Em evento internacional, foi apresentada tecnologia social desenvolvida pelo Instituto Mamirauá

Publicado em:  9 de dezembro de 2016

No último mês, os resultados de pesquisa do Instituto Mamirauá foram apresentados em evento na Universidade de Trento, na Itália. O encontro reuniu pesquisadores para a 6ª Conferência de Science and Technology Studies – Sociotechnical Environments. A pesquisadora do Instituto Mamirauá, Iaci Penteado, apresentou os dados da observação participante realizada em 2016 em comunidades ribeirinhas das Reservas Mamirauá e Amanã, que gerenciam os sistemas de bombeamento de água movidos a energia solar fotovoltaica, instalados nessas localidades. 

A pesquisa é realizada no Grupo de Pesquisa Populações Ribeirinhas, modos de vida e políticas públicas na Amazônia e é uma forma de monitorar o uso e gestão da tecnologia social implementada pelo Instituto Mamirauá nas comunidades ribeirinhas. “Entender a forma como as comunidades interagem com a tecnologia, como a valorizam, como a manipulam, tudo isso tem se mostrado cada vez mais importante para a gente conseguir que esse benefício promovido pela intervenção se mantenha a longo prazo. Principalmente do ponto de vista da motivação da comunidade para cuidar daquilo”, contou Iaci.

A pesquisadora relata que a tecnologia é um produto das relações sociais, ao mesmo tempo que produz essas relações. “Percebemos que a forma como os moradores das comunidades interagem com as tecnologias é muito determinante para o resultado que chamamos de eficiência da tecnologia. Se deixam as torneiras abertas ou não, se fazem a manutenção de canos quebrados ou não, se ajustam os canos que ligam a bomba à beira rio à caixa d água. São todas formas de interação dos comunitários com o sistema, que determinam se ele irá atender à demanda de abastecimento ou não”, disse.

A pesquisa também avalia a forma de organização da comunidade para o gerenciamento do sistema e como essa nova tecnologia interfere na rotina das famílias. “As comunidades têm uma forma de organização para dar conta de decisões que afetam o coletivo. Mas, quando se introduz uma tecnologia, isso significa levar um elemento novo, algo que gera estranhamento, e que demanda uma nova organização, um novo acordo sobre como dividir os benefícios e as responsabilidades que aquilo implica”, disse Iaci. De acordo com ela, as comunidades desenvolveram estratégias de gestão que variam de acordo com o contexto de cada localidade. Cuidados como ligar e desligar a bomba, a manutenção e limpeza da balsa com as placas fotovoltaicas e da caixa d’água comunitária fazem parte das tarefas compartilhadas pelas famílias.

Iaci pontua que apresentar os resultados obtidos no Instituto possibilita discutir com outros especialistas e instituições desafios encontrados durante a realização do estudo. “O evento foi uma oportunidade de nos atualizar sobre como está o campo dos estudos sociais de Ciência e Tecnologia no mundo. Encontramos lá uma variedade enorme de pesquisas e de temas com interfaces com o que fazemos aqui, especialmente na linha das Tecnologias Sociais”, completou Iaci.

Psicologia rural

Em outubro, a pesquisadora também participou do II Congresso Latino-americano de Psicologia Rural, realizado em Seropédica, no Rio de Janeiro. No evento, foi apresentado o resultado de uma etapa de pesquisa realizada no Instituto Mamirauá por Amanda Pacifico, um diagnóstico dos sistemas de abastecimento de água, alimentados por energia solar fotovoltaica. Ambas as pesquisas contam com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o pagamento de bolsas de estudos.

“A participação no congresso nos mostrou que muitos profissionais da Psicologia estão, cada vez mais, se debruçando sobre o contexto rural, e foi muito inspirador ver como essa abordagem tem muito a contribuir com o nosso campo de atuação aqui no Instituto Mamirauá. No caso específico da mensuração de impactos de um projeto de implementação de tecnologia social, fica a certeza de que não podemos nos restringir a dimensões convencionais, precisando considerar também a perceptiva local e a possiblidade de serem afetadas as relações interpessoais e a própria subjetividade”, contou a pesquisadora.

De acordo com Iaci, foi apresentada a percepção dos usuários das tecnologias, a partir de oficinas participativas com os comunitários da RDS Amanã, que abordam as mudanças que eles sentiram a partir da instalação dos sistemas de água em suas comunidades. “As respostas realmente nos deram outro olhar sobre a valorização comunitária da tecnologia, especialmente quando começamos a perceber que tinham algumas mudanças que não se referiam à saúde ou renda, duas dimensões de impacto normalmente abordadas quando falamos de uma tecnologia de saneamento. Percebemos que algumas das falas se referiam às mudanças nas relações familiares, sensações de bem-estar e até mudanças na autoimagem”, completou a pesquisadora.

Assista ao vídeo produzido pelo Greenpeace sobre a iniciativa:

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