Em vinte anos de monitoramento populacional, mais de 7 mil iaçás são avaliadas

Publicado em: 22 de de 2015

O início da vazante na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (AM) indica o período de migração de algumas espécies de tartarugas aquáticas amazônicas. Nessa época, as iaçás (Podocnemis sextuberculata) deixam as florestas alagadas em direção aos rios, onde começam a aparecer as praias de desova. Esse início da temporada reprodutiva dos quelônios é também o momento em que as equipes de pesquisa do Instituto Mamirauá se debruçam nos trabalhos de monitoramento populacional da espécie.

Nos vinte anos de monitoramento realizado pela equipe do Instituto Mamirauá - unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação -, já foram capturados 7.121 indivíduos na região. Desse total, 274 foram recapturas. Nesse número, já constam os dados da amostragem deste ano. Na última expedição, em agosto deste ano, foram capturados 112 animais, sendo 20 fêmeas, 88 machos e 4 juvenis. Esses dados refletem o número de animais capturados e avaliados pela equipe do Instituto, que estão sendo analisados pela equipe para chegar aos resultados de estimativa e viabilidade populacional.

A pesquisadora do Instituto, Ana Júlia Lenz, assegura que os estudos a longo prazo são importantes por registrarem uma série histórica de dados sobre os animais, contribuindo para a compreensão de importantes aspectos da ecologia e biologia dessa espécie.

Durante cerca de 15 dias, a equipe formada por pesquisadoras e assistentes de campo esteve embarcada para amostragem em cinco pontos da reserva, nos rios Solimões e Japurá, e no canal do Aranapu. O monitoramento iniciou no dia 17 de agosto, e é feito anualmente a partir da captura dos animais durante o período de vazante.

São instaladas redes de pesca, conhecidas na região como malhadeiras, que permanecem no mesmo ponto por 48h. As redes são revisadas pela equipe de três em três horas. Os animais capturados são medidos, pesados, marcados e soltos no mesmo local. Além disso, é feita também uma análise superficial da saúde dos animais, com o registro da presença de parasitas.

De acordo com a pesquisadora, o alto índice de captura de machos pode indicar a grande pressão sobre a espécie.  “As fêmeas sobem na praia para desova, então são muito caçadas. Uma das hipóteses é que o baixo número de capturas de fêmeas pode ser em função da caça. Mas também pode ser que a razão sexual da espécie seja assim, que nascem mais machos que fêmeas. São necessários mais estudos para avaliar estas hipóteses”, comentou.

Na Amazônia, algumas espécies de quelônios são muito apreciadas como alimentação e, por isso, possuem valor comercial, embora a atividade seja proibida por lei. A iaçá é assinalada como vulnerável na lista vermelha das espécies ameaçadas da International Union for Conservation of Nature (IUCN). No entanto, ainda há lacunas no conhecimento sobre alguns aspectos da biologia do animal.

A pesquisadora ressalta que as recapturas contribuem para inferir sobre a movimentação e o crescimento dos indivíduos.  “Além disso, podemos afirmar que o local onde eles foram marcados e depois recapturados é um habitat muito importante para a espécie, onde eles encontram recurso alimentar abundante, demonstrando a importância da conservação dessas áreas”, reforçou Ana.

Neste ano, três machos foram recapturados. Um deles teve sua primeira captura pela equipe em 2011, quando media 18,7cm e pesava 770g. Na segunda captura, o animal apresentou crescimento de um centímetro. O outro macho foi capturado pela primeira vez em 2012, quando media 16,6cm e pesava 640g. Esse apresentou crescimento de cerca de quatro centímetros e apresentou aumento de 130 gramas. O último animal recapturado neste ano teve seu primeiro registro em 2014, quando media 17,6cm e pesava 600g. Atualmente, o animal está com 19,2cm e 765g. Os três indivíduos foram recapturados no mesmo local em que foram capturados na primeira vez, o lago Jutaí. “A gente observa que esse lago é muito importante para eles, porque tanto tempo depois eles acabam voltando para lá. Provavelmente, eles se deslocam para alguma área de reprodução no rio, mas acabam voltando para o lago”, comentou Ana Júlia.

Texto: Amanda Lelis

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