Dieta influencia no aumento de peso de peixes-boi e reduz tempo de reabilitação

Publicado em:  5 de maio de 2015

A nutrição é um aspecto fundamental para o desenvolvimento de animais em reabilitação, inclusive de filhotes de peixes-boi, animais completamente dependentes de dieta láctea artificial nos seus dois primeiros anos de vida. Por isso, o Instituto Mamirauá, que possui um centro especializado em reabilitação desses espécimes na Amazônia, vem desenvolvendo uma pesquisa para adequar a dieta artificial de acordo com a necessidade de cada animal. Desenvolvida desde 2013, os resultados já indicam maior ganho de peso para os peixes-boi, permitindo que permaneçam menos tempo em cativeiro, até serem soltos em ambiente natural.

O ganho de peso e o crescimento desses peixes-boi dependem de uma dieta adequada, baseada no leite. No centro de reabilitação são fornecidas mamadeiras diárias, que incluem leite em pó, água e fonte de gordura, em proporções variáveis de acordo com cada caso. “Trabalhando com equações exponenciais, baseadas na taxa metabólica basal e fatores de ajustamento clínico individuais, é possível calcular a necessidade calórica energética diária para cada filhote, de acordo com seu peso e condições clínicas. Com essas fórmulas, corrigimos o déficit calórico que ocorria nos animais com a dieta anterior e readequamos a composição do leite, conforme as necessidades de cada um”, afirma Guilherme Guerra, veterinário do Instituto Mamirauá.

Baseando-se nos cálculos das necessidades energéticas de manutenção diárias, garante-se mais segurança para trabalhar com o aleitamento artificial. Com a readequação da dieta, o ganho de peso foi potencializado. As primeiras avaliações após a mudança da dieta mostraram que a média do ganho de peso semanal dos animais triplicou.

À medida que os animais vão crescendo, além de considerar o ganho de peso, crescimento e adaptação à ingestão de vegetação, ocorre o desmame, ou seja, há mudança na dieta com a redução gradual das mamadeiras e, consequentemente, aumento do consumo de plantas aquáticas. “No processo de desmame a gente também teve algumas mudanças, principalmente na diminuição da frequência das mamadeiras e na concentração do leite, oferecendo o alimento mais parecido com o leite da mãe. A gordura do leite é energia, o que é importante para o desenvolvimento dos filhotes, principalmente no segundo ano de vida, como ocorre na natureza”, avalia o veterinário.

Pensando em estratégias para a conservação da espécie, Guilherme ainda acrescenta que “não existe um protocolo de reabilitação definido para filhotes de peixes-boi amazônicos. Cada instituição tem a sua experiência com reabilitação. Por exemplo, os ingredientes das formas lácteas são muito diferentes. Aqui nós usamos óleo de canola, em outros lugares se usa manteiga. Os metabolismos do óleo de canola e da manteiga são totalmente diferentes. Tem gente que oferece legumes, verduras e frutas. Nós somos privilegiados por poder fornecer diariamente plantas que são consumidas naturalmente pelos peixes-boi em vida livre. É importante chegarmos a um protocolo clínico, sanitário, nutricional e de instalações adequado dos filhotes em cativeiro, para que os animais possam ser reabilitados em menor tempo possível, para que, quando forem soltos, tenham maior taxa de sucesso na sua sobrevivência”.

Dieta a base de plantas

Além do leite, os animais também consomem macrófitas aquáticas. Para conhecer melhor o desempenho nutricional das principais macrófitas usadas no centro, também foram realizadas análises bromatológicas em seis espécies de plantas. Nessa pesquisa, foram levantados dados sobre teor de proteína, fibra e matéria mineral, por exemplo.  “A partir dessas análises, a gente conseguiu saber quais das macrófitas são as mais importantes para fornecer aos animais nos diferentes estágios do processo de reabilitação. Por exemplo, o chibé (Azolla sp.)tem alta concentração de proteína bruta, 19%, então ela é uma macrófita muito importante para os filhotes durante o seu desenvolvimento”, comenta Guilherme.

No centro, os peixes-boi ficam em currais flutuantes, dentro do lago Amanã, mas como vários filhotes compartilham do mesmo curral durante o período de reabilitação, a própria infraestrutura acaba limitando a análise do consumo de macrófitas por indivíduo. “A gente oferece macrófitas como em vida livre, à vontade. Mas não temos como quantificar o quanto cada um está consumindo. Por isso, é importante a gente assegurar o aporte calórico pelo leite”, completa Guilherme.

Todos esses esforços de pesquisa buscam melhorar o desempenho dos filhotes em cativeiro, permitindo que eles voltem à vida livre o mais rápido possível. “A Cassi, peixe-boi em reabilitação desde agosto de 2014, respondeu muito bem à dieta, ganhando peso rapidamente. Ela provavelmente será solta em dezembro, com 16 meses de reabilitação. Com essa dieta nova, conseguimos garantir que um filhote seja reabilitado em no máximo dois anos, período semelhante ao tempo em que os filhotes permanecem sob cuidados maternos na natureza”, comemora Guilherme.

Finalista do Prêmio Nacional de Biodiversidade

A iniciativa do Instituto Mamirauá “Conservação do peixe-boi na Amazônia Brasileira” é finalista do Prêmio Nacional de Biodiversidade, promovido pela primeira vez no Brasil pelo Ministério do Meio Ambiente. Os vencedores de todas as sete categorias serão conhecidos no Dia Mundial da Biodiversidade, 22 de maio, em cerimônia a ser realizada em Brasília (DF). Um prêmio especial será concedido ao vencedor de uma votação popular, que começou esta semana. Para votar, acesse www.mamiraua.org.br/pnb

Foram 888 iniciativas inscritas no prêmio. Dessas, 213 foram homologadas conforme as regras da premiação. Dessas, 32 chegaram à semifinal e 18 passaram para a etapa final. “Esta indicação vem reconhecer o trabalho de mais de 20 anos, iniciado localmente, mas que ao longo dos anos agregou um grande número de pesquisadores, de variadas especialidades, e provenientes de diversas regiões do país, que atuam, direta ou indiretamente, na conservação do peixe-boi amazônico”, disse a pesquisadora Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá.

Texto: Vanessa Eyng, com colaboração de Eunice Venturi

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