Antiga rota de navegação é refeita por pesquisadores

Publicado em: 18 de julho de 2011

18/07/2011 - Pesquisadores do Instituto Mamirauá revisitaram uma rota de navegação desativada desde meados do século passado, a fim de identificar novas possibilidades para a investigação científica na região do Médio Solimões, Estado do Amazonas. A antiga rota - que liga o lago Amanã ao rio Urini, na bacia do rio Negro - era utilizada por ribeirinhos que vendiam produtos da fauna e flora dos igapós do município de Maraã para comerciantes de Manaus.
 
A expedição para retomada da rota de navegação ocorreu na semana passada, entre os dias 11 e 16. A bordo de três canoas equipadas com motores tipo "rabeta" e de dois botes tipo "voadeira", 12 pessoas se embrenharam pelo estreito curso d água do igarapé do Baré, rumo ao rio Urini. A viagem, denominada "Travessia do Baré", envolveu cinco pesquisadores do Instituto Mamirauá e sete assistentes de campo, moradores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã.
 
Em cinco dias de empreitada, a expedição avançou 80 km pelo igarapé do Baré, contados a partir da cabeceira do lago Amanã. No primeiro dia de viagem foram percorridos 60 km, sem grandes percalços, pois as distâncias entre as margens do igarapé eram largas e a profundidade nesse trecho permitia a boa navegação.
 
No entanto, o avanço foi lento durante o restante do percurso: nos quatro dias seguintes, foi possível percorrer somente 20 km, devido à enorme quantidade de toras de madeira que interrompiam o curso do igarapé. Em alguns trechos, os hélices dos motores tocavam o fundo do igarapé, o que dificultava ainda mais o avanço das embarcações, carregadas de tonéis de combustível e suprimentos.
 
Quatro assistentes se revezavam no trabalho de abrir o caminho no igarapé, operando motosserras para o corte das toras mais espessas e utilizando terçados e facões para a retirada de cipós e pequenos troncos que interrompiam o caminho.
Apesar do esforço, não foi possível completar o percurso até o rio Urini.

Em consenso, os participantes da expedição decidiram encerrar a viagem ao final do quinto dia de percurso. As dificuldades de comunicação com as bases de rádio do Instituto e o risco de ficar sem combustível motivaram o retorno.
 
"Fizemos um trabalho muito bom, um grande esforço. Chegamos perto. Com certeza, ano que vem voltaremos para completar o percurso", disse a oceanógrafa Miriam Marmontel, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, que participou da expedição. Segundo Marmontel, outra expedição será programada para a época da cheia de 2012, na qual a equipe tentará completar o percurso e realizar levantamentos acerca da biodiversidade da região.

 Diário de bordo

1º dia, 11 de julho: os 12 integrantes da expedição se reuniram no início da manhã na Casa do Baré, base em terra firme do Instituto Mamirauá, localizada perto da comunidade Bom Jesus do Baré, à margem do lago Amanã, território do município de Maraã. A primeira tarefa foi acondicionar os tonéis de combustível, suprimentos e todos os demais equipamentos necessários à segurança da viagem. Neste dia, uma segunda-feira ensolarada, a equipe percorreu 60 km. Por volta das 17h o acampamento de lona foi erguido em uma faixa de terra firme. O primeiro susto da viagem aconteceu por volta das 20h, quando parte do acampamento veio abaixo, derrubando das redes seis integrantes da equipe. Ninguém se feriu e a queda das redes acabou se tornando um evento cômico.
 
2º dia, 12 de julho: ao nascer do sol, todos estavam de pé para a preparação do café-da-manhã. A partida das embarcações para um novo dia de subida do igarapé ocorreu por volta das 8h. O avanço no 2º dia foi de 10 km, por um caminho cada vez mais fechado por toras e galhos. Apesar do barulho das motosserras, foi possível avistar um filhote de lontra à margem do igarapé. No final da tarde, um novo acampamento foi erguido.

3º dia, 13 de julho: somente 4 km de avanço. A equipe teve de regredir cerca de 1 km ao final da tarde, para erguer o acampamento na mesma faixa de terra onde houve a parada para o almoço. Na manhã seguinte, ficou decidido que o acampamento não seria desmontado. A maior parte da carga foi deixada no acampamento, para que as embarcações ficassem mais leves.

4º dia, 14 de julho: com as embarcações livres de carga, a equipe partiu deixando o acampamento armado. Com pancadas de chuva no período da tarde e trechos muito rasos, o avanço foi de 6,5 km.

5º dia, 15 de julho: a equipe enfrentou um dia de tempestades. Os hélices de duas rabetas e uma voadeira apresentaram avarias. O avanço foi de apenas 2 km, até um ponto onde havia muitos troncos no curso do igarapé. Acredita-se que a expedição chegou até um ponto próximo a uma trilha na mata, que leva até o rio Urini.
 
6º dia, 16 de julho: o dia da despedida. Após o café-da-manhã, realizado no acampamento antes do nascer do sol, os integrantes da expedição partiram de volta à Casa do Baré. Às 14h, todas as embarcações chegaram ao cais do Baré. Era o final de uma dura empreitada.
por Augusto Rodrigues

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