“O trabalho desenvolvido pelo instituto serve de modelo para outras instituições"

Publicado em: 27 de junho de 2019

A antropóloga Ana Rita Pereira Alves foi uma das primeiras pesquisadoras a trabalhar no Projeto Mamirauá, que posteriormente se tornou o Instituto Mamirauá. Assumiu a direção da instituição após o falecimento do fundador José Márcio Ayres e hoje é assessora de relações institucionais da organização.

Em entrevista especial de nossa série histórica comemorativa aos 20 anos do Instituto Mamirauá, a pesquisadora fala sobre sua percepção do trabalho realizado nas últimas décadas.

Como você teve contato com o Instituto Mamirauá?

Eu trabalhava aqui na universidade [Universidade Federal do Pará] lecionando Antropologia. À época, a Déborah fez concurso para Antropologia aqui e o Márcio Ayres veio transferido do Inpa para o Museu Goeldi. Ele, então, me contatou para ver se a universidade aceitava um espaço para que o Projeto Mamirauá pudesse realizar algumas atividades. Eu consegui uma sala no departamento e nós trabalhávamos lá: eu, Márcio, a Déborah e outras pessoas que ele contratava eventualmente para começar o trabalho no projeto.

Em 1992, eu comecei a trabalhar no projeto, mas só 20 horas porque foi o que a universidade me liberou. Dava aula e ajudava o Márcio na parte administrativa. Quando me aposentei da universidade, passei a trabalhar somente no Instituto Mamirauá aqui dentro da universidade.

Fala um pouquinho de como era o Márcio.

Eu tinha uma ligação muito próxima com ele por ele ser meu primo. A minha mãe é irmã do pai dele e quando ele era criança e o pai dele viajava para fazer cursos fora de Belém, tanto no Brasil como no exterior, Márcio e os irmãos iam pra Santarém onde eu morava e ficavam com a minha mãe o tempo que ele ficava fora. Todos os anos eles iam passar as férias em nossa casa em Santarém. Então, eu convivia com eles o tempo todo.

Quando eu fiz 17 anos, eu vim pra Belém para fazer o terceiro ano e me preparar para o vestibular, então eu fui morar na casa do meu tio Manoel, que é o pai do Márcio. Passei os quatro anos da faculdade morando junto com eles. A minha ligação com o Márcio é uma ligação de prima-irmã, nós convivemos juntos muito tempo.

O Instituto Mamirauá foi criado com que motivação?

O Márcio tinha uma ideia de crescimento. Ele queria trabalhar em várias áreas, sempre preocupado com o meio ambiente. Queria que o Projeto Mamirauá se tornasse um instituto, para ter uma sede e maior poder alojar bem os pesquisadores e também dar direitos a eles, com carteira assinada.  Isso foi possível com o financiamento do governo brasileiro. [O Instituto Mamirauá é uma organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações]

Quando, em 1999, surgiu o Instituto Mamirauá, ele foi o primeiro diretor e me colocou como diretora administrativa do instituto. Quando ele adoeceu e descobriu que estava com câncer de pulmão, foi um susto muito grande para todos nós e eu fiquei muito abalada. Na mesma conversa em que ele me comunicou, também disse que, com toda a experiência que eu tinha, queria que eu o substituísse na direção.       

Como foi esse processo?

Saber da doença dele foi horrível porque o Márcio morreu em março de 2003, com 49 anos, ele era muito novo.  Quando ele conversou comigo para explicar que tava com câncer de pulmão, os pais dele estavam no Rio de Janeiro visitando os netos, filhos do Márcio, que moravam com a Déborah no Rio. Também estavam com o irmão do Márcio lá. 

O Márcio, então, me pediu para eu providenciar uma passagem para os Estados Unidos, porque ele tinha plano de saúde para se tratar lá e ver a opinião dos médicos americanos. Foi um abalo muito grande para mim. 

Eu fiquei em contato com ele por telefone, por fax, por e-mail, mas foi um abalo muito grande. Quando o Márcio me trouxe o laudo e me chamou, eu não fui, porque eu achava que ele ia fazer alguma brincadeira comigo. Aí ele de novo foi no corredor e disse: “Ana Rita, é urgente! Vem falar comigo que é sério”. Aí eu falei: “olha, eu vou, mas não tô te acreditando”. Foi quando ele me mostrou o laudo. 

Eu sabia que ele estava doente, tava com uma pneumonia, mas eu não imaginava que estava com câncer no pulmão. Logo câncer. 

Foi uma situação muito complicada porque eu fiquei assumindo a direção, e o Márcio ainda era diretor. Eu não era oficialmente, mas ele já havia falado que queria que eu ficasse. Queria que eu ficasse na direção e resolvesse todas as coisas aqui falando com ele em Nova York e ele fazendo a quimioterapia e trabalhando de lá. Ele não parava de trabalhar, dava palestra, produziu um livro de fotografia. Ele não parou mesmo fazendo um tratamento muito rígido. Nessa época que ele estava em Nova York, ele ainda foi receber o prêmio da Rolex em Tóquio. 

Como você avalia a sua administração? 

Foi muito desafiadora e uma experiência muito boa para mim porque eu lecionava antes, não sou uma administradora. Aprender uma outra área não é fácil. Eu tive uma experiência grande com financiadores do exterior que eu tinha que prestar contas. Fui aprendendo esse tipo de coisa e a administração do instituto me deu um conhecimento que eu jamais imaginaria ter. Eu também tive o apoio de muitas pessoas que conheciam o Márcio e ajudaram muito. 

Fala um pouco sobre os objetivos do Instituto Mamirauá.

A missão do Mamirauá é realizar pesquisa científica em várias áreas que entendem o funcionamento do meio ambiente, desenvolvendo tecnologias sociais para melhorar a qualidade de vida das pessoas que habitam nessas duas reservas. Então, o instituto tem um desenvolvimento muito grande de pesquisa na área biológica, que é uma área muito vasta e também o desenvolvimento da pesquisa na área social. Existem outros institutos de pesquisa aqui na Amazônia, que também hoje são financiados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovações e Comunicações (MCTIC). 

Eles têm um relacionamento muito bom com o instituto, mas o trabalho deles é um voltado completamente à pesquisa científica. Alguns deles têm alguma ligação para fazer um trabalho com populações locais, mas não é o objetivo central como é o do Instituto Mamirauá. O trabalho desenvolvido pelo instituto serve de apoio e de modelo para outras instituições da Amazônia.

Como você avalia a contribuição da Mamirauá para conservação da Amazônia? 

O instituto serve muito de experiência sobre meio ambiente porque damos cursos e recebemos pessoas que vêm se especializar em serem manejadores, em desenvolver tecnologias sociais, em trabalhar em reservas, desenvolver planos de manejo. Vários diretores e funcionários de unidades de conservação, ou de instituições que trabalham com meio ambiente estão em contato constante com o Mamirauá, pedindo orientação. 

A que a senhora atribui esses 20 anos de sucesso do instituto?

A todas as pessoas que trabalharam e continuam trabalhando no Instituto Mamirauá.  

As pessoas, no início, vinham muito ligadas a obedecer ao pensamento do Márcio, que era muito honesto, muito puro e amável ao meio ambiente. Elas conheciam o Márcio e viam a forma como ele pensava, o que ele queria de bom para esta instituição. E elas passaram a querer que o projeto crescesse. Quando o Instituto Mamirauá foi crescendo, as pessoas foram conhecendo o passado e se inspirando.

Nós temos milhões de projetos no Brasil que terminam em um, dois anos. Esse projeto foi responsável pela criação de duas reservas e, depois, virou um instituto, que existe até hoje.

E os próximos 20 anos? O que a gente pode esperar? 

O Márcio me pedia: “não para o Mamirauá, se não vai fechar. Continua até que você perceba que ele não vai mais se extinguir”. Agora, o projeto não vai mais se extinguir, tem a garantia do que ele queria. Isso porque já tem toda uma estrutura de sede, de equipe, de pessoal, e a ligação com Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). 

Com tudo isso, o Mamirauá vai continuar agindo. Claro que, como qualquer instituição, tem os momentos de altas e baixas. Teve um momento de crise em 2015, mas o diretor que estava na época assumiu muito bem e desenvolveu uma filosofia de que os pesquisadores fossem buscar em editais e financiamentos para desenvolver suas pesquisas. Agora, temos um novo diretor que vai fazer tudo isso, também. Mesmo se daqui para a frente tivermos um momento que não funcione tão bem, a instituição não vai parar. 


Ouça a entrevista completa abaixo:



Para assistir a entrevista, clique aqui.

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