Em Simpósio, Instituto Mamirauá apresenta resultado do uso de máquinas de gelo na Amazônia

Publicado em: 30 de junho de 2016

Depois de dez meses de monitoramento, o Projeto Gelo Solar já apresenta resultados. Entre eles, está a construção social da tecnologia implantada, a partir da interação da comunidade que recebeu o projeto. Este trabalho está entre as pesquisas expostas no Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon), na 13ª edição do evento realizado pelo Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Durante quatro dias, o evento reúne especialistas, na sede do Instituto em Tefé (AM), para a exposição de resultados de pesquisas realizadas na Amazônia. Serão 76 trabalhos expostos, além de minicursos, palestras e debate. O Simcon pode ser acompanhado pelo link de transmissão ao vivo:  www.mamiraua.org.br/web.

A exposição sobre o Projeto Gelo Solar será feita pela pesquisadora do Instituto Mamirauá, Iaci Penteado. Desde a implantação da tecnologia social na comunidade Vila Nova do Amanã, localizada na Reserva Amanã (AM), a pesquisadora produziu dados sobre o funcionamento das máquinas, rendimento da produção de gelo, uso e gestão pelos comunitários, entre outros. Durante esse período foi realizado o monitoramento por meio da observação participante, com a pesquisadora vivendo o dia a dia da comunidade e acompanhando localmente a utilização da tecnologia e dos benefícios gerados por ela.

“Buscar se aproximar do olhar local é fundamental para entender como as pessoas se engajam na operação e manutenção das tecnologias sociais, garantindo que essas intervenções vão durar a longo prazo. E permite ver o que de fato é um benefício para as pessoas, que pode não ser aquilo que planejadores em escritório acharam que seria importante, mas sim o que os beneficiados de fato valorizam”, comentou a pesquisadora.

A pesquisa utilizou a teoria Ator-Rede, uma abordagem dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia. Entre outras coisas, a teoria destaca o construtivismo social da tecnologia. O que significa dizer que a tecnologia, ou os artefatos e ferramentas que nós utilizamos, são produtos das relações sociais, fruto de interações entre todos os atores envolvidos direta ou indiretamente. No caso do Projeto Gelo Solar, alguns dos atores seriam: o Instituto Mamirauá, que implementou o projeto; a USP, que desenvolveu a tecnologia; a empresa Google, que financiou a iniciativa; a comunidade, que faz uso da tecnologia; entre uma diversidade de outros atores que fazem parte dessa “rede sociotécnica”, como é chamada pelos pesquisadores.

Iaci destaca que monitorar a interação entre os usuários e as máquinas contribui para a compreensão do valor atribuído por eles à tecnologia e como isso pode determinar sua eficiência. “Assim, conseguimos perceber que não existe uma tecnologia pronta, fechada, com um intuito pré-determinado. Ela está aberta à interação com o usuário, à manipulação, à valoração, à significação. É através do uso que a tecnologia ganha sentido e que sua eficiência será produzida”, reforçou.

Com esse relacionamento, os artefatos assumem o papel de agentes transformadores da realidade, afirmou a pesquisadora. “Tecnologias, então, não são apenas peças mutáveis, mas agentes da rede onde se inserem, atores que promovem transformação. Com essa abordagem queremos chamar a atenção de que a transformação concreta que as tecnologias sociais promovem reverbera nas relações interpessoais”, disse.

Uma das curiosidades já obtida como resultado das análises é que a comunidade costuma abastecer os recipientes de gelo das máquinas com mais água do que o orientado inicialmente para a produção de gelo, objetivando a sobra de água gelada para consumo. O que pode até parecer algo comum e simples, como beber um copo de água gelada em dias quentes, não fazia parte da rotina dos moradores dessa comunidade, em função da precariedade do acesso à energia elétrica por essas comunidades isoladas da Amazônia.

Essa ação demonstrou a adaptação da tecnologia pela comunidade, para atender a uma demanda recorrente entre as famílias, e também o valor dado à água gelada para consumo, algumas vezes até superior à produção de gelo. A pesquisadora enfatiza que toda tecnologia é incorporada e moldada pelas relações sociais que se estabelecem em torno dela, ao mesmo tempo em que a tecnologia também transforma essas relações. “É uma via de mão dupla. Olhar para a reaplicação de tecnologias sociais dessa forma transforma as próprias questões que poderíamos colocar para o campo. Não se trata de pensar apenas em como desenvolver artefatos produtivos, mas em como apoiar um processo de desenvolvimento tecnológico que esteja aberto à interação com o usuário, em um processo mais horizontal de produção de soluções”, completou.

Essa análise, de acordo com a pesquisadora, contribui para a desconstrução do discurso que coloca o técnico e o social em diferentes frentes, agindo separadamente. Os resultados demonstraram que o monitoramento de tecnologias sociais precisam ser sociotécnicos, produzindo simultaneamente conhecimento sobre, por exemplo, a eficiência das máquinas, as possíveis adaptações ou manutenções que possam ser necessárias ao equipamento, e também sobre como o gelo está sendo utilizado pelas famílias, as alterações na alimentação ou na divisão do trabalho, a organização comunitária para a divisão das tarefas, entre outros.

O projeto

O projeto “Gelo Solar: tecnologia para conservação de alimentos em comunidades isoladas da Amazônia” é desenvolvido pelo Instituto Mamirauá e a Universidade de São Paulo (USP). A iniciativa foi contemplada por sua importância e relevância social, com uma premiação do Desafio de Impacto Social Google | Brasil de 2014.

As máquinas foram instaladas em agosto de 2015 na comunidade. Mas a pesquisa para adequação da tecnologia iniciou bem antes, nos laboratórios do Instituto de Energia e Ambiente da USP. São quatro máquinas refrigeradoras, ligadas a um sistema solar fotovoltaico para a geração de energia, que leva à produção de pedras de gelo. O diferencial é que a tecnologia não possui baterias, o que a torna mais acessível financeiramente e menos impactante ambientalmente. Três máquinas foram implantadas na comunidade, e uma foi instalada e está sendo monitorada na Pousada Flutuante Uacari. Simultaneamente, foi instalado um sistema de captação de água da chuva na comunidade, para que o gelo seja produzido com água adequada ao consumo.

A pesquisa também conta com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para o pagamento de bolsas. Veja a programação completa do Simpósio em www.mamiraua.org.br/simposio.

Texto: Amanda Lelis

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