“Muito mais fácil fazer farinha do que ser entrevistado”

Publicado em: 16 de outubro de 2019

Foi um dia inteiro de trabalho, entre sessão de fotos, gravação de entrevista e imagens de apoio. E a entrevista foi comparada ao processo de fazer farinha: “Muito mais fácil fazer farinha do que ser entrevistado”, disse Adrimar dos Santos Vida, estudante do Centro Vocacional Tecnológico (CVT) do Instituto Mamirauá, uma organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Aos 26 anos, o agricultor mora na Floresta Nacional de Tefé e está no CVT para aprender mais e poder, ele mesmo, ajudar a comunidade a melhorar a produção de farinha. 

Como é a vida na Floresta Nacional de Tefé?

A vida na minha comunidade é boa. É uma vida tranquila. Há vezes que a gente acorda cedo para fazer farinha. Depende, também, do tanto de farinha que a gente vai produzir, pode ser mais puxado um pouco. Ao fazer farinha, existem várias funções. Não fica somente numa. Tem vez que peneira massa, embola, torra. Serve a massa para peneirar primeiro para, depois, fazer os caroços da farinha. Vai para o forno... 

Como começou seu contato com o Instituto Mamirauá? 

Antes, eu não sabia sobre o trabalho do Instituto Mamirauá, mas agora já conheço um pouco da entidade. Para mim, está sendo maravilhoso o que ele realiza nas comunidades. Já fui para Assembleia Geral neste ano. Eu achei bastante produtiva a participação do instituto, que desenvolve muitos trabalhos em várias comunidades, como no médio Solimões, no baixo e no alto. E também na minha região, onde eu moro, na parte da Flona. 

Como soube da existência do CVT?

Quando eu ouvi falar do CVT, não sabia bem o que era. Eu não sabia a aprendizagem que eles ofereciam para os estudantes; depois que eu tive conhecimento por um ex-aluno do CVT que me deu algumas dicas sobre o que o centro oferecia para os alunos. Outro ponto que me fez inscrever foi por ele oferecer vários estudos que eu posso implantar na minha comunidade, como a contabilidade que está sendo montada, este ano, para uma empacotadora de farinha para minha comunidade, e eu posso ajudar quando terminar o estudo. O CVT oferece a oportunidade ajudarmos a nossa própria comunidade. 

Como é sua experiência no CVT?

A minha experiência aqui está sendo bastante produtiva. Ainda não tinha visto algo assim como eles ensinam para gente. Eu não sabia informática e estou aprendendo. E contabilidade também está sendo bastante produtiva. Não tinha nenhuma noção do que que era contabilidade. Agora, já estou tendo. Eu sei o que é entrada e saída de produtos que serão necessários na empacotadeira. O que é despesa, o que é custo. Está sendo uma experiência muito importante. Não esperava ter esse conhecimento que eu estou tendo no CVT. 

Qual projeto você pretende desenvolver para concluir o curso? 

O projeto que eu quero trabalhar é na área da produção e venda da farinha que a gente ainda não tem um comprador. Precisa de selo, de embalagem... Eu acho que esse é o maior problema da empacotadeira que eu posso ajudar, pois já tive algumas aulas sobre como funciona o selo para entrar no mercado, que é bastante exigente nessa questão de produção de alimento. Tem que estar tudo em ordem. E espero poder ajudar a minha comunidade.

Por que é importante aumentar a venda de farinha da comunidade?

Não apenas aumentar, como também buscar um preço melhor para os produtores de farinha. O preço não está ajudando, está muito baixo. Buscar um preço para, pelo menos, tabelar; para ficar num nível que nem abaixe e nem suba demais. A produção de farinha vai mudar bastante. Não vai mudar muito somente a minha vida, mas a vida de muitos moradores da nossa comunidade. Traz bastante renda e dá mais recursos para comprarmos outros materiais que precisamos, como eletrodomésticos, roupas, alimentos. E poder guardar para a gente ter em alguma necessidade; se a gente ficar doente, ter um pouco de renda guardada no banco. Nesses casos, a gente já ter e não precisar fazer. 

Qual é sua expectativa daqui por diante? 

Daqui para frente, eu espero buscar bastante aprendizado, como já aprendi. Não sei o dia de amanhã, o que pode acontecer na vida de cada um. Espero que possa trazer esse conhecimento também para muitos moradores, que eu possa levar bastante conhecimento para eles e ajudar não apenas na produção de farinha, como também tentar encaixar outros meios de tirarem o seu sustento. Outra maneira de poder auxiliar como plantação de banana, produção de mel de abelha nativa sem ferrão, criação de aves. Ter um meio bastante produtivo para não destruir muito a natureza. A gente derruba um pouco para produção de farinha. 

Qual é o seu sonho? 

O meu sonho é que a gente possa montar a nossa empacotadora e que melhore o preço da farinha. E, principalmente, para ajudar meus pais que já estão velhos, que já não estão conseguindo muito trabalhar na roça. Quero terminar o meu projeto de passar esses dois anos. Tentar criar minha filha. Não gostaria de passar o resto da vida no sítio. Depois, pretendo estudar, tentar fazer uma faculdade, conseguir um trabalho melhor para ter um meio de sobreviver mais fácil. Meio de renda mais fácil, sem me esforçar muito. 

Para apoiar projetos do Instituto Mamirauá, como o Centro Vocacional Tecnológico, adquira uma camiseta da campanha “Sonhos Amazônicos”, acessando o site “Espaço Moko”. O CVT e essa campanha têm o financiamento da Fundação Moore. Vista essa causa!

Entrevista de Júlia Freitas e Everson Tavares; edição de Eunice Venturi.

Confira o relato de Adrimar abaixo:




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