Especialistas emitem nota técnica abordando potenciais impactos da covid-19 nos povos tradicionais da Amazônia Central

Publicado em: 21 de abril de 2020

 A publicação criada por quatro cientistas reúne as principais informações do novo coronavírus no Amazonas; comunidades tradicionais são as mais vulneráveis

O primeiro caso do novo coronavírus no estado do Amazonas foi confirmado pela Fundação de Vigilância em Saúde no dia 13 de março de 2020. Em 4 de maio o número de casos chegava a 7.242, dos quais 60% em Manaus (4.344) e 40% no interior do estado (2.898).

No intuito de auxiliar as áreas da saúde e apontar caminhos que possam ajudar no enfrentamento à doença, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), por meio da Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), lançou uma Chamada para Notas Técnicas. A ideia é de que pesquisadores e cientistas, nas diversas áreas do conhecimento, possam contribuir enviando seus artigos, estudos e produtos de pesquisa, durante o período da pandemia.

A nota técnica foi produzida em conjunto pelos pesquisadores do Instituto Mamirauá, organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) e encaminhada a Sedecti ainda em abril. O documento faz um apanhado de dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de autoridades sanitárias em nível regional e global.

Eles ressaltam que, apesar do risco de agravamento da covid-19 ser maior em idosos, eles representam apenas 12% dos casos no Amazonas, contra 42% em jovens adultos (20 a 39 anos) e 46% em adultos com idade entre 40 e 59 anos. Diferentemente do que muitos pensavam no início da pandemia, jovens também são impactados e podem morrer em decorrência do vírus, além de transmitirem a doença para outras pessoas, sobretudo àquelas em situação de maior risco.

O vírus da covid-19 (SARS-CoV-2) pode causar síndrome respiratória aguda grave (SRAG/SARS), sintomas de febre, tosse e dificuldade respiratória. Segundo o Boletim FVS/AM Nº 6, há no estado hoje uma taxa de incidência (novos casos) de 115,8 a cada 100 mil habitantes e letalidade de 7,9%. Dos casos confirmados, 20% precisaram de internação, 50% desses em Unidades de Terapia Intensiva (UTI).

Para os especialistas, é complexo estimar os potenciais impactos da covid-19 nas comunidades ribeirinhas da Amazônia Central. As medidas de isolamento domiciliar nas regiões rurais ribeirinhas levariam ao aumento da vulnerabilidade da população, com impactos no âmbito social, na saúde e na economia. Como agravantes estariam a concentração dos serviços especializados de saúde nos centros urbanos, as condições socioeconômicas dos grupos locais, a logística de acesso às comunidades, a dinâmica do ambiente de secas e cheias, e a necessidade de acessar serviços públicos e financeiros e o escoamento da produção pelo menos uma vez por mês.

Segundo os pesquisadores, não é possível pensar o isolamento a partir das unidades domiciliares, como recomendado para os centros urbanos. O isolamento social para essas populações somente seria viável a partir da unidade territorial de pertencimento do grupo, onde cada comunidade passaria a ser um núcleo de isolamento.

Para viabilizar os atendimentos primários emergenciais de saúde, incluindo casos suspeitos de covid-19, sem descumprir as medidas de distanciamento social, é necessária a implementação de uma rede de atendimento social. Recursos já disponíveis nas diferentes regiões da Amazônia, como Unidades Básicas de Saúde (UBS) em comunidades-polo, UBS fluviais presentes na região, telemedicina e internet (4G e via satélite) poderiam ser empregados para tal. Essa rede de atendimento também necessitaria incluir o acesso à alimentos e produtos básicos para higiene pessoal.

Outra necessidade fundamental, segundo os pesquisadores é o acesso à água limpa, tanto para higiene pessoal como para ingestão e preparo de alimentos nas comunidades ribeirinhas, e investir em alternativas simples como captação de água da chuva.

Edu Coelho
O principal meio de transporte são os rios, com embarcações a motor. (Foto: André Dib)
A infraestrutura social disponível nessas localidades também deve ser observada, por se tratarem de populações com acesso deficitário à água potável. (Foto: Edu Coelho)
A primeira ação tomada pelo governo amazonense para Unidades de Conservação Estaduais, visando as RDS Mamirauá e Amanã, foi a suspensão, em março de 2020, por prazo indeterminado, das visitas de turismo e pesquisas na região. (Foto: André Dib)

Coronavírus nas comunidades da Amazônia Central

Na Amazônia, o período chuvoso, que ocorre de novembro a abril, já está associado à problemas respiratórios resultantes de infecções virais e ao consequente aumento das internações hospitalares. Para o grupo de pesquisadores, as recomendações de isolamento direcionadas às comunidades tradicionais da Amazônia precisam considerar também as suas dinâmicas sociais de deslocamento. O principal meio de transporte são os rios, com embarcações a motor.

“As populações dessas regiões se conectam frequentemente com outras comunidades e cidades. Esse comportamento é preocupante num momento de epidemia global, já que a circulação entre cidades é uma das formas mais fáceis de propagação do vírus”, afirma a nota.

Na região do Médio Solimões, Amazônia Central, as reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã são territórios protegidos e também estão inseridos no contexto de isolamento social. São aproximadamente 16 mil pessoas vivendo em mais de três mil domicílios distribuídos em 337 pequenos grupos populacionais, uma média de 10 domicílios em cada. Com poucos cômodos nas residências, geralmente o mesmo dormitório costuma ser compartilhado entre todos os moradores. Em 21% dos domicílios as famílias agregam os pais, os filhos casados com seus filhos e/ou outros parentes, podendo habitar em um único domicílio mais de três gerações.

A região da RDS Mamirauá apresenta prevalência de problemas de saúde na população local, como problemas gastrointestinais (49%), pressão alta (24%) e doenças respiratórias (14%). Alguns desses problemas aumentam a vulnerabilidade à covid-19.

Como forma de prevenção, a primeira ação tomada pelo governo amazonense para Unidades de Conservação Estaduais, visando as RDS Mamirauá e Amanã, foi a suspensão, em março de 2020, por prazo indeterminado, das visitas de turismo e pesquisas na região.

“Não está permitida a entrada de ninguém, além dos moradores, de forma que o turismo está parado. Mas ainda que estivesse acontecendo, o setor já foi, está e continuará sendo bastante impactado. Os voos vindos do exterior foram cancelados e os domésticos diminuíram bastante. Ou seja, de toda forma, o fluxo de pessoas diminuiu. Isso tudo impacta fortemente nas receitas da Pousada Uacari, afetando também as pessoas que trabalham lá, pois a maioria é diarista e, sem turismo, não há diária”, afirma Pedro Nassar, coordenador do Programa de Turismo de Base Comunitária.

Apesar da suspensão das atividades de pesquisa e do turismo na região, a ação não impede a saída e retorno dos moradores diariamente para diversos fins. A população rural não vive isolada, mantendo uma interação constante com as cidades e outros grupos. Um terço dos domicílios localizados nestas áreas mantém uma dinâmica de deslocamento para os centros urbanos de uma a duas vezes por mês.

“Os destinos mais frequentes são os municípios de Fonte Boa e Tefé. Alguns domicílios (6%) inclusive mantém uma dinâmica de relação com mais de um centro urbano, potencializando o contágio e a propagação da covid-19. O deslocamento de pessoas também é comum para o acesso à educação e atendimento de saúde”, destaca o documento.

Os especialistas defendem que, em um cenário hipotético de contaminação de 10% da população das duas reservas (e segundo dados da FVS/AM), cerca de 245 pessoas precisariam de internação hospitalar.

Recomendações da OMS 

A Organização Mundial da Saúde destaca que a melhor maneira de prevenir e desacelerar a transmissão é estar bem informado sobre o vírus, a doença que ele causa e como ela se espalha. Proteger-se e a outros de infecções lavando as mãos com frequência e não tocar no rosto ainda são as formas mais eficazes de combater o novo coronavírus.

O vírus SARS-CoV-2 se espalha principalmente por gotículas de saliva ou secreção nasal quando uma pessoa infectada tosse ou espirra. Por isso, é importante praticar a etiqueta respiratória, por exemplo, tossindo no cotovelo flexionado. “Ao assumir estas orientações, é possível evitar o aumento no número de novos casos e reduzir (“achatar”) a curva de internações hospitalares”, enfatiza Maria Cecília Rosinski Lima Gomes, pesquisadora e uma das autoras da nota técnica do Instituto Mamirauá.

Um dos fatores que foram observados na análise dos especialistas é a limitada conexão virtual das comunidades indígenas e ribeirinhas, como telefone e internet. Este fator força a maior relação direta entre as pessoas. Por essa razão, as medidas de prevenção são de suma importância para evitar a chegada do vírus nas comunidades.

Além do isolamento, a principal medida recomendada pela Organização Mundial de Saúde é a higiene. O ato de lavar as mãos com sabão e água é uma ação simples e efetiva para reduzir o contágio com a doença. Entretanto, deve-se utilizar água também tratada para maior eficácia. Para a limpeza de superfícies são recomendados o uso de álcool 70% (60-90%) ou água com hipoclorito 0,5%.

A realidade local deve ser observada  

A publicação explica que ainda não foram reportados casos de transmissão por água potável, devido ao vírus ser suscetível à oxidantes usados comumente na desinfecção de água, como o cloro ou a luz UV, assim como a maior parte dos vírus de transmissão feco-oral. Por outro lado, o vírus SARS-CoV-2 pode sobreviver por mais de um dia em águas não tratadas. A sobrevivência do vírus em superfícies é variável, podendo durar dias.

Em locais onde não ocorrem sistemas centralizados de tratamento de água, como o caso das comunidades ribeirinhas, a recomendação é o tratamento residencial da água com métodos que possam destruir o vírus, como o cloro, radiação solar ou com fervura da água. No caso do uso de cloro (como o hipoclorito de sódio em gotas), uma quantidade residual deve permanecer na água armazenada para evitar a recontaminação.

A infraestrutura social disponível nessas localidades também deve ser observada, por se tratarem de populações com acesso deficitário à água potável, a maior parte destas pessoas não possui água encanada em casa. O tratamento das águas ocorre de forma residencial, com filtragem em panos simples. O cloro, apesar de reconhecido e recomendado, nem sempre é adequadamente utilizado pelos comunitários.

Essas populações sofrem com problemas relacionados ao saneamento e higiene. Com a limitação da disponibilidade de água, a higiene das mãos com água limpa e corrente não é uma prática comum. O uso de álcool para a assepsia pessoal ou de objetos não faz parte da realidade regional. Os sanitários disponíveis nos domicílios são geralmente fossas negras, sem tratamento de esgoto seguro. Mesmo escolas locais não possuem infraestruturas adequadas para prover água e soluções de saneamento e de higiene (como disponibilidade de sabonete) para os alunos.

Comunidade informada

Campanhas de prevenção do contágio são constantemente incentivadas e relembradas às populações ribeirinhas da Amazônia. A ação já está sendo propagada no programa de rádio “Ligado no Mamirauá”, pelas redes sociais por meio de cartilhas, infográficos e vídeos. O Ligado no Mamirauá informa e atualiza as populações das RDS Mamirauá e Amanã sobre as recomendações das autoridades sanitárias e sobre informações públicas relacionadas à crise.

O Instituto Mamirauá também faz parte do Comitê de Enfrentamento e Combate à covid-19 do Município de Tefé, Amazonas, composto pelo poder municipal e por outras instituições locais.

Confira a nota técnica completa:  “Os Potenciais Impactos da Pandemia do Covid-19 nas Comunidades Ribeirinhas da Amazônia Central e as Soluções Recomendadas para Mitigação”

Texto: Augusto Gomes

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