Em dia de festa, seis peixes-boi reabilitados são devolvidos à natureza na Amazônia

Publicado em: 12 de Janeiro de 2015

Eram cinco da manhã quando a equipe do Instituto Mamirauá iniciou o trabalho, no domingo de sol e chuva, 11 de janeiro. Equipamentos e materiais postos na voadeira rumo ao Centro de Reabilitação de Peixe-Boi Amazônico de Base Comunitária, o Centrinho. A missão: devolver à natureza seis peixes-boi amazônicos que estavam em processo de reabilitação. Os animais foram soltos no Lago Arati, em frente à comunidade Vila Nova do Amanã, Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, município de Maraã (AM).
 
De acordo com Miriam Marmontel, pesquisadora do Instituto Mamirauá, a ideia do Centrinho é reabilitar esses animais no menor tempo possível, período em que eles permaneceriam com a mãe, sendo amamentados e aprendendo uma série de coisas, como o deslocamento por rotas migratórias. "Uma vez que os animais já ganharam peso, comprimento e estão saudáveis, nós soltamos em ambiente natural para que eles se reintegrem com a população nativa. Assim eles  deixam de ser cativos e passam a contribuir para geração de novos filhotes. No cativeiro, só salvamos indivíduos. Na natureza eles contribuem com a população em geral", enfatiza.
 
Na sexta-feira, dia 9, foi adaptado à cauda um cinto equipado com transmissor de sinais de rádio. Os animais foram deslocados de voadeira, do Centrinho até o Lago Arati, acompanhados da equipe de especialistas do Instituto Mamirauá. Para que o desgaste fosse menor durante o translado, que durou cerca de 30 minutos, os peixes-boi foram molhados constantemente e cobertos com uma toalha úmida. Esse cuidado contribuiu para manter a pele do animal hidratada e conservar sua temperatura corporal estável. Além disso, os veterinários monitoravam a respiração dos peixes-boi durante o trajeto. Foram três viagens até que os seis peixes-boi fossem soltos no lago. 
 
No Centrinho, os animais foram acompanhados por uma equipe formada por veterinários, biólogos, educadores ambientais e técnicos, além dos comunitários que também participam e contribuem para os cuidados. Desde a chegada no Centrinho, é acompanhado o estado clínico dos animais e verificada a necessidade de cuidados especiais, no caso de ferimentos, desidratação ou doenças. Com a soltura desses seis peixes-boi ao ambiente natural, o Centrinho passa a cuidar de apenas dois filhotes fêmeas. O “Centrinho” é um criatório conservacionista autorizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama) desde 2008. 
 
Dia de festa
Comunitários da Reserva Amanã participaram da soltura. Durante o dia foram realizadas atividades nas comunidades Vila Nova do Amanã e Boa Esperança, com participação dos moradores dessas e outras comunidades da reserva. O Instituto organizou concursos de poesia e desenho sobre a soltura dos animais com as escolas das comunidades. O anúncio dos primeiros lugares foi feito durante a celebração e os autores dos melhores trabalhos receberam um peixe-boi de pelúcia. “O envolvimento comunitário tanto na reabilitação dos animais, quanto no monitoramento depois que eles são soltos, tem permitido que a caça comece a diminuir e que as pessoas adquiram uma apreciação pela espécie”, reforça Miriam.
 
“Estamos trabalhando para ter nossa área mais preservada, mais cuidada. Meu pai era caçador de peixe-boi, foi criado naquele costume. Não teve informação como a gente, uma formação para entender que se não cuidar, pode ficar pior. Hoje a gente tem consciência que no futuro a conservação vai ter um impacto muito grande na continuidade do nosso trabalho”, disse Josué Tavares Moraes, da comunidade Boa Esperança.
 
Monitoramento
Esse foi o terceiro evento de soltura de peixes-boi amazônicos reabilitados, realizado pelo Instituto Mamirauá. O último aconteceu em agosto de 2012. Na época, cinco peixes-boi foram devolvidos à natureza, sendo que quatro deles foram adaptados com cintos com radiotransmissores. Foram acompanhados durante cinco meses, até a perda de sinal do último peixe-boi monitorado. 
 
A radiotelemetria tem-se mostrado uma importante ferramenta conservacionista, auxiliando na gestão e planejamento de unidades de conservação e também na elaboração de Planos de Ação Nacionais para a Conservação de Espécies Ameaçadas, por possibilitar estudos de uso de hábitat, velocidade de deslocamento, rotas migratórias e outros aspectos do comportamento das espécies em vida livre.
 
Após a soltura, os animais continuam sendo monitorados pelos pesquisadores em ambiente natural. “Com o monitoramento, vamos gerar uma série de informações sobre a espécie, que é pouco conhecida e que é considerada vulnerável à extinção e vamos observar o grau de sucesso desses animais de volta ao ambiente natural”, reforça Miriam.
 
 
Texto: Amanda Lelis
 

Últimas Notícias

Comentários

Receba as novidade em seu e-mail: