Em 15 anos, Instituto Mamirauá torna-se referência para iniciativas de turismo comunitário na Amazônia

Publicado em: 23 de setembro de 2014

O Instituto Mamirauá tem em sua história diversos projetos bem-sucedidos. Um deles é a Pousada Flutuante Uacari. O empreendimento turístico opera desde 1998, oferecendo aos visitantes a oportunidade de conhecer a várzea e, principalmente, as pessoas que vivem ali. Tudo isso em um lugar de natureza exuberante que se transforma entre as cheias e secas dos rios e lagos.

Mais do que um simples destino turístico, a Pousada Uacari contribui diretamente para o desenvolvimento de uma Amazônia sustentável. A iniciativa faz parte de um programa pioneiro que objetiva criar mais uma alternativa de renda para as comunidades que vivem nesta área de conservação.  “A principal renda gerada pelo turismo é resultado da prestação de serviço e da venda de produtos. Recentemente passamos a cobrar uma Taxa de Apoio Socioambiental. Cada turista que nos visita paga R$ 50,00, valor que será integralmente direcionado para um fundo de projetos de desenvolvimento comunitário, dividido anualmente”, conta Fernanda Sá, coordenadora do Programa de Turismo de Base Comunitária do Instituto Mamirauá.

A renda total gerada pelas atividades da Pousada Uacari chega a quase R$ 2 milhões: "Estes dados vem sendo registrados desde 1998. Através destes controles podemos dimensionar quantas famílias foram beneficiadas e o valor de renda para cada comunidade. Além deste monitoramento socioeconômico, existe o monitoramento ambiental e financeiro das atividades da pousada", mostra Fernanda.

Os números ilustram como essa iniciativa é bem-sucedida. Além disso, "a pousada também é um destino premiado pela Condé Nast Traveller e pela National  Geographic Traveller. Desde 2012 recebemos o Certificado de Excelência do site Trip Advisor, concedido a partir das avaliações espontâneas dos próprios visitantes”, diz Fernanda.  Com resultados tão positivos, também é importante compartilhar e replicar essa experiência. “Desde que o programa começou nós recebemos convites para compartilharmos a experiência da Pousada Uacari e do Programa de Turismo de base Comunitária do Instituto Mamirauá”, acrescenta a coordenadora.

Izael Mendonça, presidente da Associação de Auxiliares e Guias de Ecoturismo de Mamirauá (AAGEMAM), viveu grande parte desta história. Ele trabalha na pousada há 11 anos e já desempenhou diferentes funções, em todas as áreas. “Eu sou tudo isso junto. A área que precisar eu estou apto a ela. A gente sempre faz esse tipo de trabalho com os novatos, de tentar que a pessoa aprenda sobre todas as áreas. Como a gente trabalha com turismo, a gente tem que estar por dentro de tudo que acontece”, conta Izael. Por meio da AAGEMAM os comunitários prestam serviço na Pousada durante períodos intercalados.

A equipe também passa por constantes cursos e oficinas de formação. "Em mais de 100 eventos de capacitação que já realizamos, é importante enfatizar que vários comunitários hoje são multiplicadores. Cursos nas temáticas de guiamento, de alimentos e bebidas, de cozinha e camararia, para novos integrantes da equipe, são conduzidos por quem já realiza a atividade. Este é um avanço importante. E hoje o nosso foco em capacitação está voltado para questões de gerenciamento e gestão do empreendimento como um todo", diz Fernanda. 

Estas questões levam em consideração o intuito de transferir a gestão da pousada inteiramente para as comunidades envolvidas no projeto. "Essa proposta existe desde 2007 e tem sido cada vez mais discutida. Hoje, 23 de setembro, iniciamos as atividades de um seminário para pensarmos esta transferência. Convidamos iniciativas que já viveram esse momento para compartilharem a sua experiência com a gente. A partir disso faremos o nosso planejamento estratégico", afirma Fernanda. Izael acrescenta que “nós, das comunidades, fomos conquistando aos poucos espaço para nossa opinião, para nossa voz. Agora nós temos muito mais poder de decisão, e isso, para as pessoas daqui, encoraja. Saber que nossa opinião é válida é muito importante, principalmente para este plano de transferência dar certo. Esperamos por isso há bastante tempo e agora isso está acontecendo”.

 “Os presidentes, as lideranças das comunidades, olham muito para a AAGEMAM como a entidade que vai gerir a pousada. Está todo mundo focado na AAGEMAM. Eu boto a maior fé na gente”, afirma Izael. E ele quer ver essa transferência acontecer de perto: “A gente aprendeu a trabalhar com o turismo, e vai continuar aprendendo, renovando e reformulando. Tem bastante tempo que eu estou aqui trabalhando, lutando, para ver isso acontecer. Porque é isso que eu gosto de fazer. É aqui que eu gosto de trabalhar”. 

Por Vanessa Eyng

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