Amazônia habitada: vestígios arqueológicos ajudam a desvendar o histórico das ocupações humanas na região

Publicado em:  8 de dezembro de 2015

Os mais de 14 mil anos de ocupação humana na Amazônia vêm sendo traçados por pesquisadores e arqueólogos. Na região médio rio Solimões, arqueólogos do Instituto Mamirauá e do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP) desenvolvem pesquisas que já alcançaram importantes resultados, como a delimitação de um histórico de diferentes fases de ocupação humana na região.

Por meio da parceria, as pesquisas são desenvolvidas desde 2006 em sítios arqueológicos nas Reservas Mamirauá e Amanã e nos municípios de Tefé e Alvarães, ambos no Amazonas. A equipe do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, busca compreender os modos de vida dos povos que ocuparam essas áreas, a partir da análise de vestígios encontrados na região.

O primeiro grupo de ocupação foi denominado como fase Amanã e as evidências foram identificadas no sítio Boa Esperança, no lago Amanã. O interessante sobre esse período é que não há correlação com outras ocupações da Amazônia. “No caso da fase Amanã, a gente não conseguiu relacionar com nada que se conhece, parece uma coisa exclusiva dessa região”, reforça o pesquisador de arqueologia do Instituto Mamirauá, Eduardo Kazuo Tamanaha. 

Eduardo completa que essa fase é anterior à “Terra Preta de Índio”, que são solos férteis compostos a partir de ação antrópica. “A terra preta é o nosso marcador. A gente vê esse solo e sabe que teve muita gente morando e depositando muita matéria orgânica. A hipótese é que, na fase Amanã, talvez a população fosse menor ou com maior mobilidade”, afirmou. 

As primeiras evidências de manipulação antrópica da paisagem, associada a Terra Preta, são da fase Pocó-Açutuba, que tem como área de ocorrência os rios Solimões, Negro, Japurá/Caquetá, Branco, Amazonas, Trombetas e Tapajós. No baixo Solimões, o período estimado é de 300 a.C. a 600 d.C.. E na região do médio Solimões, entre 830 a.C. a 410 a.C..

Os vestígios cerâmicos trazem decorações pintadas e plásticas. “Essa fase tem uma grande dispersão. Encontrada em diferentes locais, com pequenas diferenças regionais, mas partindo de um mesmo pressuposto cultural, mesmos traços e modo semelhante de fazer cerâmica. Tem uma linguagem comum sendo compartilhada por esses povos diferentes e por quilômetros de distância”, conta Eduardo. De acordo com o pesquisador, a hipótese é que a fase influenciou grande parte da Amazônia e, conforme o passar do tempo, cada região desenvolveu suas características particulares.

A fase seguinte, denominada Manacapuru, foi estimada para o período de 400 a 900 d.C., enquanto a Paredão foi entre 600 e 1.200 d.C.. Essas fases ocorreram na região no baixo e médio Solimões. As tribos se organizavam em aldeias circulares com uma praça central e nessas fases é observada intensa antropização da paisagem, com grandes extensões de terra preta, e construção de montículos com sepultamentos diretos e em urnas funerárias.

“Dessa fase para a seguinte, a gente vê uma certa continuidade. Uma hipótese é que poderiam ser dois grupos culturais diferentes, que Manacapuru seria um grupo, e Paredão outro. Mas, quando eles entraram em contato, parece ter sido pacífico e harmonioso, tanto que se vê uma influência de estilo”, afirma Eduardo.

A fase Caiambé ocorreu possivelmente em toda região do médio Solimões e o período de ocupação foi estimado entre 700 e 1000 d.C.. Assim como a fase anterior de ocupação, as aldeias possuíam locais destinados para enterrar os mortos em urnas funerárias e grandes dimensões de terras pretas. 

Posteriormente, surgem a fase Tefé , no médio Solimões, e a fase Guarita, na área de confluência entre os rios Solimões, Negro e Madeira, ambas estimadas entre 500 até 1600 d.C.. Enquanto no médio Solimões é observada uma transição gradual da cerâmica Caiambé pra Tefé, na fase Paredão para Guarita, a mudança foi brusca. O arqueólogo infere que o surgimento da cerâmica Guarita no baixo Solimões foi com muitas guerras. Tanto a fase Tefé quanto a Guarita, se comparadas às ocupações anteriores, apresentam menor intensificação na produção de terras pretas, e maior dispersão cultural, caracterizadas pela policromia, com pintura vermelha e pretas sobre argila branca. 

Atualmente, há conhecimento de 400 sítios arqueológicos na região do baixo e médio Solimões. O arqueólogo enfatiza que “ainda não está claro de que forma essas sociedades se relacionavam com o meio ambiente e outros grupos vizinhos ou quais foram as transformações que ocorreram em seu modo de vida, mas ao longo de 8 mil anos eles se expandiram, ocuparam várias regiões, diversificaram o uso de recursos naturais e modificaram gradualmente a paisagem que os circundavam”.

Por Amanda Lelis

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