Arqueólogos do Instituto Mamirauá buscam identificar como eram fabricados amuletos na Amazônia antiga

Publicado em:  9 de Janeiro de 2017

Envoltos de histórias e simbolismo, os muiraquitãs – amuletos produzidos principalmente em pedras verdes –  são objetos bem conhecidos e parte importante no imaginário coletivo de quem vive na Amazônia. A lenda mais popular conta que aquele que o possui, terá boa sorte. Estudos arqueológicos encontraram vestígios da utilização do amuleto entre populações amazônicas nos séculos X e XIX. Um desdobramento da pesquisa relacionada ao muiraquitã que vem sendo desenvolvida no Instituto Mamirauá busca desvendar como populações indígenas fabricavam os muiraquitãs naquele tempo e quais eram as ferramentas utilizadas por esses povos.

 “O muiraquitã é um dos objetos mais emblemáticos das terras baixas Amazônicas. Possuidor de simbologia muito grande, inclusive na atualidade. No período pré-colonial e colonial, ele tinha uma importância enorme. Utilizado como meio circulante, (uma espécie de valor monetário), dentro da lógica comercial e social indígena. Funcionando para compor alianças, casamentos e na compra de escravos. Além de funcionar também como algo que tinha um sentido sobrenatural, ele estava ligado a rituais de fertilidade, à água, à fartura. Então tinha toda uma simbologia e ideologia tanto política, quanto religiosa, que era pano de fundo do muiraquitã”, disse o técnico no laboratório de arqueologia do Instituto Mamirauá, Márcio Amaral. 

A pesquisa, realizada em conjunto com pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), por meio da arqueologia experimental, analisou peças da coleção arqueológica do Laboratório de Arqueologia Curt Nimuendajú, da Ufopa. A análise contribuiu para a identificação e funcionalidade de ferramentas para a fabricação dos muiraquitãs na área de Santarém por índios Tapajós. Márcio refez a sequência de produção dos objetos, para testar e identificar a produção dos amuletos em uma época em que, como destaca Márcio, não eram utilizados metais para corte, laminação e perfuração.

“Toda a sequência de ferramentas e implementos analisados proporcionou montar “toda” a cadeia operatória dos muiraquitãs. A documentação histórica e datações situam contextos para muiraquitã e cerâmica Tapajó entre o século X ao século XVI. Que foi, provavelmente, um período de expansão demográfica, e desenvolvimento cultural aqui na Amazônia, se estendendo no período colonial até meados do século XVII”, explicou Márcio. De acordo com ele, esses vestígios arqueológicos estão distribuídos não só na Amazônia brasileira, o que demonstra que as redes de troca, e o acesso de grupos ou de comerciantes aos objetos que saíam de Santarém e circulavam por regiões distantes.

De acordo com Márcio, a pesquisa evidenciou que, diferente do que era considerado em estudos arqueológicos anteriores, esses objetos eram produzidos na região de Santarém. No acervo arqueológico, estão peças como pontas brocas, abrasadores e outras ferramentas. Algumas delas, já desgastadas pelo uso, e outras incompletas, como é o caso de muiraquitãs inacabados.  “O resultado prático disso tudo é que a tecnologia utilizada pelas populações pré-coloniais é muito funcional, eles tinham capacidade cognitiva e tecnológica para perfurar pedras que, por exemplo, brocas de aço temperado hoje têm muita dificuldade. Com a sequência das peças da coleção originárias do sítio arqueológico urbano de Santarém percebemos que toda a cadeia operatória de produção e manufatura dessas ferramentas ocorriam dentro da área Santarém, ou seja, localmente, com matéria prima importada de outras áreas”, disse.

A arqueologia experimental permitiu reproduzir as técnicas até chegar a uma interpretação próxima do que era a cadeia operatória do muiraquitã na época. Para isso, matérias primas similares foram trazidas de outras áreas e testadas nos laboratórios de arqueologia da Ufopa e Instituto Mamirauá. Márcio destaca que, com o estudo, foi possível perceber outro aspecto da cadeia operatória voltada para a reciclagem e reaproveitamento dos materiais, que eram reutilizados em várias fases da cadeia operatória.

Simbologia

Márcio destacou que o muiraquitã transcorria pelo imaginário coletivo da Amazônia nos tempos antigos e ainda hoje é visto como um objeto de sorte. Ele ressalta que, no período colonial, esses objetos passaram a fazer parte também do imaginário europeu, incentivando um mercado de trocas e até a falsificação para envio de muiraquitãs para esse continente. A preferência pela coloração verde, de acordo com Márcio, tem grande simbologia. “O verde significava muita coisa: água, fertilidade, chuva, mudança de estação, bom agouro. O sapo também e possuidor vários sentidos na perspectiva ameríndia”, disse.

Uma curiosidade ainda sem resposta pela pesquisa é de onde vinham as pedras verdes para a fabricação do amuleto, como serpentina, jadeita, nefrita, amazonita, que não são encontradas na região de Santarém. “Conseguimos localizar um ponto onde tem uma fonte de pedra verde dentro do limite próximo da área Santarém. Na atualidade estamos trabalhando em várias linhas e estendendo a pesquisa para a região do Rio Negro e Médio curso do Rio Solimões para tentar equacionar algumas dessas problemáticas da pesquisa arqueológica na Amazônia. O muiraquitã era de uso corrente entre as “elites” ameríndias em vários pontos da Amazônia, Antilhas e Maranhão. Por outro lado, as fontes de matéria prima eram provavelmente controladas em períodos pretéritos tendo sua localização desconhecida na atualidade. Perpassando a ideia que havia uma intenção deliberada de restrição ao acesso a estas fontes e produção de muiraquitã por parte dos controladores das extensas redes comerciais nas terras baixas amazônicas”, comentou Márcio.

Essa pesquisa é realizada por Márcio Amaral, técnico do Instituto Mamirauá, como continuidade e ampliação dos trabalhos iniciados no laboratório de arqueologia Curt Nimuendajú, parte do seu trabalho de conclusão de curso de bacharelado em arqueologia na Ufopa.

Texto: Amanda Lelis

 

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