Começaram os testes da tecnologia Providence na Amazônia

Publicado em:  7 de abril de 2017

Projeto em desenvolvimento propõe um modelo inovador de monitorar espécies de animais na Amazônia. Os testes inaugurais aconteceram na Reserva Mamirauá (AM)

Imagine ter informações em tempo real sobre porções da floresta amazônica, como o número de espécies da fauna, tudo a partir do seu computador ou celular, a distância de poucos cliques. Muito além de um item de curiosidade, essa pode ser uma ferramenta inovadora para monitorar e proteger a biodiversidade da maior floresta tropical do mundo.

É essa a proposta do projeto Providence, uma parceria internacional de pesquisa, representada no Brasil pelo Instituto Mamirauá. Nas últimas duas semanas, tiveram início os primeiros testes das tecnologias que farão parte do Providence dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no estado do Amazonas.

Os resultados foram promissores para a equipe mista de cientistas do Instituto Mamirauá e da australiana Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO). “A maioria dos testes que fizemos na floresta mostraram bom desempenho das tecnologias, na captação de imagens de animais e também na transmissão de dados para diferentes distâncias”, contou Ross Dungavell, engenheiro sênior de software da CSIRO.

Como será o Providence?

Essa é a pergunta que os pesquisadores estão em busca de responder e cujo caminho começou a se delinear a partir das provas feitas in loco em um ambiente amazônico.

O coordenador de monitoramento do Instituto Mamirauá, Emiliano Ramalho, esclarece que o Providence “não vai criar uma nova tecnologia, e sim combinar tecnologias disponíveis no mercado, como antenas e câmeras termais, com outras que estão em desenvolvimento pela CSIRO, para então desenhar um padrão de uso a fim de melhor monitorar a biodiversidade da Amazônia”.

“Esse ‘desenho’ está sendo construído tendo em vista a realidade da floresta amazônica, e por isso essa fase de testes com a presença dos engenheiros é tão importante”, destaca. “Mamirauá é o lugar ideal para testarmos nossas tecnologias porque representa condições e desafios de muitos outros ambientes na Amazônia. E isso é fundamental para que o modelo do Providence seja replicável em outras áreas da floresta amazônica, criando uma grande rede de sensores e comunicação”, avaliou Ross.

O engenheiro australiano cita alguns dos principais desafios para a funcionamento do Providence, vivenciados por ele durante os cerca de 15 dias de trabalho em campo. “Obter energia para o sistema, sem dúvida, é um deles, e se adaptar ao fato que na região chove muito, é bastante úmido e também existem onças, macacos e diversos outros animais na Amazônia que poderão tentar desmontar os equipamentos”, disse.

Tecnologia e natureza em diálogo

De barco a motor e a pé, a equipe, que também é formada pelos pesquisadores e engenheiros Ash Tews, Philip Valencia e Lachlan Currie, percorreu longos trechos dos aproximados 11.000 km² da Reserva Mamirauá, a primeira implantada no Brasil.

Foram testadas tecnologias de gravação e detecção de espécies de animais em vida livre, como um dispositivo em desenvolvimento pela CSIRO que conjuga a captação de imagens em alta definição com as de câmeras infravermelho, também conhecidas como câmeras térmicas ou termais, que detectam o calor e são muito úteis no período noturno.

“O equipamento pode ‘ver’ o calor dos animais em volta e inclusive através das árvores, mesmo em condições de escuridão extrema. Além disso, ele tem um alcance muito maior que as armadilhas fotográficas geralmente usadas”, diz o pesquisador sênior Ash Tews, responsável pela tecnologia. “A ideia é unir esses métodos para realizar a identificação de espécies”.

Em apenas duas semanas na Reserva Mamirauá, os pesquisadores reuniram o equivalente a 2 Terabytes de imagens gravadas do cotidiano da floresta, com centenas de ocorrências de animais, de singelas mucuras até grandes jacarés amazônicos. Um material de valor inestimável, que pode ser multiplicado e transmitido para diferentes lugares do mundo, ao fim da construção do Providence.

Para transmitir esses dados, é preciso de um sistema de comunicação muito eficiente. Os pesquisadores fizeram testes com antenas de alta e baixa frequência dentro da floresta e da mata até outra antena de comunicação instalada em uma torre na Pousada Flutuante Uacari, iniciativa de turismo de base comunitária localizada dentro da reserva.

Para isso, a equipe enfrentou alturas como os mais de 30 metros de uma samaumeira, imponente árvore da região. “Para levar os sons e imagens da floresta para o resto do mundo, precisamos de pontos altos, acima das copas das árvores”, explica Ross. “As transmissões de curtas (até 5 km) e grandes distâncias (10 km) foram bem-sucedidas”.

Próximos passos

De volta à Austrália, a equipe da CSIRO dará continuidade ao desenvolvimento das tecnologias, levando consigo o conhecimento de adaptações e estruturas que serão necessárias ao Providence. Os novos testes acontecem daqui a 6 meses, novamente na Reserva Mamirauá. “Essa é apenas a primeira fase do Providence. Ainda há muito trabalho pela frente, mas os avanços que tivemos com os testes foram muito significativos”, afirma Emiliano.

Junto com o Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e da CSIRO, fazem parte do Providence o Laboratório de Aplicações Bioacústicas da Universidade Politécnica da Catalunha(UPC), através da Fundação Sense of Silence, e a Universidade Federal do Amazonas. O projeto conta com um financiamento de 1,4 milhão de dólares (cerca de 4,36 milhões de reais) da organização filantrópica e de apoio a ciência e biodiversidade Fundação Gordon and Betty Moore.

Texto: João Cunha

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