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Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Notícias

Rafael Forte

Em Terra Indígena, cerca de 70 pessoas compartilharam experiências sobre o manejo de abelhas nativas da Amazônia

09/08/2017


Cuidadosamente, a jovem indígena Sateré-Mawé retirava o mel da colmeia com uma seringa. Em poucos minutos, uma garrafa de vidro já estava cheia e os olhos cor de mel da menina denunciavam o sorriso escondido por trás da máscara utilizada para a prática da meliponicultura. A jovem é Emily dos Santos Ferreira, moradora da aldeia Ilha Michilles, localizada na Terra Indígena de Andirá-Marau. A aldeia pertence ao município de Maués, no Amazonas, onde foi realizado o Curso de Multiplicadores em Manejo de Abelhas Nativas sem Ferrão.

Durante quatro dias, entre 24 e 27 de julho, cerca de 70 pessoas participaram do curso oferecido pelo Instituto Mamirauá, em parceria com o Slow Food Brasil, um movimento internacional, que atua com a sensibilização para a consciência e responsabilidade para uma alimentação saudável. O encontro reuniu técnicos e manejadores de diferentes regiões do Amazonas e indígenas da etnia Sateré-Mawé de 11 aldeias.

Cada participante do curso se tornou um multiplicador dos conhecimentos compartilhados durante o encontro, contribuindo para disseminar as técnicas e metodologias do manejo sustentável para outras regiões da Amazônia. Estiveram reunidos, além dos indígenas, manejadores das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Amanã e Mamirauá, da Floresta Nacional de Tefé, na região do médio Solimões, de Boa Vista do Ramos, de Maués e de Manaus, além de técnicos de diferentes instituições.

“A gente espera que, com este curso, as pessoas se tornem autônomas do próprio processo, que elas tenham confiança em si próprias, a ponto de levar a atividade pra frente. Seja qual for o foco do criador, seja a subsistência ou seja a comercialização. Que eles sigam fazendo a atividade com autonomia e de forma sustentável, de forma que eles valorizem a abelha daquela região, e façam um bom uso dos recursos”, disse Fernanda Viana, coordenadora do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá.

Por meio de teoria e prática, foram apresentadas técnicas de diferentes etapas do manejo das abelhas nativas, desde a produção de caixas colmeia até o cuidado com as abelhas e boas práticas para a coleta do mel. Também foram tratados temas como a valorização dos recursos naturais e espécies locais, o resgate da cultura alimentar e a valorização da produção orgânica tradicional.

“Agora, o meu sonho já começou. Daqui pra frente, com certeza, já deu frutos pra nós, pra minha área, pra minha família e para meu povo todo. Quando nós produzimos mel de abelha, é primeiro o nosso alimento, da família, saudável do povo.  Se der muito mais mel de abelha, a gente vai procurar outra organização pra revender nosso mel. Então, primeiro ponto, nós iniciamos com a nossa família, nosso povo”, comentou o indígena Simaco Avelino dos Santos. Simaco é morador da aldeia Campo do Miriti, que fica no limite do Amazonas com o Pará e viajou por quase um dia de lancha para participar da capacitação.

O curso foi realizado pelo Instituto, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, em parceria com o Slow Food Brasil. Esta ação é financiada pela Fundação Moore. “A ideia é que eles levem de volta, cada um para sua região, tudo o que eles aprenderam e obtiveram de experiência e que aquilo sirva também para a prática pessoal e para o próprio manejo em sua região”, enfatizou Fernanda.

A jovem Emily, de 13 anos, sonha em fazer faculdade de medicina veterinária para atuar em sua comunidade. Ela conta que aprendeu com as abelhas - ou awi’a, como ela chama o animal na língua materna - a importância do trabalho da mulher. “Eu tirava por lição as abelhas que são fêmeas: as rainhas e as operárias. Porque as operárias que fazem tudo aquilo, que fazem o geoprópolis, o mel. Então, a gente devia tirar proveito da lição delas. Porque elas que são as trabalhadoras e elas não deixam só os homens fazerem. A gente tem que ajudar um ao outro. Eu quero ser uma multiplicadora, quero ajudar os meus pais e também multiplicar as minhas caixinhas”, disse.

Jacson Rodrigues, que é técnico em meliponicultura no Instituto Mamirauá, explicou que o mel é o produto gerado pelas abelhas mais utilizado na aldeia atualmente. “Com a capacitação que foi realizada, destacamos também o potencial para o uso de outros produtos das abelhas como pólen, que não é tão utilizado, mas é um alimento rico em nutrientes, e o própolis, utilizado com um antibiótico natural, ambos muito saudáveis. Todos estes produtos, a partir do manejo que foi trabalhado, apresentam potencial de comercialização e podem contribuir para a complementação de renda dos moradores, completou.

As abelhas nativas da Amazônia

São cerca de 300 espécies de abelhas nativas sem ferrão no Brasil, ou meliponíneos como são chamadas. E 68% dessas espécies estão na Amazônia. “A gente tem uma realidade diferente, por ser de um clima diferente, um bioma totalmente diferente, nosso mel é diferente, nossas abelhas são diferentes. A maioria da população do Brasil conhece o mel das abelhas europeias, africanizadas e não conhece o nosso mel, o nosso verdadeiro mel”, disse Sydnei Dantas Fogassa, que é presidente da Associação dos Criadores de Abelhas do Estado do Amazonas (Acam).

De acordo com Sydnei, há pouca informação sobre os grupos de manejadores de abelhas do estado. Ele enfatiza que não há consenso, por exemplo, sobre o número de criadores de abelhas e produtores de mel. “Buscamos formalizar ou congregar uma rede que luta pelos direitos da criação de abelhas, valorizando a cultura local, valorizando o mel nativo, valorizando as espécies que existem, valorizando quem depende dos frutos que as abelhas polinizam”, disse.

Os indígenas Sateré-Mawé já tentaram o manejo de abelhas nativas anteriormente, mas a iniciativa não deu certo. O curso surgiu a partir de uma demanda deles, que queriam resgatar a atividade visando contribuir para a polinização do guaraná, produzido e comercializado na região. O representante do Slow Food Brasil, Carlos Alexandre Demeterco, conta que durante uma atividade realizada com as aldeias, no último ano, foram identificados os gargalos do manejo e solicitada uma capacitação pelos indígenas.  E, com o apoio do Consórcio de Produtores Sateré-Mawé, a iniciativa pôde ser concretizada.

“Essa atividade contribui principalmente para chamar atenção e reforçar junto com eles a parte mais técnica da criação. A ideia é trazer essa experiência para um povo que já participa do Slow Food desde o início, para resgatar um alimento que é nativo, que é regional, que faz parte da tradição cultural dos povos da Amazônia, que é o mel da abelha nativa. Essa é uma das maiores bandeiras do slow food: o resgate da cultura alimentar”, destacou Carlos.

O povo Sateré-Mawé

Filhos do guaraná, como são conhecidos, os indígenas Sateré-Mawé foram os responsáveis pela domesticação da planta, que fornece ainda hoje o principal produto para geração de renda e tradição das famílias. Os Sateré-Mawé habitam, principalmente, a Terra Indígena Andirá-Marau, na fronteira entre os estados do Amazonas e Pará. A população é estimada em cerca de 13 mil indígenas, de acordo com o Conselho Geral da Tribo Sateré-Mawé. A língua materna tem o mesmo nome da tribo e vem do tronco linguístico tupi, mas grande parte da população é bilíngue, se comunicando também em português.

“Dessa terra demarcada do povo Sateré-Mawé, a gente vem vendo que sempre o povo teve momentos de luta pra preservar a cultura, a língua, as tradições, e principalmente a natureza, o rio, a floresta, os animais. Porque a gente, como Sateré-Mawé e como todos os povos indígenas, depende da floresta, do rio, do ambiente que nós vivemos”, disse Josibias Alencar dos Santos, tu’isa – como é chamado o líder na língua materna da tribo - da aldeia Ilha Michilles. Em sua fala, Josibias reforça a desafio de lutar para que as famílias não percam a tradição do plantio orgânico e da cultura local. Os produtos comercializados por eles, são certificados como de origem orgânica e de agricultura familiar.

“É importante cuidar da natureza pra gente ter um ambiente desse, bem gostoso, saudável. Uma convivência em harmonia. Sempre mostrando pras pessoas que é possível utilizar a terra sem prejudicá-la. Cuidando daqui, nós sabemos que estamos cuidando de muitas pessoas que, às vezes, não têm nem ideia do trabalho que nós estamos realizando. Estamos contribuindo para o equilíbrio do Brasil e do mundo também, né”, completou o líder da aldeia.

Texto: Amanda Lelis

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