Em comunidades tradicionais, pesquisadores analisam produtividade de andiroba

Publicado em: 11 de maio de 2016

Conhecido pelos seus benefícios medicinais, o óleo de andiroba e é comumente utilizado no Brasil e, especialmente, no Amazonas, estado onde há abundância desse recurso.  Mas, no uso cotidiano, poucas pessoas têm conhecimento sobre o trabalho para extração do óleo e sobre a produtividade das árvores nas extensas florestas amazônicas. Buscando compreender alguns desses aspectos, o Grupo de Pesquisa em Ecologia Florestal e a equipe do Programa de Manejo Florestal Comunitário do Instituto Mamirauá realizam pesquisa científica nas Reservas Amanã e Mamirauá.

A pesquisa com andiroba entrou na sua segunda fase, para avaliação da produtividade desementes por árvore. Na primeira etapa, foram inventariadas e marcadas as andirobeiras localizadas em áreas indicadas pelos moradores de comunidades tradicionais das Reservas. Entre essas, foram escolhidas 12 para instalação de redes para a  coleta das sementes. As redes foram instaladas abaixo da copa dessas árvores, para reter as sementes que caírem. A estratégia de coleta foi desenvolvida como uma alternativa para o período da cheia, em que as sementes se dispersam pela área de alagação.

A engenheira florestal e pesquisadora do Instituto Mamirauá, Emanuelle Pinto, ressalta que será seguida uma mesma metodologia para a coleta das sementes nos períodos da seca e da cheia. Foram instaladas redes com 30m², abaixo da copa das árvores. O monitoramento e coleta das sementes já iniciou e será feito quinzenalmente, entre janeiro e agosto deste ano, período de frutificação da espécie na região. Durante a instalação das redes, também foi coletado material botânico fértil, ou seja, amostras com flor ou fruto das árvores, para identificação da espécie em laboratório. Emanuelle cita que, “na literarura, há conhecimento sobre a ocorrência de três espécies de andiroba na região da Amazônia”.

O inventário foi realizado durante a última temporada de seca, em 2015. Na Reserva Amanã, foram inventariadas áreas em quatro comunidades e, na Reserva Mamirauá, áreas de duas comunidades. Emanuelle destaca que foram escolhidas áreas de acordo com o potencial produtivo, considerando o tamanho das áreas e a quantidade de árvores, e também o envolvimento e o conhecimento da atividade pelos moradores da comunidade.

A extração do óleo de andiroba não é uma tarefa fácil. Exige muito esforço e leva dias para se obter um bom resultado. Em conjunto com a equipe do Programa Qualidade de Vida, também do Instituto Mamirauá, será desenvolvida uma máquina para extração do óleo de andiroba, visando apresentar uma tecnologia eficiente e que poupe tempo e energia para a realização da atividade pelos comunitários.

“Existem vários tipos de máquinas de prensagem no mercado, mas, o que a gente está tentando fazer é uma máquina que seja viável e de fácil replicação, para as comunidades que têm interesse. Por isso, não vai ser uma usina ou uma grande máquina. Nossa ideia é fazer algo que seja acessível, mesmo que em pequena escala”, reforçou a pesquisadora.

De acordo com Emanuelle, a equipe está estudando outras inciativas, visando desenvolver ou adaptar uma tecnologia que será utilizada para secagem, trituração e prensagem da semente, para extração do óleo. “Essa vai ser uma experimentação que a gente vai testar no Instituto durante este ano. Para que, no ano que vem, a gente consiga instalar uma máquina em uma comunidade da região”, explicou. Após a experimentação da máquina, a equipe vai fazer a análise química do óleo, buscando identificar a metodologia que vai garantir melhor qualidade do óleo, por exemplo, garantindo que tenho um pH menos ácido, e também melhor rendimento. Também é proposta do projeto a realização de uma capacitação com os comunitários da região que tiverem interesse na atividade.

A pesquisadora destaca a importância de aliar pesquisa e manejo. “Preciso saber como se comporta ecologicamente a espécie para poder manejar, eu só uso se souber como ela se comporta, para que ela não se extingue, não finde. O manejo significa manutenção, gerenciamento do recurso”, completou. 

Conhecimento tradicional

O conhecimento tradicional é um grande aliado para o desenvolvimento da pesquisa. Emanuelle destaca que, desde o início do projeto, os moradores das comunidades das duas Reservas participam contribuindo com informações sobre a área e sobre o desenvolvimento da atividade, sobre o uso do óleo na região, entre outras. “A primeira fase do projeto foi um levantamento etnobotânico. Então, a gente leva bastante em consideração o que os moradores falam. Por exemplo, eles falaram que a produção é muito variada ao longo do ano, então, a gente decidiu que seriam seis meses de avaliação da produtividade de andiroba”, explicou Emanuelle.

A pesquisa também conta com a contratação de bolsistas das comunidades ribeirinhas contempladas na pesquisa. A equipe, que já iniciou os trabalhos, são jovens estudantes e pesquisadores. Simone Mendonça Fernandes, de 19 anos, é uma das bolsistas do projeto. Ela e outros cinco jovens vão trabalhar nas áreas da Reserva Amanã, que são contempladas pela pesquisa. Atualmente, Simone cursa o 1º ano do ensino médio na escola da comunidade Nova Jerusalém, onde mora desde que nasceu.

Como bolsista, ela vai trabalhar contribuindo para o monitoramento quinzenal das áreas de andirobal, verificando as redes, coletando as sementes e registrando dados para a pesquisa. De acordo com Simone, as mulheres da sua família têm a tradição de extrair o óleo de andiroba para uso medicinal.

“A mamãe que tem mais experiência. A gente tinha uma capoeira, que no caminho tinham duas andirobas. E era lá que a gente colhia. Ela mesma trazia e fazia a massa em casa, cozinhava. Pra uso nosso mesmo. A gente tira o óleo pra passar em corte, pra sarar, pra fazer remédio pra garganta também.  A gente faz uma mistura com mel de abelha que é bom pra tosse”, disse Simone.

De acordo com a jovem, a participação na pesquisa tem ajudado a conhecer melhor sobre a área em que vive. “Eu não conhecia e estou tendo a oportunidade de conhecer mais. Estou achando muito bom aprender. Quero terminar meus estudos, ter um emprego digno e ajudar minha família e a minha comunidade, esse é meu sonho”, completou Simone. 

Essa ação conta com recursos do Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Texto: Amanda Lelis

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