“Um líder não se forma, ele já nasce líder. Muitas vezes, só falta uma oportunidade"

Publicado em: 19 de setembro de 2019

Mãe, agricultora, presidente de associação comunitária. Aos 25 anos, a jovem Isabel de Melo Carvalho demonstra muita maturidade e liderança para apoiar a comunidade Santa Luzia do Boia, na Reserva Extrativista Auatí-Paraná (Resex). Isabel vive em uma unidade de conservação federal de pouco mais de 146 mil hectares, cujo território se estende pelos municípios amazonenses de Japurá, Maraã e Fonte Boa. Em 2014, ela foi aprovada para ser uma beneficiária da primeira turma de estudantes do Centro Vocacional Tecnológico (CVT) do Instituto Mamirauá – uma organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Nessa entrevista ao site do Instituto Mamirauá, ela fala sobre a comunidade e a experiência no CVT.

Como é a vida na comunidade Santa Luzia do Boia?

A vida na comunidade é tranquila, e os moradores sobrevivem da agricultura. A gente trabalha com o plantio de mandioca, que é uma cultura milenar do povo amazônico. Com o cultivo de mandioca, banana, milho e criação de pequenos animais em casa para sobrevivência. Aos domingos, participamos das celebrações e dos festejos religiosos nas igrejas evangélicas e católicas. Também participamos das reuniões da associação comunitária. Eu nasci e vivi a vida toda nessa comunidade. Somente saí para estudar no CVT e passei dois anos estudando. Voltei para comunidade onde eu assumi a coordenação regional da juventude e depois fui incentivada a ser presidente da associação de moradores da Resex. Estamos no segundo mandato. 

Como era seu contato com o Instituto Mamirauá antes de você ser selecionada para estudar no CVT?

Nós recebíamos muitas informações sobre Instituto Mamirauá, principalmente sobre a forma como trabalhava na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Quando a escola de gestores foi criada – o CVT –, foram abertas quatro vagas para jovens moradores da Resex e eu fui uma das selecionadas. 

E como foi esse período que você ficou estudando no CVT?

Foi um desafio muito grande esse período no CVT, pois eu nunca tinha saído de casa antes e passar tanto tempo fora. Foram dois anos que a gente estudou em Tefé. Mas foi um momento que eu ganhei muita experiência e muito conhecimento. Para nós, foi uma grande oportunidade. Ao final do curso, cada estudante elaborou um TCC (trabalho de conclusão de curso), e o meu projeto foi sobre organização comunitária. Meus orientadores foram a Oscarina Martins e o Hudson Araujo, do Programa de Gestão Comunitária do Instituto Mamirauá. Escolhi o tema de organização comunitária por ser algo que a gente já vem praticando dentro da unidade e eu via que precisávamos ter mais informação e mais capacitação para atuar dentro da Resex. 

O que te levou a ser líder comunitária com essas funções que você tem hoje?

A partir do curso no CVT, das instruções que a gente recebeu e do conhecimento que a gente adquiriu no período de dois anos, além necessidade de se levar uma vida normal e tranquila e buscar a melhoria de qualidade de vida para os moradores das unidades. Como o estatuto social da nossa associação diz que o presidente somente pode ser eleito por dois mandatos, o nosso presidente atual já estava vencendo os seus dois mandatos de atuação dentro da unidade, precisava-se de novas pessoas. Como a gente tinha estudado, fomos indicados para atuar como presidente. 

Você recebeu algum incentivo para aceitar esse desafio?

Eu tinha muita vontade de participar e atuar como uma liderança mais alta dentro da unidade. O Sandro Augusto Regatieri, gestor do CVT, foi uma pessoa que disse ‘Isabel, você está preparada para assumir a diretoria da associação. Apesar de receber a capacitação, você vem acompanhando todo esse tempo. Você sabe muito bem como o movimento funciona. Então, está preparada’. Foi uma palavra de incentivo que eu recebi junto à vontade e à necessidade de se ter uma outra pessoa. Então, eu assumi o mandato. 

Como é a vida de uma presidente de associação?

A vida de uma presidente é bastante puxada. Tem que ter amor, paixão e vocação para trabalhar. A gente não tem hora para sair e nem para chegar. Por ser um trabalho voluntário, muita das vezes, dificulta a compreensão das próprias famílias. Então, a pessoa tem que ter um encorajamento muito grande para trabalhar, mas é uma função que traz um grande conhecimento, além de ganhar grandes amigos, amizades. E tem a oportunidade de fazer parcerias para trazer melhoria de qualidade de vida para os moradores da unidade de conservação.

O que você considera que seja um desafio que a sua gestão ainda tem que vencer?  

Um grande desafio que a gente tem é resgatar nossos moradores que deixaram de atuar, encorajar novas lideranças para assumir nosso mandato assim que a gente sair. Não formar e sim capacitar e encorajar novos jovens. É o que a gente vem trabalhando bastante com os jovens. Encorajá-los para que eles assumam após a gente, uma nova diretoria. E toque nossa vida comunitária para frente. 

Qual mensagem você daria para jovens que tenham vontade de se inscrever no CVT?

Eu deixo uma mensagem para jovens e para novas pessoas que queiram aprimorar seus conhecimentos. Porque o líder, ele não se forma, não se faz, ele já nasce líder. Muitas das vezes, falta apenas uma oportunidade e uma palavra de incentivo. Eu quero dizer que nunca deixem seus sonhos de lado. Se você tem uma vontade, se você quer, lute e busque conhecimento, porque nós somos capazes de mudar e nós somos jovens. E somos nós que vamos fazer o futuro, o amanhã.

Para apoiar projetos do Instituto Mamirauá, como o Centro Vocacional Tecnológico, adquira uma camiseta da campanha “Sonhos Amazônicos”, acessando o endereço moko.com.br/compre. O CVT e essa campanha têm o financiamento da Fundação Gordon e Betty Moore. Vista essa causa!

Entrevista e edição de Eunice Venturi.

Confira a entrevista abaixo:


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