Água em casa: tecnologia social promove saúde e qualidade de vida para população rural

Publicado em: 12 de novembro de 2015

Buscando soluções para o desafio do abastecimento de água domiciliar nas comunidades rurais do Amazonas, o Instituto Mamirauá desenvolveu, testou e aplicou um sistema eficaz de bombeamento e abastecimento do recurso, movido a energia solar fotovoltaica. Nas comunidades das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, no Amazonas, onde foi introduzida, a tecnologia apresentou bons resultados e está pronta para ser reaplicada em outras regiões. 

A Amazônia possui a mais extensa rede hidrográfica do mundo, e 63% dessa bacia está situada em território brasileiro. Apesar da abundância de água, grande parte da população da região norte do país ainda não tem acesso à água de qualidade para o consumo. No Amazonas, dos 62 municípios, apenas 17 apresentam condições satisfatórias de oferta de água para a população, de acordo com a Agência Nacional das Aguas (ANA).

Dávila Corrêa, coordenadora do Programa Qualidade de Vida do Instituto Mamirauá, ressalta que o sistema de abastecimento de água com energia solar tem sido trabalhado há quinze anos, em ações de pesquisa e extensão do Instituto, que atua como unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O projeto venceu o Prêmio Finep de Inovação 2012, na categoria Tecnologia Social.

“A proposta foi desenvolver um sistema de abastecimento de água que fosse adequado à realidade local, e que pudesse promover melhores condições de saúde comunitária, com impacto direto na melhoria da saúde e do bem-estar da população”, afirmou Dávila.

Ao menos mil crianças, menores de cinco anos, morrem no mundo todos os dias, em função da utilização de água imprópria para o consumo. Os dados foram divulgados esse ano, no relatório conjunto da Organização Mundial da Saúde e do Fundo das Nações Unidas, que discorre sobre o progresso do saneamento e do uso da água potável, com base nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, e demonstra a urgência na aplicação de alternativas que melhorem estes índices. 

“O primeiro diagnóstico sócio-epidemiológico realizado na Reserva Mamirauá identificou precárias condições sanitárias, que se manifestavam em casos de verminoses que ocasionavam anemia, desnutrição, desidratação e, em alguns casos, até a morte de crianças”, reforçou Dávila.

Ao longo dos anos, a equipe do Instituto aprofundou os estudos sobre o tema e desenvolveu um sistema viável, adaptado ao ambiente de várzea, que anualmente passa por variações sazonais em função do ciclo dos rios. Atualmente, 16 comunidades ribeirinhas das Reservas Mamirauá e Amanã já gerenciam o sistema, que beneficia cerca de 1.500 pessoas, que fazem uso de água filtrada ou pré-filtrada nas suas atividades diárias.

Tânia Maria Souza da Silva, moradora da Comunidade São Raimundo do Jarauá, comentou os efeitos do sistema na saúde dos filhos, após a sua implantação. “Meus filhos pegaram hepatite devido à água. Depois que chegou a água nas torneiras, ela é filtrada, clorada, cuidada. E a criança já toma banho em casa e por mais que beba aquela água, já não faz mal”.

Antes da implantação do sistema, as atividades de rotina das famílias, envolvendo o uso da água, como lavar vasilhas, roupas e tomar banho, eram feitas diretamente no rio, no porto da comunidade.  A água para consumo também era coletada no rio e utilizada sem tratamento, como ainda acontece tradicionalmente na região. “Quando secava, a gente ia buscar água lá fora. Às vezes, a gente pegava da beira e as crianças carregavam porque era muito longe. Era muito perigoso”, enfatizou Tânia. 

Dávila destaca que, após a realização das pesquisas científicas e sociais e de testes pela equipe do Instituto Mamirauá, a tecnologia já está pronta para a próxima fase: a sua expansão para outras regiões da Amazônia, trabalho que só será possível com o envolvimento de parceiros e instituições públicas.

“Acreditamos que é um trabalho conjunto e colaborativo entre o Instituto Mamirauá, que implementa um sistema experimental; a comunidade, que vai ser a gestora local da tecnologia, e o Governo, que pode reaplicar essa tecnologia em outras regiões. A gente busca promover a disseminação dessa tecnologia para comunidades que tenham realidades parecidas com essa que a gente convive e trabalha”, reforça a pesquisadora social.

O sistema atende as necessidades de abastecimento de água de localidades situadas muito próximas ao rio, onde é inviável a instalação de poços artesianos em função das questões ambientais da região. Painéis fotovoltaicos são colocados no rio, sobre balsas flutuantes, e para gerar energia e bombear a água para um reservatório elevado. A caixa d’água é conectada a um filtro de areia que realiza um pré-tratamento da água e a remoção de resíduos. Após a filtração, usando um filtro lento, a água é distribuída por gravidade para a comunidade. Na comunidade, cada domicílio conta com um ponto de fornecimento, recebendo a água que poderá ser consumida pelas famílias após a desinfecção, seja pelo uso de cloro ou por fervura.

Texto: Amanda Lelis

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