracatinga. As observações técnicas do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá demonstram que, no ano de 2013, 64 pescadores - entre homens e mulheres - foram beneficiados com as atividades de manejo no Setor Aranapu, com arrecadação de pouco mais de 200 mil reais.

Texto: Amanda Lelis

 

 

 

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