Alimentação, um prato cheio para a ciência

Publicado em: 30 de setembro de 2016

 

Está na hora do almoço! Arroz, feijão com jerimum, couve, batata e macaxeira, cenoura, alface e tomate, peixe com farinha, com pimenta, limão e sal para temperar, macarrão, açaí com tapioca e água fresca para completar a refeição. Hummmm! Só de pensar já deu água na boca, né? Mas o que será que a ciência tem a ver com a nossa alimentação?

Hoje, somos mais de 7 bilhões de pessoas vivendo no planeta Terra, haja alimento para esse povo todo! A ciência e a tecnologia são capazes de ajudar a resolver vários desafios, inclusive os da agricultura e da criação de animais, para que todos tenham alimento de qualidade em nossa mesa. Para discutir esse assunto, no ano de 2016, o tema escolhido para a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia, que acontece de 17 a 23 de outubro em todo o país, foi “Ciência Alimentando o Brasil”. No município de Tefé (AM), o evento é realizado na sede do Instituto Mamirauá,  pelo Ministério da Ciência, Tecnologia,  Inovações e Comunicações.

Os técnicos e pesquisadores do Instituto Mamirauá trabalham junto com os agricultores familiares das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã. A iniciativa é para que continuem a produzir de forma sustentável, conservando o meio ambiente, garantindo a diversificação da atividade agrícola e de criação de animais, estimulando a segurança alimentar e a geração de renda para essa população.

A equipe do Instituto realiza oficinas e capacitações para pequenos agricultores e criadores. Também faz o acompanhamento das atividades que acontecem dentro dos agroecossistemas, como a atividade agrícola, a criação e manejo de abelhas sem ferrão, da criação de pequenos animais, da criação familiar de gado bois e búfalos, além de várias pesquisas sobre as atividades nos agroecossistemas. “Essa palavra é a combinação de várias coisas da natureza e da floresta com a agricultura, as principais são: área para plantar, que pode ser uma roça, um sítio, um quintal, bananal e até mesmo uma capoeira, área para criar animais, a floresta onde são feitos os plantios, as variedades de plantas, os animais de criação e, os agricultores e sua família que cuidam da terra e de todo agroecossistema.”, explicou Fernanda Viana, coordenadora do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá.

Fernanda comenta que os pesquisadores e técnicos precisam fazer muitas expedições de campo, para conhecer de perto os trabalhos das famílias das Reservas Amanã e Mamirauá. “Nossa equipe faz expedições para visitar as famílias que moram nas comunidades. Quando eles chegam nas comunidades, contribuem com informações e ajudam os agricultores, os criadores de abelhas, os criadores de pequenos animais e de gado a resolverem as dificuldades que surgem quando estão fazendo o manejo”, disse. 

Nas expedições, a equipe acompanha o dia-a-dia dos comunitários, fazem experimentações e oficinas de capacitação, entre outras atividades. “Ao longo desses anos, o trabalho, realizado em conjunto pelos técnicos e agricultores, amadureceu bastante. As atividades e o manejo realizados pelos comunitários têm muitas informações que são importantes para conservação e para fazer um bom uso dos recursos naturais, que são os recursos que a natureza disponibiliza, como a terra, as frutas, a água, a floresta”, contou Fernanda.

Fernanda disse também que a equipe do Instituto Mamirauá aprende muito com os manejadores: “Os agricultores e os criadores de abelhas e de animais ajudam desde criança, no cuidado com a terra, com os animais, com a floresta e no manejo dos plantios. São essas informações valiosas que são chamadas de conhecimento tradicional, e que devem ser cuidadas e protegidas da melhor forma”.

De acordo com Fernanda, são esses conhecimentos dos agricultores que deixam o solo com boa qualidade para plantar, que ajudam a manter a floresta amazônica viva, além de garantir a milhares de pessoas alimentos saudáveis e com muita variedade. Esses alimentos vêm dos seus próprios plantios e ajudam na conservação da floresta e a manter o abrigo de muitos animais que vivem ali.

As famílias da região produzem e aproveitam o alimento que vem das roças, sítios, quintais e até das florestas. A região é cercada pelos rios, que contribuem para nutrir o solo e também para a dispersão de sementes. Também é pelos rios que essas famílias de agricultores levam seus produtos para as feiras e para os compradores e também por onde passam para trazer outros alimentos que não produzem em suas terras.

Educação ambiental

 

A professora Jucineia da Silva envolve seus alunos com os ensinamentos da educação ambiental / Foto: Amanda Lelis
 

Raimunda Jucineia da Silva é professora na comunidade Ubim, na Reserva Amanã. Filha de agricultores, Jucineia, aprendeu com os pais a atividade que também desenvolve, conciliando com as aulas na escola municipal da comunidade. “Estou fazendo 14 anos de trabalho como professora. Eu sempre gostei de envolver os agricultores e os agentes de saúde nas minhas apresentações, nas palestras, no trabalho dentro de sala de aula, que é pra gente dar valor”, contou.

A professora trabalha com seus alunos incentivando a criatividade. Toda a turma cria poesias e músicas sobre o cuidado com o meio ambiente, o correto destino para o lixo e a valorização das atividades econômicas locais. A educadora disse: “a gente quer conscientizar esse menino no futuro, para ele ser um cidadão que possa contribuir na casa dele, no lugar onde ele vive e com a floresta. A gente cansa de ver hoje, naquele Paraná do Amanã, sacolas, vidros de água sanitária, e isso não é legal. Pra onde é que vai todo esse lixo? Qual é a água que nós estamos bebendo?”.

Como era antigamente?

Você sabia que muitas das plantas que comemos hoje foram domesticadas pelos indígenas há milhares de anos? Isso mesmo! Batata, tomate, inhame, milho, mandioca, pupunha, amendoim, jerimum, mamão e abacate são alguns exemplos.

Na Amazônia brasileira, os pesquisadores de arqueologia demonstraram que as antigas ocupações já existiam na região interferindo no ambiente muito antes da chegada dos colonizadores ao país. Os índios que habitavam a região tinham um grande conhecimento da natureza ao seu redor. Eles já ocupavam grandes áreas, interferindo nessas paisagens, domesticando plantas para consumo há quase dez mil anos. Eram populações organizadas e inteligentes que já iniciavam o que hoje chamamos de agricultura.

O arqueólogo e pesquisador do Instituto Mamirauá, Eduardo Kazuo Tamanaha, comentou sobre as pesquisas na região do Médio Solimões. De acordo com ele, há mais de três mil anos, pequenos grupos indígenas chegaram no Lago Amanã e construíram suas aldeias. “Quase 500 anos depois, essa população cresceu, fundou novas aldeias e começou a produzir muita comida! Quando os primeiros colonizadores chegaram na região, encontraram centenas de aldeias com milhares de pessoas, vendendo e trocando seus produtos e fazendo agricultura com várias plantas e árvores. Usando adubos naturais, eles também criaram uma terra escura que é muito boa para plantar, que algumas pessoas chamam de Terra Preta de Índio”, disse Eduardo.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Mamirauá busca respostas para essa lacuna de conhecimento na região do Médio Solimões. Um dos objetivos é compreender, por meio da análise de vestígios botânicos arqueológicos, um importante recorte da história da ocupação humana na Amazônia. Mariana Cassino, pesquisadora de arqueologia do Instituto, enfatiza que os vestígios botânicos podem elucidar importantes questões sobre o domínio da paisagem e o manejo de plantas úteis nessa região. Esses dados, a partir de vestígios vegetais, contradizem as antigas teorias arqueológicas que tratavam da paisagem amazônica como um terreno pouco ocupado e sem transformação antrópica antes da chegada dos colonizadores. 

“A arqueobotânica, aqui na Amazônia brasileira, ainda é incipiente. Com a análise dos vestígios vegetais, vamos conseguir respostas sobre o uso de algumas plantas há centenas ou milhares de anos, e trazer dados muito concretos e fundamentais sobre o manejo da paisagem amazônica”, disse a pesquisadora, bolsista no Instituto Mamirauá, pelo Programa de Capacitação Institucional, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Mariana Cassino durante análise dos fragmentos arqueológicos em laboratório / Foto: Amanda Lelis

São analisados, na pesquisa, vestígios encontrados nos sítios arqueológicos da comunidade Boa Esperança, localizada na Reserva Amanã (AM). As escavações foram feitas em 2008. Os vestígios coletados para a pesquisa de arqueobotânica são fragmentos de carvão, de cerca de 2.500 anos, encontrados em áreas de “Terra Preta de Índio”. Os fragmentos passam por um processo de limpeza e são triados em dois grupos: lenha e não-lenha.

Mariana comentou que a pesquisa arqueológica traz informações para complementar outros estudos, como os de ecologia, por exemplo. “A arqueologia fortalece esses estudos, com a resposta temporal. A evidência arqueológica que a gente traz, que é uma coisa concreta, pontual e datada é um dado muito forte, muito esclarecedor”, afirmou.

A pesquisadora destaca que, mesmo antes da identificação dos fragmentos, é contabilizado o número de fragmentos nos dois grupos. “Fazer essa comparação relativa entre lenha e não lenha, já é um dado interessante que podemos associar com a quantificação das cerâmicas, com as diferentes ocupações e outras análises que já foram feitas em outras pesquisas. Então, o carvão, mesmo antes de ser identificado, já oferece informações importantes sobre a alteração da paisagem e o uso dos recursos naturais”, comentou.

Com a identificação de parte do material arqueológico, é possível saber das espécies vegetais utilizadas por essas populações antigas. “Existem fragmentos que não possuem nenhuma característica diagnóstica. Outros apresentam ornamentações, ângulos bem definidos, às vezes encontramos sementes inteiras. São estes fragmentos que buscamos identificar através da comparação com a literatura, a coleção de referência e trabalhos de morfologia e anatomia vegetal”, comentou.

Texto: Amanda Lelis

*Essa reportagem foi escrita originalmente para a edição especial do informativo O Macaqueiro - Kids, para a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia 2016. Veja a revista completa!

 

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