Ribeirinhos cultivam mesmas espécies que indígenas da Amazônia Antiga, mostra estudo

Publicado em:  1 de julho de 2019

Artigo que mostra resultados de coletas de vestí­gios arqueobotânicos será apresentado no 16º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon)

Desvendar o passado para entender o presente. Esse é um dos principais objetivos dos estudos arqueológicos. A busca pelos sinais de quem já foi ajuda a explicar os modos de vida que hoje vivem em locais cujas paisagens foram transformadas e modeladas durante séculos por diferentes populações. 

Vai ser apresentado no 16º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia um estudo que usou vestí­gios arqueobotânicos para investigar as espécies de plantas cultivadas por populações indígenas da Amazônia Antiga em uma comunidade ribeirinha da região do Médio Solimões. 

A pesquisa atestou que a população ribeirinha que hoje ocupa a área pode ter apreço semelhante pelas espécies cultivadas há séculos atrás por grupos indígenas extintos na região. 

Ocupações indígenas na comunidade Boa Esperança

Localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, a comunidade Boa Esperança é a maior e mais populosa da reserva com cerca de 300 habitantes. 

Desde 2012, pesquisadores realizam escavações e coletas de materiais arqueológicos na área. O material já identificou quatro ocupações indígenas classificadas pela análise de vestí­gios de cerâmica, que demonstram diferentes modos de produção. 

A pesquisa utiliza sementes arqueológicas como instrumento capazes de fornecer dados sobre os modos de vida das populações que viviam na área por volta do ano 1000 d.C. 

A data foi escolhida por se tratar do período onde os dados arqueológicos demonstram ter ocorrido uma transformação na organização social, polí­tica e econômica que resultaram na adoção de economia mais dependente de práticas agrí­colas, além da intensificação das técnicas de manejo de recursos.



Vestí­gios arqueobotânicos foram analisados (Foto: Adriano Gambarini)

Da Amazônia Antiga aos ribeirinhos de hoje: ‘gostos’ e sistemas agroflorestais semelhantes

Foram identificados registros arqueológicos de cacau (Theobroma cacao), cupuaçu (Theobroma grandiflorum), castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa), piquiá (Caryocar sp.), açaí (Euterpe sp.), bacaba (Oenocarpus sp.) e tucumã (Atrocaryum aculleatum), espécies amplamente cultivadas e consumidas na comunidade. 

Para a pesquisa, foram analisadas sementes carbonizadas que, para auxílio na identificação das espécies, foram comparadas ao material que compõe a coleção de referência de vegetais carbonizados do Instituto Mamirauá e da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

De acordo com o estudo, os resultados apontam a continuidade do uso da terra baseado em sistemas agroflorestais.

Mesmo quando as populações da Amazônia Antiga passaram a cultivar plantas domesticadas, fizeram-no em convergência com as atividades de caça, pesca e coleta. 

"As populações não passam a depender apenas do cultivo agrí­cola. Ou seja, continuam usufruindo do que a floresta proporciona em épocas diferentes e se relacionando com o espaço de diferentes formas, numa interação mútua com a paisagem, que vai além das questões de subsistência, mas também abarca a visão de mundo destas populações", explica a pesquisadora Emanuella Oliveira. 

Atualmente, os ribeirinhos têm práticas de manejo semelhantes. Isso, definem os autores, "demonstra que a paisagem permanece sendo modelada pelas populações que habitam o local".

O artigo intitulado "O sí­tio Boa Esperança no ano 1000 da era cristã: percepções da paisagem a partir do registro arqueobotânico" é de autoria dos pesquisadores Emanuella Oliveira, Márjorie Lima, Eduardo Tamanaha e Márcio Amaral do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) em parceria com Mariana Franco Cassino, do Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (Inpa) e Myrtle Pearl Shock, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

A pesquisa será apresentada no 16º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon), que começa hoje (2) e vai até o dia 5 na sede do Instituto Mamirauá, em Tefé, no estado do Amazonas.

Texto: Júlia de Freitas

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