Um encontro de cientistas cidadãos

Publicado em:  4 de abril de 2019

Aconteceu em Tefé o Encontro Ciência Cidadã, evento promovido pelo projeto de mesmo nome com o objetivo de incentivar cidadãos a elaborarem trabalhos que utilizarão a ciência como ferramenta de implementação de melhorias nas comunidades. Cerca de 80 participantes de comunidades das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, Manaus e de outros estados como Pará e Rondônia participaram das atividades, que aconteceram nos dias 3 e 4 de abril. 

Os grupos trabalharam durante o ano de 2018 e 2019 com sócios que fazem parte do projeto Ciência Cidadã para a Amazônia. Os participantes tiveram conheceram ferramentas como o aplicativo de celular Ictio, para registro de pesca, e o AguaKit, sistemas de monitoramento de água instalados pelo projeto. Também discutiram sobre auto monitoramento, pesca e comportamento dos peixes.  

Depois de um ano de intenso trabalho, chegou a hora do encontro para troca de experiências. "O encontro é uma oportunidade incrível dos grupos conhecerem o que cada um desenvolveu por meio das ferramentas disponibilizadas pelo projeto. Estamos trabalhando em escala de Bacia Amazônica, e só conseguimos fazer isso juntos. Por isso o trabalho de cada cientista cidadão é importante e nada melhor do que compartilhar essa experiência", avalia Vanessa Eyng, analista de pesquisa do Instituto Mamirauá, organizador do evento. 

Feira de Ideias

Cada grupo de cientistas cidadãos pôde contar um pouco sobre o trabalho que desenvolveu. Dois representantes do baixo Rio Negro, que pescam principalmente o jaraqui, vieram participar do encontro. Raimundo de Souza é morador da comunidade Bela Vista do Jaraqui, no baixo rio Negro. “A pesca do jaraqui é a mais importante para nós, e alavanca a economia da nossa comunidade. Temos o período do jaraqui gordo, que é agora a partir de abril, e em novembro temos o período do jaraqui de subida, quando ele está ovado”, ressalta Raimundo. 

Pescador experiente, a parte mais positiva do encontro foi a possibilidade de interagir com pescadores de outros locais. “Tudo nos traz coisas novas e coisas boas. Podemos colocar em prática coisas que a gente não conhecia. Espero que o pessoal não pare de fazer essa prática do aplicativo, que pode nos trazer informações importantes para as futuras gerações”, completa Raimundo. 

Não foi só o ‘seu’ Raimundo que gostou da interação entre os presentes. Dalvan Peres, aluno do Centro Vocacional Tecnológico do Instituto Mamirauá, aproveitou o encontro para ter mais ideias e poder trabalhar também em sua comunidade: “Eu estou achando o encontro bem maravilhoso. Eu fiquei encantado ao saber das histórias dos nossos visitantes de Rondônia e de Santarém, e dos colegas aqui da região do nosso Amazonas.  Isso me estimula a levar o aplicativo para a minha comunidade, Nogueira. Tem pessoas interessadas no Ictio (aplicativo desenvolvido pelo projeto) e essa é uma oportunidade de trabalhar a sensibilização para questões ligadas ao meio ambiente”. 

Olhar para o futuro

Além da possibilidade de avaliar e conversar sobre o trabalho que já foi feito, o encontro também foi uma oportunidade de discutir o que os grupos pretendem continuar fazendo e quais são suas expectativas em relação ao uso das ferramentas. A expectativa geral é que o uso do aplicativo Ictio continue. 

Em grupo, as principais ações a serem desenvolvidas estavam ligadas a temas como a valorização do trabalho da pesca, envolvimento de mais usuários e comunidades, melhorias nas tecnologias disponibilizadas, desenvolvimento do trabalho em conjunto, uso e inserção das ferramentas no dia a dia das pessoas.  

Perpassando todos os temas, o envolvimento de jovens em questões de gestão tem muito potencial. Dailon Alves, morador da aldeia Solimões, próxima a Santarém, é professor e sabe bem disso. Em sua aldeia, que fica nas margens do rio Tapajós, o trabalho com o Ictio foi desenvolvido dentro da escola. “Nós trabalhos com alunos de 13 a 14 anos para começar a fazer o monitoramento dos peixes. E por meio desse trabalho a gente começou a conhecer melhor os peixes da nossa região, de onde que eles vêm e param onde eles vão no seu processo migratório. Foi muito importante incluir os jovens, que muitas vezes não são ouvidos em suas comunidades. Com isso, também envolvemos os professores, os pais e as lideranças”. 

Junto com os cientistas cidadãos, também estiveram presentes representantes de instituições envolvidas em gestão de áreas protegidas, como a Associação de Moradores e Usuários das Reserva Mamirauá (Amurmam), Central das Associações dos Moradores e Usuários da Reserva Amanã (Camura), Departamento Estadual de Mudanças Climáticas e Gestão de Unidades de Conservação (Sema/Demuc) e Instituto Chico Mendes de Conservação dos Recursos Naturais (ICMBio), e sócios do projeto Ciência Cidadã para a Amazônia, como a World Conservation Society Brasil, Ecoporé e Sapopema. 



Vanessa Eyng
Vanessa Eyng

O projeto Ciência Cidadã para a Amazônia

O projeto Ciência Cidadã para a Amazônia é resultado do trabalho associado da Wildlife Conservation Society (WCS) em parceria com Cornell Lab of Ornithology, Florida International University, Conservify, Instituto Mamirauá, Instituto del Bien Común, San Diego Zoo Global, Fab Lab Perú, Ecoporé, Sapopema, Universidad San Francisco of Quito, Rainforest Expeditions, Fundação Universidade Federal de Rondônia, Institut de Recherche pour le Développement, Universidad de Ingeniería y Tecnología, Instituto Sinchi, ACEER, CINCIA, ProNaturaleza, Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana, Institute for Global Environmental Strategies, Earth Innovation Institute, FAUNAGUA, e Fundación Omacha.

O projeto também é colaborador de redes como a Iniciativa Águas Amazônicas, o Projeto Amazon Fish, Rios Vivos Andinos, Amazon Dams Network e International Rivers. O projeto é possível graças ao apoio da Fundação Gordon e Betty Moore.

Texto: Vanessa Eyng

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