Com oferta de curso, Instituto Mamirauá compartilha experiência em manejo florestal comunitário

Publicado em: 25 de fevereiro de 2017

O Manejo Florestal Madeireiro é realizado há mais de quinze anos por associações comunitárias no Amazonas, com o apoio do Instituto Mamirauá. Para que a atividade possa garantir o retorno financeiro e social para as populações envolvidas e ainda de forma sustentável, é preciso muito trabalho. Na última semana, 12 profissionais de diferentes estados estiveram na sede do Instituto em Tefé (AM), para participar da capacitação de Multiplicadores em Manejo Florestal Comunitário em Área de Várzea.

O curso visa expandir a experiência com o manejo em área de várzea, formando multiplicadores que possam levar a metodologia adotada pelo Instituto Mamirauá – unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – para outras regiões da Amazônia. Esta ação é financiada pela Fundação Moore. Ao longo do ano, serão realizados cursos de multiplicadores em outras áreas de conhecimento, como Manejo Participativo do Pirarucu, que acontecerá em abril.

Elenice Assis, coordenadora do Programa de Manejo Florestal Comunitário do Instituto, explica que a instituição foi uma das primeiras no estado do Amazonas a implementar o Manejo Florestal Comunitário em 1998. Com o passar dos anos, a equipe acompanhou o processo de mudanças da legislação, além da formação e organização das comunidades para o manejo, acompanhando os desafios e apoiando os produtores na realização da atividade.

“Esperamos que os resultados que foram alcançados na Reserva Mamirauá também sejam alcançados em outros lugares da Amazônia. Quando a gente apresenta a experiência de 18 anos de atuação, a diferença é que falamos dos erros cometidos, dos desafios com o manejo florestal comunitário. Testamos e aprimoramos as metodologias ao longo do tempo. Eles podem encontrar exemplos de outros lugares que já passaram por isso e pensar: aqui também podemos realizar. Acho que esse é o maior retorno do curso de multiplicadores”, disse. 

O curso apresentou aulas teóricas e práticas. Os participantes estiveram na sede do Instituto para palestras e atividades sobre as primeiras etapas para a realização do manejo florestal comunitário. E também visitaram uma comunidade que está fazendo o levantamento de estoque, etapa em que os manejadores fazem um inventário florestal da área que será manejada.

“É uma das partes mais importantes. Pois, começar a trabalhar com manejo, em uma área de pequenos produtores rurais, parte do princípio de que a gente precisa conhecer essas pessoas, a história delas, como foi a formação dessa sociedade, qual a cultura deles. Não adianta montar um curso com técnicas de manejo desenvolvidas em outra região, sem levar em consideração a tradição daquele público alvo, do perfil e do histórico da comunidade”, ressaltou Elenice. A técnica do Instituto Mamirauá explica que, no próximo ano, haverá outro curso de multiplicadores que envolverá outras etapas do manejo florestal, até a exploração e comercialização da madeira.

Os participantes assistiram palestras sobre o histórico de ocupação da Reserva Mamirauá, a transição do período da borracha para o atual, a organização das populações ribeirinhas e o envolvimento com atividades de manejo, importantes fontes de renda das comunidades. Também assistiram aulas sobre a técnica do manejo, legislação ambiental, diagnóstico das comunidades, levantamento de estoque, entre outros assuntos.  “As aulas seguiram uma ordem cronológica de todo o processo até o levantamento de estoque”, disse Elenice

Ângelo Máximo, que participou do curso, é técnico florestal, extensionista do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam) no município de Fonte Boa, no Amazonas. Desde 2011, o técnico trabalha no município apoiando o manejo florestal em ambiente de terra firme, única modalidade de manejo realizada, apesar de grande parte do município ter em sua área ambientes de várzea.

“Era uma curiosidade minha conhecer essa outra modalidade de manejo. A gente está começando a afinar nessa direção, a gente vê que tem o potencial, tem o interesse das pessoas, o que a gente não tinha era o conhecimento para oferecer esse serviço. Aqui, eu tive a oportunidade de me capacitar pra oferecer essa atividade para as comunidades que moram na várzea também. É uma oportunidade de eles aproveitarem mais o recurso do ambiente que vivem”, disse Ângelo.

O extensionista comenta que o principal desafio encontrado pelos pequenos produtores da região é o avanço da comercialização ilegal da madeira. “Tem pouco interesse da indústria que compra a madeira de se regularizar. A madeira ilegal e clandestina é mais barata, então, tem mercado. Isso alimenta a prática do ilegal. O manejo tem um potencial, mas tem também aquela dificuldade de comercialização. Mas, a gente vê que é uma dificuldade que pode ser vencida. O Idam tem se envolvido muito nessa parte de auxiliar os produtores na comercialização”, contou.

Também participou do curso de multiplicadores Fabiana Ferreira, que é secretária de Meio Ambiente e Turismo de São João da Baliza, município do sul de Roraima. Fabiana, que é engenheira florestal, ressalta que a região tem sido prejudicada com o avanço do desmatamento. A implantação do manejo, de acordo com ela, já foi experimentada uma vez, mas não encaminhou por falta de engajamento popular.

“No sul do estado, só temos 20% de reservas. E, fora disso, tem muito desmatamento. Estou esperançosa que eu possa levar o conhecimento daqui e insistir mais, porque acho que essa vai ser a única solução daqui um tempo. Não agora, porque o desmatamento ainda é grande no sul do estado e também temos que resolver a questão de regularização fundiária de algumas terras. Mas, quem sabe, daqui um tempo os produtores acreditem nessa visão de sustentabilidade e retorno financeiro com a atividade”, disse.

O Programa de Manejo Florestal Comunitário conta com recursos do Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Texto: Amanda Lelis

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