Manejadores participam de curso de boas práticas de pesca e beneficiamento do pirarucu

Publicado em: 30 de agosto de 2019

Controle de qualidade do pescado foi tema de evento promovido pelo Instituto Mamirauá

O pirarucu (Arapaima gigas) é um peixe tradicionalmente pescado e consumido por populações ribeirinhas da Amazônia. Além de importante fonte nutricional e econômica às comunidades da região, seu sabor tem cada vez mais atraído a atenção de renomados chefs nacionais e internacionais, que o valorizam pela versatilidade em pratos requintados.

Visando uma melhoria na qualidade do pescado, o Instituto Mamirauá realizou entre os dias 26 e 30 de agosto o primeiro módulo do Curso de Controle de Qualidade do Pescado. O evento reuniu 30 participantes na sede da organização, localizada em Tefé, no estado do Amazonas.

A programação contou, entre outras atividades, com palestras sobre análises químicas e sensoriais do pescado, doenças transmitidas por alimentos, boas práticas de manipulação, gestão de pessoas e estudos de caso de flutuantes de beneficiamento.

O curso foi proposto pelo Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis (GPIDATS) e o Programa Qualidade de Vida (PQV) do Instituto Mamirauá, que em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), desde 2013 realizam pesquisas e projetos visando melhorias na qualidade do pescado da região.

“Esse trabalho apontou a necessidade de alguns ajustes de procedimentos nessa manipulação. Os primeiros resultados das pesquisas já mostraram que unidades de processamento onde a água é tratada têm menos riscos de contaminação do pescado”, explica a coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, Ana Cláudia Torres. 

De acordo com Ocemir Santos, presidente da Associação dos Comunitários que trabalham com o desenvolvimento sustentável no município de Jutaí (ACJ), organização que assessora o manejo do pirarucu em 39 comunidades também na região do Médio Solimões, um dos maiores entraves para adoção dessas práticas é a resistência às mudanças de costumes, repassados de geração em geração.

“A qualidade vem acompanhando uma exigência e a gente se deparou muito com a questão cultural, sem exigências. Mas com as organizações isso foi mudando, por isso a importância desse tipo de capacitação”, diz. 

O segundo módulo do curso acontecerá após a temporada de pesca, que se inicia em setembro e termina em novembro. O objetivo será avaliar quais das práticas aprendidas no primeiro módulo foram aplicadas, avaliando os desafios e modos de superação.

Modelo de flutuante

A Unidade Flutuante de Recepção e Pré-Beneficiamento do Pirarucu instalada na RESEX Auati-Paraná, foi uma das construções analisadas como modelo na região. 

A estrutura foi desenvolvida e instalada pelo Instituto Mamirauá a partir de uma demanda do Projeto Parcerias para Conservação da Biodiversidade na Amazônia, uma cooperação internacional entre o governo do Brasil e dos EUA, executado pelo ICMBio e Serviço Florestal dos EUA (USFS), com recursos da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA (USAID).

Ao invés do peixe ser eviscerado em contato com a madeira, como é feito comumente, o trabalho na unidade é realizado em calhas de inox. O flutuante também é beneficiado por um sistema de abastecimento de água do rio que conta com tratamento de filtro e uso do cloro. 

“Esse projeto pode vir, inclusive a influenciar políticas públicas, uma vez que, o Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento] e a ADAF [Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas] não dispõem de modelos de estruturas pensadas para o pirarucu e demais cadeias de produtos da sociobiodiversidade amazônica. Nesse sentido, a contribuição do Instituto Mamirauá, como unidade de pesquisa é desenvolver modelos que se configurem em soluções próximas à realidade das comunidades”, explica Ana Cláudia. 

Troca de experiências

Um dos propósitos do curso foi expandir a disseminação do conhecimento das boas práticas para além da região do Médio Solimões.

“O nosso encontro visa reunir lideranças do manejo para debater propostas de como superar os desafios de se produzir na Amazônia, distante dos centros urbanos. Com isso, criamos uma rede de troca de experiências para avançarmos com o manejo”, complementa Ana.

O curso contou com a presença de pescadores e pescadoras da Terra Indígena Paumari, do rio Tapauá, das reservas de desenvolvimento sustentável Mamirauá, Amanã e Uacari, das Reservas Extrativistas (RESEX) Unini, Baixo Juruá e Médio Purus, além do Acordo de Pesca da região próxima a Tefé. 

Da RESEX Médio Purus, o manejador Jelsenir de Souza justificou a viagem: “É uma maneira de aprender mais e melhorar o trabalho para que o pirarucu chegue na mesa do consumidor com qualidade”. 

Texto: Júlia de Freitas


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