Espécie em foco: pesquisadora do Instituto Mamirauá faz perfil inédito do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta

Publicado em: 26 de abril de 2018

Tese de doutorado da primatóloga Fernanda Paim apresenta o estudo mais completo já realizado sobre o macaco-de-cheiro-da-cabeça-preta, com avaliação do habitat, da alimentação e da conservação da espécie

Presente em uma porção muito pequena da floresta amazônica, o macaco-de-cheiro-da-cabeça-preta (Saimiri vanzolinii) foi descoberto em 1985, mas passou décadas longe dos olhares de cientistas. Desde 2006, é objeto de estudo da primatóloga gaúcha Fernanda Paim, que defendeu, em agosto passado, sua tese de doutorado com uma avaliação detalhada da ecologia e da conservação da espécie, endêmica da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM).

Existem no mundo sete espécies conhecidas de macacos-de-cheiro, das quais seis vivem na Amazônia brasileira e áreas vizinhas – a sétima ocupa florestas da América Central. A RDSM abriga três macacos do grupo: S. cassiquiarenis, S. macrodon e S. vanzolinii. Embora as duas primeiras tenham ampla distribuição geográfica, toda a população de S. vanzolinii está concentrada em apenas 870km², na região sul e em duas ilhas da reserva. “É a única espécie do gênero com distribuição restrita a áreas alagáveis”, conta Paim.

A pesquisadora coletou amostras de mais de 6 mil árvores para fazer uma avaliação do habitat das três espécies, e verificou que S. cassiquiarenis e S. macrodon ocupam áreas bem parecidas da floresta, enquanto as regiões ocupadas por S. vanzolinii são diferenciadas. Segundo ela, os resultados sugerem que as áreas ocupadas pelo S. vanzolonii são mais ricas em diversidade de espécies de árvores. “Essa variedade, junto com a diversidade de alimentos, pode ser um importante motivo pelo qual a espécie ocupa uma área geográfica tão restrita”, sugere.

Como não há barreiras geográficas para a distribuição das três espécies – como rios muito largos, por exemplo –, há regiões em que os três tipos de macacos-de-cheiro têm contato, e já foram inclusive observados alguns grupos que misturam animais de diferentes espécies. Não foi encontrada, no entanto, nenhuma evidência de hibridação, isto é, de que esses animais estivessem se reproduzindo entre espécies, o que poderia representar uma ameaça a todas elas.

Alimentação e conservação

Outra pesquisa feita por Paim em seu doutorado avaliou a disponibilidade de alimentos para o macaco-de-cheiro-da-cabeça preta em diferentes épocas do ano. A espécie se alimenta principalmente de frutas, como o taperebá, e pequenos artrópodes, como aranhas e insetos. A pesquisa, realizada ao longo de dois anos, concluiu que a disponibilidade de frutas era maior nos períodos de cheias, quando os macacos tinham menos necessidade de se deslocar para conseguir alimento e consumiam mais frutas do que artrópodes.

Essa variação coincide com o comportamento reprodutivo da espécie. Na época seca, que inicia em outubro e marca um período com menor disponibilidade de alimentos, acontece a cópula. Os filhotes nascem de fevereiro a março, já na estação em que a floresta fica alagada. “É nessa época que há maior oferta de alimentos e que as fêmeas precisam estar bem fortes para amamentar”, conta Paim.

Por fim, a cientista realizou também um monitoramento da população de macacos-de-cheiro-da-cabeça preta ao longo de cinco anos, de 2009 a 2013. “Queríamos saber se a espécie continuava estável”, revela Paim. Para isso, observadores percorreram nove trilhas diferentes na floresta, anotando cada animal avistado. Os resultados mostraram que, embora tenham sido observadas reduções ou flutuações naturais no número de indivíduos, a população do S. vanzolinii manteve-se estável, em torno dos 150 mil macacos.

Tudo indica que a Reserva Mamirauá tem um papel importante na conservação da espécie, pois a protege de ameaças como a caça. Além disso, como a atividade ecoturística na região é controlada, não tem impacto negativo sobre as populações de macaco-de-cheiro.

Ainda assim, S. vanzolinii é considerado vulnerável à extinção, especialmente porque está restrito a uma região muito pequena – qualquer coisa que aconteça ali pode ameaçar sua sobrevivência. Atualmente, a principal ameaça ao macaco-de-cheiro-da-cabeça-preta são as mudanças climáticas, que podem alterar a dinâmica de chuvas na região, mudando a disponibilidade de alimentos nas áreas alagáveis. Por isso, é fundamental traçar um plano de conservação embasado por pesquisas como a de Paim.

O trabalho de doutorado, orientado por Adriano Pereira Paglia, foi desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais, com período sanduíche na Universidade McGill, no Canadá.

Texto: Catarina Chagas

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